terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Você vai adorar o amanhã

Eu não sei quando foi que as coisas ficaram assim, tão difíceis. Ainda me lembro de quando a vida costumava ser leve, suave, convergente. Não posso dizer que um dia foi fácil, porque nunca realmente foi. Mas costumava ser mais prático, ao menos. Ao contrário de hoje, onde tudo parece ser tão... burocrático. E talvez a vida adulta seja isso mesmo – uma luta diária entre crenças e protocolos, onde mais vezes do que eu gostaria de admitir, o capitalismo se sobressai perante as minhas esperanças.

Já se passaram sete anos desde que eu saí de casa. E por casa, leia-se a minha cidade natal. O lugar em que nasci, cresci, conheci algumas pessoas – muitas das quais não passaram pelo teste do tempo – e aprendi algumas coisas que definitivamente não foram o suficiente para me preparar para tudo que ainda estava por vir. Não querendo dizer que nós estaremos milagrosamente prontos para descobrir o que a vida nos reserva a cada novo dia que temos a sorte de receber. Completo com todas as possibilidades existentes para salvar o mundo, ou cometer mais alguns erros de julgamento para a nossa coleção.

Mas o que eu quero dizer, sinceramente, nada tem a ver com a claustrofobia do horário comercial ou a pressão dos poucos dias da semana que a vida de adulto considera como úteis. Ou talvez tenha, e eu perdi o que queria dizer no meio de toda essa papelada na minha mesa. Me desculpe por isso; as coisas são bem corridas aqui no escritório. Pessoas falando alto, telefones tocando, e-mails que não param de chegar... Prometo que voltaremos a conversar assim que eu chegar em casa. Quando as coisas estiverem mais tranqüilas.

Esses são alguns dos clichês que eu aprendi a repetir dia após dia, ao contrário das crenças que eu costumava carregar comigo por aí. Crenças que me ajudavam a lembrar que, não importa o que aconteça, você vai adorar o amanhã.

É... Eu me lembro disso. E me lembro que era bom.

Minha vida costumava ter prioridades diferentes. Amor era o motivo pelo qual eu levantava da minha cama pela manhã, e meus amigos eram o motivo pelo qual eu sempre conseguia voltar para casa. Mesmo quando não encontrava o amor por aí. Era um tempo mais inocente, eu admito. Intocado pelas pressões trabalhistas e preservado das dores e traumas que só um coração partido viria conhecer. Mas o mesmo tempo que nos empurra adiante, é o mesmo que nos assombra com o passado. E diante de tantas contradições, deadlines e normativas, a noção de que tudo ficará bem torna-se cada vez mais rarefeita. E o amanhã no qual eu tanto acreditava parece estar sempre a mais de um dia de distância.

Há quem me veja hoje e se surpreenda com o meu mau humor e a rapidez do meu desdém. Ao contrário do amor que eu costumava procurar, de uns tempos pra cá eu decidi que só sobreviveria aos meus dias no mundo lá fora se saísse de casa com meu sarcasmo engatilhado. Auto-preservação tem seu preço, e geralmente o cobra através da pessoa que abrimos mão de ser. Por isso dei um tempo na escrita, nas reflexões e nas trilhas sonoras que eu gosto de deixar registrados aqui. São equivalentes a migalhas de pão que aquelas crianças perdidas na floresta em uma fábula qualquer deixavam para trás pelo caminho que percorriam, para ajudá-las a voltar para casa. Mas a vida não é um conto de fadas, nem uma comédia romântica, nem possui sentido o suficiente para render um enredo coerente. A vida é só... a vida. Uma série de eventos aparentemente aleatórios que só possuem significado quando você decide parar para pensar sobre aonde está indo, da onde veio, e como faria para voltar para casa se precisasse.

Bom, eu ainda me lembro do caminho de volta para casa, e por tudo que passei para chegar até aqui. Só não sei mais aonde estou indo. E se eu me conheço bem, só há um jeito de redescobrir isso. Começando por desenterrar minhas razões para acreditar que o amanhã que procuro não está tão longe assim.

***

A idéia para este blog surgiu para me ajudar a descobrir por onde eu estava andando, enquanto ainda me adaptava aos marcos turísticos e definições dispersas do centro da cidade de Foz do Iguaçu. E depois de quase um ano e meio, acredito que ele tenha servido seu propósito com louvor. Foi tão útil, aliás, que não só me guiou enquanto eu desbravava este admirável novo mundo, como também me ajudou a reencontrar um antigo. Um lugar muito especial para mim, que carregava consigo uma mensagem muito importante. E para seguir adiante daqui, é essa mensagem que eu preciso voltar a carregar comigo.

Obrigado a todos que acompanharam as postagens, os dramas, as irreverências e as trilhas sonoras do Tranqueiras do Paraguai. Eu não teria chego até aqui sem vocês, mas algo ficou faltando nesse meio-tempo, e é isso que eu vou trazer de volta em 2017.
Para quem ainda não conhece, me acompanhe no próximo ano. Você vai adorar o amanhã.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Quem é você agora?


Entre todas as coisas das quais eu sinto falta nesta vida, o vazio que mais me entristece é aquele com o meu próprio formato. Tem dias em que o eco da pessoa que eu costumava ser tão soa tão alto ao ponto de me incomodar, mas seu impacto sempre me encontra à noite, entre o momento em que eu deito minha cabeça no travesseiro e a odisséia que se passa dentro dela até a manhã seguinte. Aqui e agora não me refiro à eventual maturidade pela qual todo mundo passa, conforme a vida adulta se encarrega de roubar o que nos resta de inocência e despreocupação perante ela. Só quero dizer que... Eu não sei. Algo vem acontecendo nos últimos anos, meses, semanas... Ou, melhor dizendo, nada mais acontece. Nada mais me inspira, emociona, anima. Os dias, assim como os problemas, vem e vão. E o que fica, sinceramente, não me parece ser o bastante.

Eu não gosto de ser tão problematizador. E nem gosto de usar palavras tão complicadas assim também. Houve um tempo em que a vida costumava ser mais simples, mais leve... E a pessoa que eu costumava ser – a pessoa que eu gostava de ser – parece ter morrido um pouco a cada dia que passou, e que me trouxe até aqui.

A você que está lendo isto agora – é, você mesma – eu tenho que confessar que sinto muito.

***

Gostaria que você tivesse me conhecido por inteiro, e não quebrado do jeito que estava quando me encontrou. E eu sinto muito se, em parte, quebrei você também. Às vezes quando se passa muito tempo sendo vitima de eventos infortúnios e pessoas incompletas, não como evitar provocar este mesmo efeito às pessoas que você conhece desde então. Claro que isto não é uma desculpa para o meu comportamento, nem uma justificativa determinista para apaziguar a minha consciência.

A verdade é que eu amei pouco você, menos do que admitia estar sentindo. Não por maldade ou falsidade. Eu só não sei amar. E parecia bem mais fácil abandonar você, julgando que você também não sabia, do que admitir a realidade. Quem não sabe amar, também não sabe reconhecer quando é amado.

E se eu te mandei embora, e desapareci... Bom, isto é só mais um sinal de quem eu sou agora. Quem eu costumava ser jamais mandaria alguém embora – não ao menos sem uma explicação. Mas pessoas em quem eu confiava, e até mesmo amava, desapareceram da noite pro dia para mim. E a herança que deixaram, no abismo das suas reticências, foi a noção de que isto é normal. Desistir é normal. Desapegar é aconselhável. Dar uma segunda chance é impensável. Criar expectativas é o começo do fim.

Não gosto desses valores, nem do efeito que provocaram na minha vida de uns tempos e pessoas pra cá.

De vez em quando você precisa se perguntar, “quem sou eu agora?” E se a resposta te impedir de dormir à noite, algo precisa ser feito. Eu não sei o que farei ainda – “mudar” parece abstrato demais para ser prometido, sem ter ao menos um plano em mente. Mas o status quo não é mais uma opção. Inércia não deve fazer parte do meu vocabulário. E não há nada de ridículo em sorrir em fotos ou deixar de franzir a testa ao escutar algum absurdo.

O objetivo disso tudo não é ser feliz? Por que eu fujo tanto disso então?

Ah, disso eu me lembro. Me disseram que eu não era capaz de sossegar. Que ser inquieto, neurótico, inconstante e destrutivo fazem de mim quem eu sou. Só para jogar na minha cara logo em seguida que a mulher da minha vida – a mulher com quem eu sonho, para quem eu escrevo e por quem eu choro – não existe. E o dia em que eu comecei a morrer foi quando comecei a acreditar nisto. Dia após dia, ano após ano, decepção após decepção, eu desapareci.

Não é só você quem sente a minha falta.

***

Isto é só um texto. O último por um tempo, até que eu consiga recuperar meu fôlego. E quem sabe, se eu tiver sorte, também consiga recuperar um pouco de quem eu costumava ser também. Porque se você foi embora, certamente teve seus motivos. E a minha parcela de responsabilidade está entre eles. Se há alguma chance de aprender a amar, perdoar e dar segundas chances, preciso começar comigo mesmo. E pra ser sincero, isto é algo que eu também recomendo a você. Todos nós temos os nossos defeitos, mas foi preciso duas pessoas para fazer com que “nós” também deixasse de existir.

Quem é você agora?

sábado, 12 de novembro de 2016

Amor: um arquivo temporário


Existe uma pasta escondida nas profundezas do disco rígido do meu computador que quase nunca é acessada. Nem por mim, nem por ninguém. Não está protegida por senha, nem está nomeada para orientar quem passa por ela a estar ciente sobre o que está guardado ali. E o que há nela, bom... É algo embaraçoso, eu confesso. Algo que, admito, não deveria existir há um bom tempo. E mesmo assim, ela se mantém intacta, salva e arquivada em uma outra pasta que também não está escondida ou bloqueada para que terceiros vejam o que ela contém. Ela só está ali, imóvel, intacta e impiedosa, se eu precisar adjetivar o seu conteúdo também. E ela continua ali por um motivo, é claro. Só não me pergunte qual é, pois se não há justificativa para a sua criação, quem poderá dizer da sua permanência? Mas algo a mantém ali, e é nisso que eu parei pra pensar nesta noite.

Depois de estações passarem sem que ela fosse redescoberta, eu a encontrei mais uma vez em um fim de tarde de primavera. Só porque eu escutei uma canção tocar – uma que, assim como aquela pasta, eu procuro sempre evitar. Mas o modo aleatório pelo qual a vida se inspira é mesma configuração pela qual a minha playlist do iTunes opera. E com a primeira batida daquela música, eu me recordei do que costumava acompanhá-la. Ou melhor, de quem costumava acompanhá-la.

***

Dizem que amor de verdade só existe quando é compartilhado. E apesar de toda a minha ironia, sarcasmo e deboches com os quais eu normalmente me expresso pela vida afora, minha esperança em ser uma pessoa melhor, mais feliz e mais amável sempre residiu no que eu já fui capaz de escrever. Especialmente quando estava falando de outra pessoa.

Se eu já escrevi algo para você, direta ou indiretamente, e deixei que você soubesse disso, saiba também que eu te amo. E se nós não nos falamos mais, saiba que por um tempo considerável – o tempo que levei para organizar meus pensamentos em parágrafos e em uma trilha sonora para acompanhá-los – eu realmente amei sim. Mas a mesma profundidade que as palavras são capazes de expressar, também pode ser facilmente esvaziada por elas. Assim como algumas pessoas.

Eu ainda tenho guardado em um submundo de pastas digitais quase todas as homenagens que já escrevi nesta vida. Para amigos que estavam comemorando aniversários, casais que celebraram sua união e me convidaram para apadrinhá-los, ou amores que se esconderam debaixo da minha pele tão sutilmente que não havia mais como esconder o que eu estava sentindo. E a regra é clara: a única maneira de estar realmente sob o controle das suas emoções, é se rendendo a elas. Coisa que eu já deveria ter aprendido há anos também, depois de tantas palavras que já distribuí por aí. Mas algumas mensagens simplesmente passam em vão por nós. Assim como algumas pessoas, também.

O que aconteceu com a gente? Nós costumávamos ser amigos, ao menos.


***

O motivo pelo qual esta pasta não deveria mais existir é claro: algumas pessoas se foram, e as homenagens já não possuem mais o seu sentido original. O sentimento de comemoração por estarmos um na vida do outro foi pedido de algum jeito, em algum momento do tempo que passamos juntos. E quanto mais eu insisto em ignorar que esses textos ainda estão salvos aqui, acumulando espaço, poeira e saudade, mais frequentes se tornam os tropeços que eu sofro ao reencontrá-los.

Apesar de serem rascunhos de desejos de felicidade e promessas de amor eterno que não provocam mais nada a não ser eco, eu ainda os vejo como artefatos. Souvenires de um tempo mais feliz. Lembranças de algo que talvez nunca irá voltar, mas que por um momento pareceu ser absolutamente tudo o que importava no mundo.

Lembra de quando só o que importava era estarmos juntos? É, nem eu. Mas as provas estão aqui e são irrefutáveis. Por alguns minutos, enquanto você lia, eu te fiz feliz. E antes disso, por dias e horas que passei pensando em como poderia escrever exatamente tudo o que estava sentindo, com as palavras certas e a música certa para deixar como dedicatória, eu amei você. E compartilhei, porque queria que fosse de verdade.

Não é amor que ainda mantém todos esses arquivos salvos aqui, e não é saudade o que eu sinto quando crio coragem de rele-los. Só há, então, uma explicação: é o controle que eu ainda consigo manter sob o que restou de nós. E seja lá o que tenha acontecido para fazer com que eu perdesse o carinho em escrever o seu nome, de alguma maneira ainda estamos juntos.

Houve um dia em que tudo o que eu mais queria nesta vida era ser inesquecível para você. E de uma maneira pequena, infame e abstrata, eu consegui. Só não estou mais por perto para avisar que isto aqui também é sobre você.

domingo, 6 de novembro de 2016

Agonia e ex-tase


Nós terminamos. Não era isso que você queria quando decidiu sair da minha vida? Bom, aqui estamos nós, querida. Separados. Exilados. Finitos. Não conseguimos ser felizes juntos, ao que parece, e não há mais o que fazer a não ser aprender a lidar com isto. Mesmo firmando todas aquelas promessas durante as nossas primeiras conversas, sobre não desistir, não render-se e não desaparecer, alguns compromissos parecem tomar uma forma séria demais, pesada demais, para serem levados adiante. Pelo menos foi assim que eu escolhi entender, para a minha própria paz de espírito. Algo deu errado ao longo do caminho, e você não conseguiu mais me acompanhar. Talvez eu tenha apressado as coisas, ou intensificado demais alguns sentimentos que estavam só começando a conhecer a luz do dia. Eu não sei. E talvez eu nunca descubra qual foi o motivo exato que provocou a sua partida.

Mas tem algo que você precisa entender, meu bem: não deixe as minhas palavras te enganarem. Sim, eu ainda passo noites sem dormir pensando nisso. E sim, eu ainda tento imaginar como estaríamos hoje. Talvez deitados preguiçosos na cama, pensando em mil planos diferentes para aproveitar o domingo, até enfim nos entregarmos à inércia para permanecermos juntos, abraçados entre os lençóis, enquanto a vida lá fora nos permite desacelerar por um dia. Eu poderia criar coragem para levantar e preparar um café da manhã especial para nós, e trazê-lo até a cama. E poderia me apaixonar por você de novo ao ver os raios de sol entrando no quarto pelas brechas da cortina, iluminando você com uma das alças da camisola caída, o cabelo todo bagunçado, sem maquiagem e sem nenhuma preocupação por isto. Porque você estaria livre para existir sem filtros e sem medos. Afinal, estamos juntos. Em casa. Do jeito que sonhávamos que estaríamos.

É claro que eu ainda penso nisso. É o meu jeito de sentir a sua falta – em literatura, em devaneios e até mesmo em trilhas sonoras. Tudo muito poético, emocionante, carinhoso... Mas permita-me ser sincero, amor: eu não quero você de volta. Porque você teve a sua chance. E apesar de todo o amor que existe em mim – o amor que eu desesperadamente tentei oferecer a você – eu prefiro guardá-lo para mim, do que arriscar ser abandonado no vácuo de novo.

E você sabe disso.

Você sabe que não deveria ter me deixado. Senão por que ainda estaria aí, acompanhando fielmente os meus devaneios infames? Apenas esperando por um sinal que confirme que ainda penso em ti. Procurando incessantemente por alguma indireta que remeta a um dos momentos que compartilhamos que possa significar que ainda há esperança para nós. E é aí que reside a tragédia, que talvez o único sentimento que anda nos mantém juntos: eu me lembro de tudo.

***

Eu me lembro da primeira vez em que criei coragem de olhar nos seus olhos. Aqueles olhos que pareciam me seduzir e me decifrar com uma facilidade assustadora. Capaz de me inspirar a abrir mão das minhas defesas, e até mesmo dos meus medos, para arriscar segurar a sua mão logo após ter a felicidade de conseguir fazer você rir. E diante daquele sorriso, aqueles lábios, não havia mais nada no mundo que me importasse. E eu me lembro que quando beijei você, eu não queria mais parar.

Você conseguia ser tão envolvente, tão viciante, que me fazia querer perder o controle. Logo eu, tão metódico e organizado, só conseguia pensar nas minhas mãos na sua cintura, arrancando a sua roupa e atirando-a para longe, enquanto meu corpo colava-se ao seu ao som do seu fôlego se perdendo. E ao passarmos para a horizontal, não havia mais limites nos impedindo de nos tornarmos um só foco de calor, prazer e êxtase. Cada vez mais forte, intenso, úmido. Sentindo o toque suave da sua pele em contato com a minha, enquanto você implorava que eu não parasse por um só segundo, mesmo que o mundo estivesse acabando lá fora. Nada mais importava, a não ser você e eu, juntos, movendo-se ao mesmo ritmo e abdicando por completo de qualquer temor ou indagação. A satisfação da redenção talvez fosse a maior fonte de felicidade que você já havia conhecido até então.

Você nunca se sentiu tão livre como esteve durante aquelas noites nos meus lençóis.

***

O problema, minha linda, é que eu também me lembro dos momentos fora dos lençóis. Me lembro dos planos que você desfez em cima da hora, e de me deixar sozinho em casa para que pudesse atender a outros eventos aparentemente mais importantes do que nós. Me recordo com clareza de criar coragem o suficiente para perguntar quando nos veríamos de novo, só para ser visualizado, ignorado e abandonado. E eu definitivamente jamais esquecerei do que me disse quando tentei entender porque você estava me deixando:

- Você poderia ter dito que não gostava de mim.
- Não é que eu não goste de você.
- O que é então?
- ...

Aliás, nunca me esquecerei do que você não disse.

***

Eu gostaria de ser feliz com alguém. Claro que é difícil, envolve sacrifícios que você nunca pensou que precisaria fazer um dia, além de muita dedicação, paciência e confiança que devem estar envolvidas o tempo todo. Mas quando se há sinceridade, companheirismo e afeto, não há nada que nos impeça de sermos mais um daqueles casais clichês que passeia de mãos dadas no shopping, depois de visitar algumas lojas de departamentos para pesquisar preços de jogos de lençóis, e antes de passar no mercado para comprar as coisas que faltam para fazer um jantarzinho romântico a dois que servirá de prelúdio para a estréia da cama nova.

E por um tempo, eu pensei que poderia ser a gente. Tínhamos tudo para conseguir abrir mão do carrossel incessante de frustrações e cansaço envolvidos em primeiros encontros, segundas intenções e indiretas escritas em terceira pessoa. Mas você me deixou, amor. Mudou de idéia na metade do caminho e foi embora, sem nem me dar a cortesia de um motivo ou um adeus. Você, que já significava mais do que tudo para mim, tornou-se nada. Um contato a mais na minha agenda e uma decepção a mais no meu coração.

Eu tentei. Queria ser o primeiro a te desejar um bom dia, e o último a te dar um beijo de boa noite antes de dormir. Queria o êxtase das noites de sábado, e a preguiça das manhãs de domingo. Queria as mãos dadas no shopping, e os corpos entrelaçados na cama. Queria pecar pelo excesso, pelo exagero e pela infâmia, do que pela falta, pelo descaso ou pelo descuido. Queria que você não tivesse dúvidas de que eu estava mesmo à procura de algo sério. Desesperado para descer do carrossel, e construir algo contigo que fosse digno do que nós dois merecemos, e aconchegante o bastante para receber os amigos para jantar nos finais de semana. E é por saber que eu tentei – e como eu tentei – que eu não me arrependo dos desabafos, dos devaneios e do desespero que ainda restam em mim. E, definitivamente, não me arrependo em ser claro e objetivo em dizer que não quero você de volta. Eu estava aí, coração, entregue a você. O mundo já sabia que eu era seu. Só você não me viu. Mas nós terminamos e agora você está aí, roendo as unhas, agoniada na cadeira ao ler isto, desencantada com a minha frieza.

E, ironicamente, só há uma coisa que você pode fazer agora para se sentir melhor: me abandone de novo.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Não sei porque você se foi...

É claro que eu sinto a sua falta. Você sabe disso, porque eu nunca fui bom em disfarçar o meu amor pela vida afora. E eu sei que você sente a minha, senão o que mais justificaria estarmos aqui? Conversando indiretamente? Pensando seriamente em como seria bom deixar o orgulho de lado para te desejar um bom dia mais uma vez. Mas eu não posso fazer isso. Ou não devo? Eu não sei. As coisas andam tão confusas desde que você se foi. E por mais que eu soubesse que ficariam assim, eu ainda tive esperanças. A mesma esperança que me motivou a cumprimentar você pela primeira vez.

Ninguém começa nada imaginando em quando ou como irá terminar. Foi assim que eu encontrei você – esperando inocentemente pelo melhor. Mas parte de mim – aquela que eu comentei contigo, cheia de traumas, cicatrizes e medo – permanece invariavelmente alerta aos sinais de que o fim está sempre próximo. A cada resposta impensada, cada movimento brusco, cada olhar desencantado. Eu não te avisei que as pessoas sempre vão embora? Não te disse que havia algo de errado comigo? Mas você disse que era só coisa da minha cabeça, que eu devia relaxar, e que tudo ficaria bem.

Bom... As coisas não estão bem, querida.

***

É como se um vazio imenso existisse em mim agora. E que só aumenta com cada coisa que eu precisava desabafar, mas que de nada adiantaria ser dito se não fosse a você. Começando pela pergunta que me mantém acordado à noite, virando de um lado pro outro em constante indignação: por que você sumiu?

O que te fez ir embora? Foi alguma coisa que eu disse? Algo que eu fiz? Ou então, algo que lhe fazia falta, e que você automaticamente presumiu que eu não seria capaz de proporcionar? Parece mais irônico do que triste; sentir que algo lhe faz tanta falta em alguém, ao ponto de preferir fazer falta para ela também. E por mais que eu seja obrigado a dizer que entendo esse tipo de movimento, eu... Não entendo. Até mesmo quando quem partiu fui eu.

Mas você disse que seria diferente. Disse que eu podia confiar. Prometeu que estaria aqui.

***

Algumas perdas doem mais do que outras. Quando as pessoas se vão por causas naturais, a indignação eventualmente cede seu lugar à aceitação. Somos seres naturais dotados de uma vida finita em um mundo inconstante. A partida é a única certeza. A imutável definição que tomará conta de nós mais cedo ou mais tarde. Mas quando as pessoas partem só para longe de nós, e ainda permanecem no mesmo mundo que a gente, é como se eu morresse de novo e de novo e de novo a cada encontro inesperado na rua. Revivendo o choque e a desilusão de que você está por aí, livre, sendo mais feliz do que pensou que poderia ser ao meu lado. E é um direito que a gente tem, sem dúvida. Desapegar-se de algo ou alguém que já não combina mais com a gente, para seguir um caminho por conta própria pode ser mais saudável do que passar uma vida inteira acorrentado a um compromisso com outra pessoa que simplesmente não nos entende. Ou pior; uma pessoa que simplesmente não se importa se estamos ali ou não.

Eu só queria que você tivesse sido sincera. Tão sincera quanto eu tentei ser ao entregar as minhas dúvidas, meus sonhos e todo o meu amor em suas mãos. Entendendo que você queria recebê-los. Confiando que você ia cuidar da gente também.

Por que você teve que ir embora?!

Eu fico constantemente assustado com o quão rápido nós passamos da mais profunda intimidade a nada. Deixando toda a cumplicidade, as piadas bobas, o gosto do seu beijo, o toque suave da sua pele, o cheio apaixonante do seu perfume, se perderem em reticências que nunca levarão a uma explicação.

Você só sumiu, da noite pro dia, e não a nada que eu possa fazer senão superar. Aceitar. E encontrar em mim de algum jeito, fôlego e forças para tentar mais uma vez com outra pessoa. E eventualmente eu conseguirei fazer isso. É claro que conseguirei. Eu mesmo me assusto com o otimismo e a esperança que ainda vivem em mim.

Mas existem dias, como este, em que eu preciso parar e confessar o quanto eu honestamente, loucamente e profundamente gostava tanto de você.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Nada será como antes


Um jantar na Argentina. Foi assim que eu optei por comemorar o meu aniversário de 24 anos, em 2015. Estava em Foz do Iguaçu há apenas três meses, e embora já conhecesse boa parte da cidade e, consequentemente, parte da tríplice fronteira também, a possibilidade de sentir-se extasiado em casa e optar por sair para comer alguma coisa em outro país ainda me fascinava. E ao escolher um lugarzinho aconchegante com vista para o rio Paraná, já com uma taça de vinho nas mãos, eu não pude deixar de admitir toda a sorte que tenho na minha vida. Mesmo que não estivesse passando por um período particularmente produtivo até então. Mas ao som de Rod Stewart ao fundo e a voz do meu pai em primeiro plano, dizendo que logo as coisas iriam se acertar, nós brindamos pelo ano que já havia se passado e todas as mudanças que vieram com ele.

Porque não havia sido fácil chegar até ali. 2015 foi o ano em que um mundo acabou. Um mundo em que eu possuía grande parte da minha independência já conquistada, um título em ensino superior completo, e mais amigos do que eu jamais fiz por merecer, com quem eu podia compartilhar tudo. E quando eu tomei a decisão de abrir mão de tudo isso para me tornar algo do qual meus pais e meus amigos pudessem ter orgulho, uma era terminou. E os meses que se seguiram não foram sutis sobre o quanto as coisas se tornaram difíceis.

Sabe quando você escuta alguém dizer que está “morrendo de saudade”? Parece exagero, não é? Exceto quando é com você. E quando eu digo que um mundo acabou em 2015, é porque eu morri com ele. E só o que havia aqui, por um bom tempo, era saudade.

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Vale ressaltar que o prato que eu pedi estava consideravelmente forte. Era um rigatoni ao molho de cogumelos e amêndoas, mas bem pesado no tempero. Não que isso tenha me impedido de comer – porque, né – mas nunca havia provado um sabor tão forte quanto o daquele prato. Agora, se era mera coincidência com o sabor do ano que eu estava tendo, eu não soube dizer.

***

Um ano depois, eu decidi voltar àquele restaurante. Sobre decidir aonde ir, meu pai me questionou sobre sempre procurar revisitar velhos hábitos em vez de me arriscar a tentar conhecer algo novo. “Você só vai aonde já conhece, com gente que já conhece, para fazer as mesmas coisas!” ele disse. E quando fiquei calado por um instante, pensando naquilo, ele completou: “Mas, por outro lado, a gente precisa mesmo ir aonde se sente confortável. Onde se sente bem...

No final das contas o restaurante ainda era o mesmo, exceto pelo cardápio, pela mesa que estava disponível (sem vista para o rio) e, claro, os preços. Mas antes que alguém da mesa pudesse comentar sobre como tudo estava diferente, a mesma canção do Rod Stewart tocou ao fundo:

O amanhã pode não chegar nunca, até onde a gente sabe...

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Felizmente, o amanhã chegou. Meu mundo foi reconstruído e, por incrível que pareça, há uma vida plena e saudável nele. Claro que nem tudo são rosas – não ando nem pelas redondezas de algo que possa ser chamado de “independente”, meus amigos continuam comigo apesar de não conseguirmos nos vermos com a mesma frequência, e aquele título em ensino superar às vezes parece que não passa de um pedaço de papel pendurado em uma parede do meu quarto. Mas o que veio mais adiante na estrada, alguns meses depois, parece ter feito toda aquele drama sobre “morrer de saudade” só mais uma hipérbole para a minha coleção de figuras de linguagem.

Quando parei pra pensar em tudo que conquistei entre um jantar e outro, percebi exatamente o quão pouco nós sabemos sobre o que será de nós. E quando parei para pensar no meu final de semana de aniversário, que durou de sexta até domingo, percebi também quanta vida ainda há guardada em mim. Só em 72 horas eu saí para jantar em outro país, viajei para um dos meus antigos lares, reencontrei amigos antigos, revivi tradições como tomar tereré na sacada e uma “bro night” regada a cerveja barata e seriados, brinquei de Imagem & Ação e Uno com outros amigos adultos e formados como se fôssemos crianças, fui a um show, cantei até ficar rouco, dancei até ficar tonto, fiz as pazes com a tequila, acordei bêbado fora da cidade, vi o sol nascer (duplamente e embaçado, mas vi), participei de um churrasco em família, e voltei cantando de novo para Foz do Iguaçu.

E no caminho de volta, eu finalmente entendi porque essa saudade me aflige tanto. Um mundo acabou em 2015 porque eu quis, e são poucas as pessoas que tem a possibilidade de visitar a sua vida antiga a um ônibus de distância. Especialmente quando se está na beira do país, podendo largar tudo e fugir para o Chile a qualquer momento. Eu sou um cara de sorte porque sempre fui rico em possibilidades. Posso optar por tomar uma taça de Pinot Noir na Argentina, ou uma dose de Jägermeister sentado ao meio-fio de uma das ruas de Cascavel, Paraná.

O problema em ter tantas possibilidades assim é que elas estão diretamente proporcionais a uma margem de erro imensa. Mas depois do último ano que passou, eu finalmente aprendi algo: mesmo sabendo que nada será como antes, minha vida está repleta de coisas, pessoas e lugares que tiveram tempo e a sorte de se tornarem inesquecíveis.


***

Vale ressaltar também que eu pedi para o jantar o mesmo prato do ano passado. Mudaram o cardápio e, com o meu espanhol inexistente, resolvi arriscar novamente uma velha opção. Tome mais esta ironia para a sua vida, Igor: o sabor estava perfeito – nem fraco, nem forte – mas eu não consegui comer tudo. Não sei o que isto quer dizer ainda, mas tudo bem.

Fiz apenas 25 anos. Tenho tempo...

domingo, 23 de outubro de 2016

O jogo de casal

Finalmente aconteceu. Depois de anos de inércia, indiferença e insegurança, eu decidi tomar uma atitude drástica para a minha vida. O tipo de atitude que, quando a gente se torna um adulto, é preciso tomar para definir de uma vez por todas quem você é e o que você busca alcançar neste mundo impiedoso e incessante em seus movimentos de rotação e translação ao longo do universo, pelo pouco tempo que nós temos para aproveitá-lo. Eu dei um passo adiante em nome da minha maturidade, minha estabilidade emocional, e talvez o fator mais importante de todos: meu próprio eu. Sim, eu mudei. Serei um homem mais firme, mais recomposto, mais refinado. Determinado a levar minha vida com a destreza, o foco e a ambição que já são presumidas a um jovem de (quase) 25 anos que ainda possui uma vida inteira pela frente, mas também não pode mais se dar ao luxo de desperdiçar dias em vão com crises existenciais e desabafos infames, por mais esteticamente organizados que eles aparentem ser para serem chamados de poesias. É, meus amigos... Eu dei um passo adiante rumo ao meu tão famigerado sonho de ser feliz a dois, completo com toda a cumplicidade, o companheirismo e as cobertas que acompanham esta rotina. Estou mais perto da felicidade do que jamais estive antes, e de agora em diante tudo será diferente. E sabe por quê?

Porque eu enfim comprei uma cama de casal.

O que? Não entendeu o que isso significa? É, eu também não entendia...

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Se eu tivesse que eleger o meu maior defeito, certamente teria que confessar o meu egocentrismo. Aliás; o meu Igorcentrismo. E se tivesse que eleger um segundo lugar a este pódio, definitivamente cederia a medalha de prata à minha inércia. Antes de ir morar sozinho e descobrir a dor e a delícia de ser o responsável pelo meu próprio aluguel, eu nunca me importei muito com os aspectos domésticos dos ambientes que me cercavam. O que explica o porquê eu sempre ajudei a carregar os mesmos móveis toda vez que a vida fazia necessário o contrato com um caminhão de mudanças para me levar a um novo endereço. Até hoje mantenho a mesma mesa de estudos que apóia o meu computador – e várias das minhas neuroses transcritas. E só a mantenho por ser “madeira boa”, como meus pais costumam chamar, e realmente não há como negar. Materiais mais frágeis não suportariam o peso dos dramas infames que escrevo e arquivo no meu computador.

E através desse sistema de indiferença e terceirização dos meus pertences, patrocinado pelos meus pais, foi como também mantive a mesma cama por mais de dez anos. Estilo box na época em que foi lançada, com espaço embutido para um segundo colchão, em tom bordô e, claro, madeira boa. E foi nela em que passei as noites do final da minha pré-adolescência até os primórdios da minha vida adulta. O corpo cresceu, os sonhos mudaram e o CEP foi alterado várias vezes, mas meu berço juvenil sempre se manteve. Até mesmo quando cheguei a um estágio de vida em que ele, enfim, tornou-se pequeno demais para mim. Isto é, se eu por acaso decidisse não dormir sozinho.

Foi assim que eu comecei a descobrir que, para ter uma vida a dois, antes de mais nada é preciso ter infra-estrutura. Claro, existem vários outras poesias por aí que falam belamente sobre como é preciso ser feliz sozinho antes de convidar outra pessoa a fazer parte da sua vida. E sobre como é preciso entender do que a sua primeira pessoa do singular é realmente feita, e o que quer desta vida, antes de arriscar tornar-se primeira pessoa do plural com alguém. A transição do “eu” ao “nós” não é fácil – gramaticalmente, praticamente, emocionalmente. Mas é com isso que muita gente sonha. E é isso que eu me lembro de querer desde que ganhei esta cama. Mesmo durante os anos que passei sem perceber que uma vida a dois não cabia na minha cama – e que esta metáfora não era uma coincidência.

Porque eu sou um egoísta. E inseguro. E ansioso. E horrivelmente metódico. Gosto de ter controle sobre as minhas coisas; que fiquem exatamente aonde eu as deixei, e – por que não? – que combinem umas com as outras. Coesão é muito importante na vida adulta – desde o modo como você organiza a sua casa, até os seus valores pessoais. Coisas que aprendi depois que fui morar sozinho e passei a ter plena responsabilidade sobre os meus atos, minhas contas e, invariavelmente, minhas companhias. Mas ainda leva um tempo para aprender exatamente o que você quer desta vida, e com quem você quer compartilhá-la. Por exemplo, você pode começar a realmente questionar-se sobre que tipo de pessoa procura, quais gostos você acredita serem importantes para terem em comum, e quais planos você fizeram separadamente que enfim poderiam ser postos em prática a dois. Ou talvez você nem passe por isso; há quem acorde inocentemente e saia pra vida lá fora e trombe com o amor sem que nem estivesse procurando. E os detalhes vão se ajeitando pelo caminho.

Mas o que eu nunca realmente parei pra pensar – e talvez fosse o motivo pelo qual a maioria dos meus relacionamentos sucumbiu à fatalidade da rotina – é que simplesmente não havia espaço o suficiente para outra pessoa aqui. Nem na minha cama, nem na minha vida. Eu nunca me preocupei com isso. Sempre imaginei que a adaptação ocorreria, mas que eu não precisaria me mexer para isto. Se ela estivesse mesmo interessada, ela ficaria. E se não ficasse, então não era ela. Uma lógica simples, natural e intrinsecamente quebrada.

Por isso eu estou mais confiante hoje. Eu quero mudar. Quero dividir a minha vida com alguém. E quando alguém aparecer, quero que ela saiba que há espaço o suficiente para nós dois aqui. Quero que ela saiba que pode ficar se quiser, pois estará confortável, protegida, apoiada. Pode parecer algo simplório – especialmente se isto é algo que você sempre teve e, portanto, nunca precisou refletir sobre o que poderia significar – mas eu estou disposto a finalmente tentar construir uma vida a dois, começando pelo fundamental. É preciso escolher com cuidado quem você quer levar para a sua cama, mas antes é preciso cuidar para que esteja realmente pronto para recebê-la. Parece ridículo, mas quando você começa a se importar com coisas que envolvem ser um casal – mesmo que seja só um novo jogo de lençóis – você aprende a deixar o seu egoísmo de lado, para que outra pessoa possa se sentir à vontade para viver ao seu lado.

Eu ainda acordo sozinho. Agora com um espaço bem maior para me lembrar de que ainda não há ninguém. Mas o “ainda” não me entristece mais. Este sou eu: mudando, tentando, sonhando.

Boa noite.

sábado, 15 de outubro de 2016

Um dia você vai gostar de alguém


Um dia você vai gostar de alguém, como nunca gostou de outra pessoa antes. Vai acordar pensando nela, vai sair para trabalhar pensando nela, e vai encarar os ponteiros do relógio pensando nela. Esperando que o tempo passe mais rápido; que os minutos virem horas, e que as horas vierem dias. E que tudo isso te empurre adiante, de encontro a ela mais uma vez.

Vai pensar, inclusive, duas vezes nela. Primeiro em saudade, depois em insegurança. A vontade de dar aquele “oi”, mandar aquela mensagem boba que não leva a nenhum assunto urgente ou até mesmo coerente. Qualquer coisa para satisfazer a vontade de falar com ela novamente. Falar, ver, tocar. Mas a insegurança...  

A insegurança é aquela que nos impede de agir sem medir conseqüências. É o impulso de sobrevivência que nos alerta a olhar para baixo antes de pular. Porque todos nós já caímos, nos quebramos um pouco, e temos as histórias e as cicatrizes para nos lembrar de que, se for pra ser de tal maneira, é melhor não ser de jeito nenhum. A insegurança, enfim, é aquela que apaga a mensagem escrita pela metade, para evitar que um sentimento seja exposto por inteiro.

Mas você vai gostar de alguém um dia que te fará esquecer de olhar para baixo. Não porque será particularmente seguro pular, mas porque a experiência vale a pena. Ela fará você parar de duvidar dos outros, das coisas e de si mesmo. E arriscar pensar que, talvez, só desta vez, pode dar certo.

Você vai gostar de alguém que vai te ensinar a acreditar de novo. E a dar “enter” nas mensagens sem imaginar, supor ou procurar todas as interpretações possíveis acerca das suas palavras. Você só vai se importar com que elas cheguem até o seu destino.

Você vai gostar de alguém que te lembre que não precisa esquecer de si mesmo para gostar dela. Vai descobrir, inclusive, que não há outro jeito que funcione a não ser este. Você vai gostar dela por ela, e ela vai gostar de você por você. Não pelo que podem completar um no outro, mas pelo que pode ser compartilhado.

Você vai gostar de alguém que vai te inspirar a ser clichê. Que te inspire a perguntar como foi o dia dela, ou se aquela dor daquele tombo que ela levou naquele dia no trabalho já passou, ou se ela lembrou de comprar aquele item no mercado que faltava para a receita nova que ela queria tentar fazer em casa. Você vai gostar de alguém, inclusive, que dorme durante as suas conversas. E não vai julgar isso como um sinal de desinteresse.

Você vai gostar muito de alguém, mas também dormirá durante as suas conversas. Porque vocês são adultos, trabalham, tem dores e cansaço, e quando se jogam na cama ao fim do dia – mesmo que em camas separadas – e descobrem que o outro está bem, apesar dos pesares, já se sentem livres para descansarem antes que mais um dia comece.

Você vai gostar de alguém que estará lá amanhã, ao contrário de todas as outras que desapareceram durante a noite. E você vai gostar de alguém o bastante para querer estar lá também, dia após dia.

Você vai gostar de alguém que te trará dúvidas. Mas não do tipo “será que ela gosta de mim?” ou “será que eu não deveria ter mandado aquela mensagem?”, e mais do tipo “será que teremos condições de bancar aquele apartamento com a decoração bacana que ela sugeriu?”.

Você vai gostar de alguém que não te dará medo de fazer planos. Mas eu admito que ainda tenho, e muito por sinal. Assim como tenho as minhas inseguranças, os meus dilemas envolvendo mandar ou não um “oi” por WhatsApp, um nervosismo na voz a cada novo telefonema, e um pavor quase letal de trazer a tona quaisquer questionamentos que envolvam o nosso presente, o nosso futuro, ou simplesmente a denominação em voz alta da mais sonhada e instável terceira pessoa do plural: nós.

Um dia você vai gostar de alguém desse jeito e de vários outros. Acredite em mim: estou tendo um desses dias.

domingo, 9 de outubro de 2016

O escorpião e o escritor


Dedicado a todos com quem eu fui menos gentil do que deveria. Não quero que esta seja a minha natureza a ser lembrada.

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Você já deve conhecer essa história. A velha fábula sobre um escorpião que queria atravessar um rio, e pediu ajuda a um sapo que estava ali por perto. O sapo não queria ajudar o escorpião por medo de que ele o ferisse, mas o escorpião jurou não lhe causaria mal se ele pudesse conceder sua passagem até o outro lado. Argumenta, inclusive, que se por acaso fizesse mal ao sapo, ele mesmo se afogaria no rio, então não havia motivo para o sapo se preocupar. Mas quando o sapo opta por ajudar o escorpião a atravessar, ele lhe dá uma ferroada na metade do percurso. Antes de morrer, o sapo ainda tenta entender porque o escorpião o ferrou, mesmo sabendo que isto condenaria a ambos. O escorpião simplesmente responde que esta é a sua natureza.

De todas as interpretações possíveis que poderiam ser tiradas desta história, eu nunca me preocupei em pensar sobre nenhuma delas. Particularmente falando, sempre achei fábulas muito chatas durante a minha infância. Tão previsíveis e sentenciadoras com suas morais ao final... Em se tratando de histórias, eu só queria escutá-las e ser entretido. Não queria aprender, muito menos refletir. Mas aí a gente cresce e invariavelmente desenvolve aquela parte de nós que é definitiva e revolucionária para separar as crianças dos adultos: um negócio chamado consciência que, depois de adquiri-la, você nunca mais é o mesmo. E com ela você aprende a enxergar suas crenças e atitudes de um modo diferente. E por “diferente”, entenda “categórica”.

Não que eu não tenha meus momentos de ambivalência – e como eu os tenho! – mas parece que depois de um tempo, as coisas precisam ser mais bem definidas para que o nosso estado de espírito faça... Bom... Sentido. As coisas precisam ser boas ou más, certas ou erradas, ajustadas à esquerda ou à direita, e por aí vai. E para isso nós buscamos entender cada vez mais sobre nós mesmos, os pensamentos que nutrimos e as maneiras como agimos pela vida afora. Sempre pensando se aquilo foi mesmo o certo a ser feito, ou algo que precisará ser remediado e dolorosamente arrependido, sujeito a contrição e pedidos de desculpas. É a tragédia humana, no final das contas: quanto mais procuramos aprender sobre a nossa natureza, mais classificações nós descobrimos para nos apoiar. E uma vez que solidificamos as fundações que encontramos para nós mesmos, não há nada que nos derrube. Isto é, a não ser nós mesmos, quando acabamos por ser... Bom... Nós mesmos.

Eu gostaria de ser uma pessoa melhor. Menos grosso, mais paciente, menos sarcástico, mais gentil, menos prepotente e mais simpático. Eu pelo menos gostaria de sorrir mais e franzir menos a testa diante de situações em que todos seriam mais felizes se eu guardasse para mim toda a minha ironia e senso de desorientação. Mas não; elas vivem estampadas na minha testa para quem quiser ver. Se você me conhece, já sabe discernir em quais momentos pode se aproximar de mim ou não. Quando estou amigável ou quando estou mal humorado. E se você não me conhece, provavelmente nem irá se aproximar. Nem sempre eu gostaria que meu humor fosse tão transparente, ou que minhas palavras fossem tão ríspidas e dolorosamente verdadeiras, mas eu não posso evitar. É a minha natureza...

Parece uma desculpa tão infame. Como se eu não fosse capaz de mudar se eu quisesse. Como se a minha vida não pudesse ser de qualquer outro jeito que eu pensasse em torná-la, se me empenhasse um pouco em cuidar com o modo como as coisas que quero dizer saem de mim para chegar até você. Mas psicologias à parte, eu também gosto de me apoiar um pouco em outros tipos de crença, independente das críticas ou até mesmo da veracidade delas. Mas a profissão que escolhi – e que movi céus e montanhas para torná-la realidade, provando que sou sim capaz de mudar – me leva a ler dezessete tipos de jornais por dia. E em alguns desses jornais existe uma sessão em particular que faz uso de uma classificação tão antiga e mística que, mesmo que você não acredite, às vezes também não consegue deixar de ver se o que está ali, bate mesmo com quem você é. Um negócio chamado Horóscopo...

Você mesmo já disse, ou então escutou alguém dizer: “Eu não acredito em astrologia... Mas lê aí pra mim o que diz o meu horóscopo hoje.” E é claro que eu já investi tempo e imaginação para pesquisar sobre meus descendentes, ascendentes, mapas, infernos e combinações astrais para tentar entender melhor quem eu sou e porque faço as coisas que faço. A falta de interesse que tive em fábulas quando era criança se virou contra mim na idade adulta, quando tudo o que eu mais procuro hoje é uma direção para seguir, e um sentido para tranqüilizar o caos que carrego dentro de mim todos os dias. E se este fosse o final da história, a moral provavelmente seria algo do tipo “antes tarde do que nunca” ou “não há como fugir de quem você realmente é”. O que seria algo bem mais otimista do que dizem os perfis de personalidade sobre homens Escorpianos.

Talvez a minha natureza seja mesmo irônica, e inquieta, e quem sabe até um pouco perigosa. Assim como a sua, porque pertencemos à mesma classe e ao mesmo ecossistema – apenas surgimos de constelações astrais diferentes. Mas não quero assumir certas partes da minha natureza baseado no que fábulas e colunas de jornal indicam que eu seja. Não quero ser iconicamente maquiavélico, utilizando pessoas como meios para algum fim em especial, nem quero morrer de arrependimento por coisas que não disse ou por lições que não quis aprender. Eu admito que existem partes de histórias a respeito do meu suposto caráter mítico que gosto de ter: a fama de sedutor, de cativante, de envolvente... E antes que você pense em dizer o contrário, poupe-se. Se eu não fosse ao menos um pouco assim, você não estaria lendo isto ainda.

Apesar de tudo isso, é sempre bom procurar aprender o máximo que podemos sobre nós mesmos. Toda fonte é válida – dos horóscopos aos contos infantis. Mas no final das contas, quem saberá dizer do que você é feito, ou o que é capaz de fazer nesta vida, é você mesmo. Em último caso, procure as pessoas ao seu redor e arrisque perguntar o que pensam sobre você. Se deveria mudar ou se desculpar por algo que passou despercebido pelo seu ego inflado. Escute o que elas tem a dizer, e faça algo a respeito se for preciso.

Minha natureza é irônica, arrogante e volátil. Mas também é acolhedora, prestativa e justa. A vida se torna intrinsecamente mais fácil depois que você descobre exatamente em quais adjetivos você se encaixa. Especialmente a vida de um escritor.