sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Eu ainda estou aqui

Dia desses eu estava na Argentina – e digo isso com aquele ar de rotina, porque Foz do Iguaçu está começando a causar isso em mim – quando entrei em um mercadinho onde costumo comprar vinhos importados à custo de Canção e fui abordado pela atendente que pareceu me reconhecer. Em instantes ela fez questão de me direcionar ao corredor dos vinhos e me apontou uma caixa fechada com seis unidades, pronta para ser passada no caixa. Quando outro atendente veio chamá-la, ela comentou algo com ele sobre mim que, de volta ao Brasil, eu procurei traduzir. Foi algo do tipo “este é aquele rapaz que sempre leva Pinot Noir!”, e me fez pensar em duas coisas. Primeiro: talvez eu não seja mais tão estrangeiro assim na terra das Cataratas. Segundo: agora é oficial – minha bebedeira tem fama internacional.

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Faz algum tempo que eu não escrevo. E como já era de se esperar, a culpa é do Outubro. O mês das crianças, de Nossa Senhora Aparecida, da mudança para o horário de verão, de eleições a cada quatro anos e, inevitavelmente, do meu aniversário. É a época do ano em que eu indeliberadamente me ponho a tirar um extrato da minha vida e me deprimo quando insisto em enxergar um saldo negativo. Só que ao reconsiderar meus últimos balanços dos anos anteriores, acho que fui bem mais rico do que pude admitir. Visto que nesta última transação, foram subtraídos do meu caixa um emprego, um apartamento, um relacionamento e mais uma cidade. E eu admito que isto faz parte de um investimento a longo prazo para ganhos ainda maiores do que os que já conheci, mas é difícil ser otimista em tempos de crise. Especialmente as existenciais.

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Levaram quase vinte dias, três cidades e dois países, mas eu finalmente decidi enfrentar minha negação diante de mais uma folha em branco do Word para escrever sobre o que está me incomodando. Eu andei viajando bastante; fui para casa por uns dias e depois, bom, visitei minha outra casa antes de, an... Voltar para casa de novo. E é claro que eu me perdi entre um ônibus e outro, em mais uma daqueles devaneios do tipo “não sei mais aonde é o meu lugar”, etc, etc. E estou driblando os parágrafos de angústia e nostalgia porque já não ficam mais tão bem para alguém da minha idade. Jovem, porém com um nível de maturidade que não permite mais tanta lenga-lenga sobre o passado, mudanças e afins. A vida é o que é e a gente faz o que pode. No meu caso, estou fazendo o que posso para chegar no que quero ser. E esta é toda a metafísica que teremos aqui por enquanto.
Passei por Londrina para visitar a família, depois fui para Cascavel para rever os amigos, até finalmente voltar para Foz do Iguaçu, onde... Onde as reticências ainda dominam. Nada realmente me mantém aqui, e é isso que respondo quando me perguntam “Por que você não volta para [cidade em que estou no momento da pergunta]? O que está fazendo em Foz do Iguaçu?”.

“Nada.”

E é isso que me incomoda. Nem tanto pelo aniversário, ou o calor infernal, ou as tentativas das baratas de darem uma festa surpresa para mim na área de serviço do apartamento. É o nada. Eu não sou a melhor pessoa para lidar com perdas ou fracassos, mas ao menos consigo enxergar alguma metáfora para me reconfortar enquanto eles não passam. Mas quando nada acontece... Nada é insignificante, intransitivo, imóvel. O que eu deveria aprender com isto? Paciência? Já passamos deste ponto, Vida, você sabe disso. Se virtudes são como lições que devemos aprender para crescer na vida, “paciência” seria equivalente aos 25% de falta que posso ter durante o curso.

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Aí eu voltei para Foz do Iguaçu e tentei recuperar o feito que havia alcançado antes das andanças por aí, ao me colocar na minha trilha de corrida em direção aos 10 km mais uma vez. Às vezes a minha inocência/ignorância me protege de sentir o real impacto das decepções do mundo, mas não desta vez. Desta vez a incapacidade de correr me deixou ainda mais deprimido. E me mantive assim por uns dois dias até resolver tentar de novo, graças ao calor infernal que me obrigou a sair de casa para redescobrir o fenômeno do vento, mesmo que eu mesmo tivesse que criá-lo.
Correndo mais lentamente até o meu percurso habitual, me deparei com outros dois corredores há poucos metros na minha frente. E nem precisei me forçar muito para não tentar competir com eles – como eu fiz daquela outra vez – pois não parecia haver muito fôlego restando em mim para isso. Apenas continuei correndo, lentamente e continuamente, até chegar a um trecho do caminho que eu simplesmente nunca havia conseguido atravessar correndo direto. Eram uns quinhentos metros aproximadamente em que meu corpo automaticamente desacelerava até voltar a andar antes de retomar a corrida em outro trecho, e era algo que se repetia todas as vezes a cada corrida. Exceto por aquela vez, a dos 10 km, em que eu parecia imbatível.

Talvez fosse por isso que eu estivesse tão deprimido, incapaz de continuar correndo, de ultrapassar as outras pessoas, de escrever ou até de abandonar o sonho de fazer disto uma profissão rentável e voltar para casa – seja lá em qual cidade isto seja agora. Eu havia conseguido correr uma distância incrível há pouco tempo atrás, coisa que agora parecia impossível. Bem como o emprego, o apartamento, o relacionamento e tudo mais que eu já havia conseguido antes, que deixei para trás em prol de reconstruir a minha vida do jeito que eu sempre quis – não somente do jeito que podia ser feito até então. A vida não deve ser um “pode ser”; deve ser um “é isso!”. E demorou muito para que eu finalmente entendesse que um “pode ser” não vai me fazer feliz. “É isso!” ou nada.

E, enfim, eu entendi.

Este é o “nada”. São os quinhentos metros em que o meu corpo desacelera por conta própria, porque não dá conta de correr o percurso inteiro. Pelo menos não agora. Por um dia ele conseguiu, mas a vida – que tem seus imprevistos e, convenhamos, seus outros caminhos disponíveis para serem trilhados mas que nem sempre levam adiante na estrada – me tirou da rotina que eu finalmente comecei a me habituar em Foz do Iguaçu. Foi ótimo voltar para casa – para todas elas – mas a estranheza em estar aqui de volta é exatamente o que eu estava certo de que não poderia ser: esta cidade está finalmente sendo familiar para mim.

Passou quase despercebido por mim, mas eu já havia passado daquele trecho do caminho e estava correndo de novo. E só me dei conta disto quando acidentalmente ultrapassei os dois caras que estavam à minha frente até então.

***

De volta em casa, em Foz do Iguaçu, eu parei para me sentir mais contente com todo o caminho que já percorri na vida. E por ser sortudo o bastante em estar apenas há um ônibus de distância de tudo e de todos por quem passei. Porque quando eu volto é como se tempo nenhum tivesse passado por nós. A família ainda acolhe. Os amigos ainda reconhecem. E parte de mim permanece com eles. Assim como eu aprendi quando a moça do mercado argentino já reconhece de longe a minha fama por vinhos finos e descontos quando se compra uma caixa inteira, algumas coisas podem sim ser inesquecíveis.

Eu ainda estou aqui.