sexta-feira, 29 de abril de 2016

Bons tempos


Escrito em 12 de Janeiro de 2010, mas eu tive o sonho de novo...

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Eu tive um sonho ontem à noite. Eu estava numa sala de cirurgia, com médicos e enfermeiras ao meu redor, todos com seus bisturis e anestesia direcionados ao meu coração. De repente, um dos médicos se assusta com algo e todos param. Ele estuda cuidadosamente com uma pinça uma fratura no meu coração jamais vista antes. E afirma com horror, "Este coração foi partido". Os médicos ao redor balançam a cabeça em uníssono e adjetivos parecidos; "Quebrado", "Estraçalhado", "Incurável". O cirurgião pega meu coração em mãos e o avalia uma vez mais com choque, e o joga no lixo. Acordei.

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Estranho mesmo é não direcionar mais minhas palavras para “você”. Me faz sentir mais sozinho agora que começo a tomar conta que “você” nunca lerá isto.

***

Na manhã seguinte eu decidi levantar cedo e levar meu coração partido para passear. Estava frio e levemente chuvoso, mas eu nem liguei. Depois de alguns anos, eu me dei conta exatamente de como esta cidade é o lugar perfeito para se estar sozinho. Uma verdadeira terra de ninguém, onde o desdém toma conta do ar e fica até difícil atravessar as ruas. De manhã pelo menos é um pouco mais sossegado.

Ao passar das esquinas e das músicas, eu percebi o quanto ainda pensava em você. Quem dizer; nela. Escrever como se fosse para ela parece mais suave, e menos doloroso de admitir que ela não está mais aqui. Fantasias dela me faziam companhia, junto a meus artistas favoritos. Barry White cantava sobre como você era especial. Gloria Gaynor gritava sobre como eu nunca conseguiria realmente dizer adeus. Al Green perguntava sobre como fazer a chuva parar de cair, e como reparar um coração partido.

Ao longo da avenida, parei em um café para tentar me esquentar, e para deixar a chuva cair na cidade em vez da minha cabeça. Olhando pela janela, parecia que todas que passavam por ali tinham algo parecido com ela. O cabelo, o perfume... Eu procurava qualquer vestígio para alimentar minhas lembranças. Mesmo sabendo da dor que a saudade trazia. Saudade, inclusive, que parecia ser tudo o que me restava.

Segui meu caminho de volta pra casa e a chuva começou a cair mais forte. Estava difícil de enxergar com o vento levantando a chuva e jogando-a nos rostos de todos. Estranhamente, pela primeira vez, eu me senti "confortável" com o clima cinza e frio que me cercava. Como se eu finalmente sentisse que poderia fazer parte disso tudo.

Depois de chegar em casa, preparei mais um café. Ao refletir com a chuva batendo na janela, percebi que a verdade era que eu ainda esperava ver ela de novo por aí. No mais aleatório dos momentos, quando eu não estivesse mais esperando encontrá-la. Talvez porque a memória do rosto dela parecia estar se esvaziando da minha memória a cada dia que passava. Não digo mais seu nome em voz alta e não faço mais planos para dois. A maioria dos lugares pelos quais eu passava guardavam resquícios de saudade pelos bons tempos.

Não sei o que diria se eu a visse de novo nem o que faria. Ouço músicas sobre como agora fujo do amor que eu procurava e de como não sei por quanto tempo ainda viveria assim. Antes parecia um insulto dizer que a vida continuaria sem ela; não parecia fazer justiça. Não parecia uma ideia tão ruim, dedicar os meus dias cinzas a ela. Enquanto a sensação de separação inacabada continua a me assombrar, sinto-me bem com a companhia de minhas fantasias. E quem sabe foi pelo melhor. Nenhum de nós realmente conseguiria dizer adeus.

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Algumas dias depois, eu tive um pensamento. Acho que prefiro sentir falta dela, do que realmente estar com ela. Não me pergunte o por quê. Só parece menos doloroso desse jeito.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Na saúde e na doença

Febre, coriza, dores no corpo. O ciclo vicioso da gripe me pegou de novo, o que era mesmo uma questão de tempo. Felizmente, esta não é a primeira vez que o oeste do Paraná se afunda nas temperaturas próximas a zero e me pega de surpresa. Por isso já deixei cinquenta tons de antibióticos e anti-inflamatórios ao meu dispor. Deixaria as coisas mais fáceis a medida em que o meu corpo finalmente começasse a falhar e só o que me restasse fossem tentar esquentar um último copo de leite quente e procurar erros ortográficos na carta de despedida que eu deixaria estrategicamente em meu criado mudo. Para quando minha guerra contra a influenza finalmente chegasse ao fim – ou, ao meu fim, pra ser mais exato.

Ok, eu posso estar exagerando, mas o enjoo é real e meu rosto acabado não me deixa negar: olheiras assustadoramente lívidas obtidas através de noites mal-dormidas acompanhadas de tosse seca e delírios durante a madrugada agora mascaram a minha face, enquanto a vontade de viver se esvazia de mim lentamente conforme o vírus toma conta de mim ao me atirar ferozmente na minha cama do jeito menos divertido possível.

Só que apesar do mal-estar, náusea, tontura e catarro que agora compõe a minha personalidade previamente aconchegante, eu não vejo estar tomando mais remédios por dia do que a minha avó de 77 anos como o pior de tudo. Como era de se esperar, foi um dos efeitos colaterais que me deixou ainda mais abatido: perder o controle da saúde do meu corpo, e todos os benefícios que provém disso.

A verdade é que eu gosto de ter controle, por mais que eu me sinta aliviado por não ter tantas responsabilidades às vezes. Porque eu sei, bem no fundo, que se eu tomasse a direção dos deveres que me cercam, nada que qualquer outra pessoa fizesse seria bom o bastante para mim. Eu provavelmente acabaria rejeitando de cara qualquer opinião ou tentativa de colaboração para aprovar somente as minhas ideias, ou revisaria qualquer trabalho cooperativo sob a alegação de que isto não é bom o bastante, e que eu posso fazer melhor.

Este é só um dos motivos pelo qual eu não sou um bom paciente, e de certa forma foi bom descobrir isso. Foi bom perceber exatamente o quanto eu gosto de ser um agente ativo nesta vida, capaz de realizar grandes feitos não só independentemente mas também através de trabalhos grupais – desde que esteja sob minha direção, é claro. Tudo isso pode parecer fragmentos de um insight deliciosamente milagroso, o que significa que algum dos comprimidos está finalmente fazendo efeito e eu estou prestes a deixar de me sentir um desperdício de massa humana para voltar à ativa e tomar o controle da minha vida de novo. Ou, claro, eu posso estar apenas delirando e talvez seja melhor ignorar tudo o que eu estou dizendo aqui.

Eu gosto de ter controle sobre as coisas. É uma habilidade que eu simplesmente tive que desenvolver depois de morar sozinho por muito tempo, e ter sido forçado a aprender a cuidar de mim mesmo, na saúde e na doença, enquanto não havia ninguém mais por perto. Eu precisei ter remédios à mão e aprender a saber o que fazer em situações de emergência, porque há anos atrás, quando saí de casa para morar sozinho e fui pego de surpresa pela primeira vez pela temperatura negativa, eu não tinha para quem ligar. Talvez em vez de explorar meu delírio febril, eu deveria agradecer pelos votos de melhoras que meus amigos me desejaram hoje e simplesmente deitar a cabeça no travesseiro e descansar com otimismo, porque o fim de semana me chama. Mas tudo bem. Só por hoje eu vou baixar a guarda a admitir que eu preciso relaxar enquanto os antibióticos tomam meu controle para variar um pouco.

As palavras começaram a dançar na minha frente e o quarto está girando. Melhor eu voltar para a cama. Sem drama, nada de pânico. Diga a minha mãe que eu a amo.

*Escrito em 25/07/2013, mas os efeitos da gripe continuam os mesmos.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

O efeito dominó


Alguém me quebrou. E um dos motivos pelos quais eu ando evitando escrever, também serve para explicar porque eu ando evitando sentir certas coisas. E como escrever invariavelmente envolve enfiar uma faca no coração e torcer até que as palavras que vazem dele formem algum sentido, eu tenho tomado um pouco mais de cuidado mediante os meus passatempos masoquistas ortográficos. Porque, pior do que admitir que alguém me quebrou, seria sentar e escrever sobre isso. Mas já é fim de mais um mês e nada de novo surgiu ainda, assim como sumiram as expectativas de que isso dissipe sem que se faça necessária alguma cerimônia. Então por que não criar um pouco de adrenalina para mim mesmo para pensar e sentir sobre você?

Particularmente, eu gosto de escrever para você. “Você”, que pode ser qualquer uma que vaga aleatoriamente pela órbita das minhas neuroses. “Você” que, apesar de ter um nome de verdade e, suspeito, um coração de mentira, ainda é capaz de causar um pouco de calafrios só de lembrar que esta reação é diretamente proporcional à alegria ansiosa que eu tinha por me permitir atribuir sentimentos ao seu nome de verdade e seu coração sincero, até então. “Você”, cuja lembrança terrivelmente agridoce, atemporal e absurda ainda me serve de inspiração para desviar dos instintos de desistência e desolação de um Domingo à noite. “Você”, que eu não pretendo relevar o nome próprio que possui, mas que secretamente tira um tempo da sua rotina deslumbrante para passar os olhos em minhas palavras para saciar seu apetite constante por uma plateia. Acontece que desta vez eu não estou falando de nenhum desastre em particular, mas de um padrão crescente em proporções geométricas de desilusão.

Não foi alguém em específico quem me quebrou. Desde quando consigo me lembrar, não houve apenas uma mulher que passou por mim como um tsunami e deixou para trás uma devastação por completo. Pelo contrário, cada uma delas foi como uma peça de dominó postas em uma sequencia perfeita, até um descuido fazer com que a cadeia inteira despencasse sobre mim. E a partir disso surgiram comportamentos padrões, gostos específicos e trilhas sonoras que, ao serem alinhados em um círculo vicioso, sempre acabavam da mesma maneira: comigo, decepcionado, recolhendo as peças caídas no chão.

Eu ando tão focado em manter uma das peças de pé que sempre acabo me surpreendendo quando ela acidentalmente cai. E, claro, consequentemente derruba todas as outras em seu alcance. Mas isso só acontece porque, em se tratando de relacionamentos, eu ainda continuo procurando as peças certas para serem colocadas nos lugares certos, na forma da garota certa (que não existe) e do modo certo como deveríamos nos conhecer (que também não existe). E por mais que essa sequencia não se firme de pé, eu persisto. Isto é, até o dia em que eu desisti de recolher as peças e abandonei o jogo.

E a partir do momento em que eu me percebo gostando de alguém, os padrões se repetem perfeitamente. Como quem posiciona as peças tortas de dominó de pé somente para que se derrubem novamente, porque gosta da previsibilidade do desastre. Ao menos é algo no qual se pode confiar. Eu gosto de você, mas não sei como demonstrar isso. Guardo para mim, porque sinceramente acredito que você não deve sentir o mesmo. Até que um dia você finalmente descobre; talvez porque eu criei coragem para te dizer, ou porque o som das peças tortas sendo derrubadas chamou a sua atenção. E você me diz que já tem outra pessoa, ou que não há química entre nós, ou que eu simplesmente não sou a peça que falta na sua própria sequencia. E quando os dominós desabam, eu apenas as empurro para fora da minha vista e procuro outro jogo para me distrair. Nunca considerando a possibilidade de que talvez eu esteja posicionando as peças erradas. Ou que cadeias de dominós em pé mais cedo ou mais tarde surtirão seu efeito ao ruírem em colapso. A gravidade envolvida nunca falha.
  
O segredo não está em rearranjar as peças, ou nos espaçamentos entre elas. Em outras palavras, não adianta esperar resultados novos ao continuar tentando encaixar relacionamentos em padrões fracassados. Coisas como esperar para ver quem fala ou liga primeiro. Ou resistir para não admitir que está atraído por ela, por medo de que tudo o que vocês já construíram não resista à queda. Ou apenas tropeçar e destruir sequencias de sentimentos por receio de que vocês não se encaixem como deveriam. É isso que nos deixa ansiosos por ver as peças tremerem, e nos faz parecer incapazes de tentar reconstruir algo com alguém. E, definitivamente, não existem as peças certas ou os lugares certos. Assim como não existem as pessoas certas e as sequencias certas em que devem se colocar para não desabarem.
 
No fim, somos todos incertos e frágeis como peças de dominó postas de pé uma ao lado da outra. Sempre haverá o risco de que um gesto em falso venha a afetar outras peças, outras pessoas e outras estratégias por perto. E quando padrões de sequencia simplesmente não resistem, apesar de toda a esperança e persistência do mundo, o melhor a fazer é procurar outra maneira de manter nossas peças de pé, e os nossos relacionamentos, estáveis. Talvez ninguém tenha me quebrado ao ponto de me convencer a desistir do jogo; talvez eu só tenha perdido o equilíbrio e esteja com receio de tentar de novo. Minhas mãos tremem só de pensar em tentar colocar duas peças de pé em sequencia, ou de tentar segurar a sua mão quando andamos lado a lado. Mas são pequenos jogos que insistimos em participar, visto que o prêmio em consideração parece atraente demais para se abandonar. É isto, ou passar o Domingo à noite cercado de peças espalhadas pelo chão e ninguém para me ajudar a colocá-las em pé novamente. E não é algo que eu espero que “você” entenda. A vida é muito curta, e eu certamente não quero passá-la tentando colocar peças tortas de pé em vão e escrevendo seu nome entre aspas.

E foi assim que eu silenciosamente quebrei meu padrão.

*Escrito em 21/09/2014

terça-feira, 26 de abril de 2016

Eu acho que amei você


*Escrito em 15/08/2011

Eu não lhe dei o motivo do por que eu estava saindo da sua vida porque, no fim, pareceu que só o que havia me restado era isto. Tudo mais eu dei a você sem ser requisitado e sem hesitar, achando que estaria seguro em seus braços. Acho que só serviu para mostrar que talvez se entregar de coração e alma a alguém ainda não seja o meu forte. Ou então, sou eu quem não está preparado para este tipo de intimidade. Ou, ainda há a possibilidade de que o problema não fosse comigo – e talvez nem com você – mas conosco. Juntos na nossa irresistível complicação que durou mais do que deveria. E que mesmo depois de tanto tempo ainda parece inesquecível.

Eu poderia dizer que nossos mundos eram diferentes demais para conseguirmos aceitar um ao outro fielmente em nossas vidas. Ou então, que nossos círculos de amizades eram distantes demais para realmente nos aproximar. Talvez seja porque sempre existiu um limite de até onde nos permitimos chegar dentro do coração do outro. E ultrapassar este limite tenha feito com que nós terminássemos antes mesmo de começar alguma coisa sincera. Alguma coisa que vagamente lembrasse uma amizade, um amor, ou qualquer outra espécie de sentimento de afeição entre duas pessoas que prezavam tanto pela companhia um do outro. Mas que em questão de mal-entendidos, mentiras encobertas e promessas desleais, tornaram-se horrorizadas pela ideia de reencontrarem-se. Isto é, eu falo tudo isso por mim. Quem sabe você também sinta parte disso. Eu não sei...

Mas o verdadeiro motivo você sempre soube. Afinal, quantas vezes eu fiz questão de lhe dizer, e quantas vezes você fingiu que não escutou? E assim prosseguimos, fazendo de conta de que tudo estava bem. E que poderíamos levar isso adiante até que a vida nos separasse naturalmente. Se ao menos eu fosse tão simples assim – e eu te avisei que não era. O problema é que você também me enganou bastante. Usou-me porque fez sentido na hora, e eu parecia bastante útil para você. E o pior é que não é só sua culpa. Eu gostava de ser usado, de significar qualquer coisa para você, que pelo menos fizesse com que você me procurasse de vez em quando. Para que eu não precisasse me rastejar o tempo todo. Eu posso estar exagerando, claro, mas quem viu de fora sabe que o tudo que sei agora não foge tanto da realidade. Você mentia, e eu adorava o seu jeito de mentir. Talvez fosse porque eu não sabia dizer não aos seus olhos. Olhos que me encantavam tanto e até mesmo agora, quando não suporto mais encará-los.

Por tudo isso e mais é que não lhe dei o motivo. É simplesmente só o que me restou, não entende?! E se eu também entregar isso a você, então o vazio que agora tomou o espaço que você costumava preencher se tornará oficial. E acho que eu ainda não saberia como lidar com isso. Eu e você ainda vamos nos rever por muito tempo. Momentos de silêncio e constrangimento irão mascarar lembranças de risadas e segredos e lágrimas passadas que compartilhamos juntos. E não há nada que podemos fazer a não ser tentar superar e seguir em frente quando passarmos um pelo outro pelos corredores da vida.

Mas se você precisa mesmo saber o motivo, acho que eu também preciso abrir mão disto para sair mesmo da sua vida, e para que você finalmente deixe a minha. Estas palavras não vem de raiva ou ressentimento; elas vem de mágoa. De dor. E de um coração que já nem sinto mais, mas que preciso que volte a viver se eu quiser entregá-lo a outra pessoa de novo um dia. Por uma fração de segundos, acho que eu fui a pessoa mais importante da sua vida. Dentro dos limites que você impôs a mim. E era só o que eu poderia ser. O motivo foi a discrepância, meu bem. Porque quanto a mim... Bom...

Eu acho que amei você. Sinto muito por isso.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

A zona de conforto


Existe uma diferença bem suave entre estabilidade e estagnação. Tal diferença que eu só fui capaz de compreender mesmo quando finalmente me peguei preso entre as duas coisas – e me sentindo perdido ao mesmo tempo. 

Eu entendo que as coisas acabam. Repeti isto incansavelmente até que todas as coisas, bom, acabaram de fato. E assisti os rostos pelos quais eu passava diariamente se dispersarem nas multidões do mundo afora, enquanto nossas lembranças se espatifaram no chão a medida em que cada um de nós decidiu trilhar um caminho diferente após o apocalipse de luz e fúria chamado de formatura pelo qual nós esperamos por tantos anos, e pagamos tantas parcelas de carnês, só para descobrir que estávamos mesmo mais desprevenidos do que poderíamos imaginar. Quanto a mim, a minha imaginação só conseguiu ir até a definição de qual música eu escolheria para tocar na minha entrada para a festa. Algo épico, grandioso, lendário. E, por conseqüência, definitivo.

Até aí eu já escrevi bastante. Eu saí por aí e fiz o que qualquer adulto é obrigado a fazer: forcei o limite da minha resiliência até encontrar bases o suficiente para que eu pudesse me sentir normal de novo. Mais do que normal: seguro. O que, eventualmente, tornou-se o ponto de equilíbrio entre o que você quer e o que você pode ter desta vida.

Mesmo sem perceber, eu sempre tive esta capacidade em mim de transformar matérias primas aparentemente dizimadas em patrimônios históricos. Ao empurrar um sofá velho ao encontro de um papel de parede que nunca me agradou muito, eu criei um cenário perfeito para os meus retratos de família. Ao teimar por querer ter duas cadeiras na sacada lá fora, eu fiz daquele pequeno espaço a céu aberto um grande santuário. E ao permitir que certas pessoas tomassem a liberdade de tratar a minha casa como se fosse delas mesmas, eu aprendi que mais valia a pena compartilhar uma vida do que escondê-la.

Claro que eu também tive a minha dose de descontentamento. As vezes em que eu chorei pelos cantos, ou que me peguei sentado no chão da cozinha, me perdendo no limite do vazio do apartamento e do eco da minha própria existência. Quando ainda não havia em quem me apoiar, ou para quem eu pudesse dizer tudo o que pairava em mim sem moldura ou sentido, e que por parecer não se encaixar em nada nem com ninguém, também acabava esparramado pelo chão junto comigo.

Durante a maior parte do tempo, eu não soube o que fazer. E por muitas noites eu tive medo. Medo, culpa e dúvidas. Será que eu fiz a escolha certa? Será que era preciso mesmo ir embora? E se eu tivesse ficado? E se eu voltasse? Alguém sabe me dizer? Não. Ninguém soube. Até porque, por muito tempo também, não houve mais ninguém. Ao entrar por aquela porta depois de mais um dia de trabalho, ela se mantinha trancada até o dia seguinte. Ninguém tinha chance.

Ouve-se falar muito sobre zonas de conforto. Ironicamente, as minhas sempre fizeram jus à bagunça que a própria expressão insinua. Meus pensamentos, sempre aleatórios. Minhas metáforas, sempre me cercando. Minha insegurança, sempre latejando. E o meu coração... Bom, por mais tempo do que eu deveria ter permitido, ele optou mais por escrever sobre o caminho trilhado, do que prestar atenção ao que estava adiante. Foi assim que muita gente passou batida, e muitas oportunidades foram jogadas ao vento. Meu Deus, como eu sentia medo até de ter medo. Adultos não poderiam se sentir assim... Podiam?

Enfim, chega a hora em que a gente aprende. Geralmente, são momentos em que a gente se permite não pensar só para variar um pouco, e decide pular sem olhar se existe algum apoio para nós lá embaixo. Eu fiz isso uma vez e foi aterrorizante – e demorou muito para que eu me sentisse capaz de levantar do chão frio da cozinha para enfrentar o mundo lá fora de novo. Mas eu fui – eventualmente – e tudo ficou bem. Cá entre nós, eu nunca soube se tudo ia mesmo ficar bem. Era só algo que eu gostava de repetir, porque eu precisava acreditar.

Sair de uma zona de conforto é assim: bagunçado e impiedoso. Abrir mão do conhecido para pular do abismo, sem rede de proteção. Da última vez que eu fiz isso, uma cidade inteira ficou para trás – assim como muitos rostos conhecidos e lembranças de ruas e avenidas pelas quais nós costumávamos passar. E é exatamente este o segredo: deixar passar. Construir, demolir, reconstruir. É o fluxo natural da vida. Mas por que é tão doloroso para nós admitir que as coisas são finitas? Que estabilidade é boa, mas que estagnar-se é o fim. Por muito tempo eu não me senti estável, ou seguro, ou até mesmo acompanhado. Mas eu segui em frente, porque era o que fazia sentido. Era o normal a ser feito. Não era necessariamente o que eu queria fazer, e definitivamente não foi confortável. Mas eu fui, e deu no que deu: eu fiquei bem. As coisas não acabam; elas mudam. E eu nunca me senti tão vivo quanto aqueles dias, em que o amanhã parecia tão especial. Tão esperançoso. Tão cheio de... Possibilidades.

E é por isso que eu fui embora, mais uma vez. Olá, Foz do Iguaçu.

*Escrito em 16/06/2015

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Pequenas esperanças


Eu estou esperando... Esperando por uma explicação, por uma desculpa, por um sinal de coerência. Estou esperando por uma mudança. Esperando para acordar um dia e me olhar no espelho e realmente sentir que os anos fizeram alguma coisa em mim além de deixar cicatrizes, rugas de expressão, bolsas debaixo dos olhos e saudade. Estou esperando para ver você de novo. É, isso mesmo. Estou esperando por você, mesmo sabendo que você não vai chegar.

Às vezes parece que tudo que eu faço dessa vida é esperar. Por uma carona, por um conselho, por um abraço, por um milagre... E eu sou bom em esperar. Essa é a pior parte. Porque quando se é bom em esperar, as pessoas que são boas em se atrasar ficam bem mais tranquilas consigo mesmas. E se atrasam ainda mais, isso quando aparecem. Estou esperando por algumas pessoas até agora e não, eu não tenho um bom motivo para estar aqui fora no frio ainda por mais óbvio que seja que você não virá até mim. Mas eu espero. Senão por você, espero por alguém.

Há anos que eu espero por alguém. Por alguém que me explique porque nada deu certo antes. Por alguém que me diga que eu posso sentar e descansar, porque ela chegou. Por alguém que me diga que a espera acabou. Que aqui estamos, juntos finalmente. Estou esperando por amor, justamente agora em que percebi que esse tipo de coisa boa só acontece quando estamos ocupados com outros compromissos, independente se são importantes ou não. A não ser que você esteja esperando pela pessoa errada. Esperando que da noite pro dia ela se torne certa. Esperando que da noite pro dia ela decida ficar com você. Esse é o problema em ter grandes esperanças: quando se espera por tudo, você pode acabar sem nada.

É por isso que eu estou tentando reaprender a viver, começando pelo que eu espero disso tudo. Das pessoas, das coisas, da vida em si. Espero sinceridade. Espero respeito. Espero cumplicidade, reciprocidade. Espero até um pouco de reconhecimento, porque cansei de emprestar vida demais para quem sequer percebe que eu existo. Espero aceitar meus erros e tentar crescer com eles. Espero aceitar a mim mesmo, porque apesar dos apesares este é o rosto que eu verei no espelho pelo resto da minha vida, com rugas, marcas, espinhas, olhos cansados e tudo mais que ali reflete.

Confesso que ainda espero por você, mesmo sabendo que você não vai chegar. De todas as esperanças, esta é definitivamente a que eu mais preciso abandonar, e a mais difícil de se abrir mão. Porque não é de hoje que eu estou esperando, e por mais distorcida que seja a sua presença na minha vida, quando alguém está com você por tanto tempo é difícil deixar de esperar por qualquer coisa. Mas de vez em quando eu ainda me pego esperando, por mais que eu queira seguir em frente sem ninguém. Por mais que eu gostaria de não precisar de nada nem ninguém, e de acreditar que eu poderia acertar todas sozinho, eu mesmo me prendo. Por mais que aqueles que gostam de se atrasar ainda se aproveitam da minha paciência, da minha compaixão e do meu companheirismo, eles só continuam chegando atrasados porque eu ainda estou ali esperando.

Felizmente ou infelizmente, toda essa espera me fez perceber que nem tudo na vida vale a pena o tempo perdido. Mas pra alguns poucos eu ainda faço questão, porque ao relembrar sobre exatamente o quanto tempo eu esperei por essas pessoas, alguns minutos a mais de atraso não são nada. E quanto a você, que eu venho esperando há quase uma vida, eu decidi não me preocupar mais. Acredito que você está vindo o mais rápido que pode, e que se não chegou ainda é porque ainda não está na hora. Ainda existem algumas lições que eu preciso continuar esperando para aprender, antes de encontrar você e gritar aos céus que a espera acabou.

Não é bom criar expectativas, mas apesar do coração partido e todo o cansaço que desgasta a minha alma, eu ainda gosto de me dar ao luxo de ter pequenas esperanças.

Ou eu continuo a esperar por algo a mais desta vida, ou eu morro.

*Escrito em 16/09/2013

terça-feira, 19 de abril de 2016

A síndrome do coração partido

Depois de anos de decepções e desenganos, aconteceu que minhas suspeitas estavam certas. Que eu não estava exagerando quando dizia que quando se faz tudo por amor – ou qualquer outro sentimento peculiar que você por acaso goste de chamar de amor, na falta de algo real – e mesmo assim as coisas não dão certo, é possível que a angústia, a fatiga emocional, as mensagens de texto não-visualizadas, as coisas na sua casa que ficaram com o perfume dela e o mar de lágrimas que você mesmo cria e no qual quase se afoga possam ocasionar algo chamado “cardiomiopatia Takotsubo”. Também conhecida como cardiomiopatia induzia por estresse, ou – adivinha só! – a síndrome do coração partido.

Eu sempre pensei que o preço por insistir em acordar pensando em você e fazer tudo o que eu pudesse para que você continuasse se sentindo feliz e confortável não seria nada mais caro do que alguns traumas, problemas com ansiedade e dificuldades em me relacionar com qualquer outra pessoa de novo – nada demais, realmente, a essa altura do campeonato. Mas a ideia de que a sua indiferença, descaso e insensibilidade poderiam ser capazes de me causar sintomas como insuficiência aguda do coração, arritmias ventriculares letais e ruptura ventricular foi mais interessante do que reconsiderar voltar à terapia. Porque me fez refletir sobre exatamente o quanto este sentimento peculiar que eu gosto de chamar de amor é mais forte do que o meu próprio instinto de sobrevivência.

Depois de anos de decepções e desenganos, estudos agora comprovam que você realmente me causou mais taquicardia do que felicidade. Então por que eu insisto em acreditar que você é o remédio que eu preciso para deixar de procurar nomes de síndromes para aliviar meus sintomas? Talvez porque o efeito placebo que você me proporciona é menos doloroso do que admitir que cada dia ao seu lado me leva cada vez mais em direção à falência cardíaca e a incapacidade de sentir que poderia dar certo com outra pessoa.

Mas ao contrário da pessoa que há anos você conheceu, usou, abusou e internou em intenso descaso, quem eu sou hoje parece estar muito mais sadio e apto para seguir em frente e conhecer alguém muito melhor que você. Eu não vou mais deixar que meu coração permaneça aberto para quem quiser ir e vir só quando sentir vontade; esta área não é mais para visitantes, e você precisa ter carteirinha e caráter para entrar. A síndrome do coração partido é uma condição rara, porém indivíduos acometidos por ela possuem 80% de chances de perderem toda a crença no amor e nas pessoas de uma vez por todas. E sinto muito, mas você é bonita, legal e até engraçada às vezes, mas definitivamente não vale o que a minha saúde vale.

Igor Costa Moresca sente-se recuperado, está consciente e já é capaz de amar novamente sem a ajuda de aparelhos.

*Escrito em 18/08/2013.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

A desconstrução


O problema na verdade é bem simples, e nunca teve nada a ver com a louça suja acumulada na pia. O problema vai bem além disso – especialmente de você. O problema sou eu, quem na verdade nunca quis ter muito a ver com... Bom. Nada.

É isso. E foi assim que trinta linhas foram poupadas de serem escritas para lamentações, lamúrias e lentes de aumento de quem lê e 1) se identifica ou; 2) se acha o motivo pelo qual eu me coloco em frente a uma traumatizante folha em branco do Word para escrever e, quem sabe, encontrar algum conforto em discorrer sobre o quanto você consegue interferir sobre o meu humor, mas que quem é solenemente, inteiramente e apocalipticamente responsável pelas minhas olheiras e os meus suspiros cansados sou eu mesmo.

O que, por acaso, nos leva a mais trinta linhas sobre isso.

Mas voltando à louça suja (que nada tem a ver com louça suja). Quem me conhece já sabe que eu sou assim; cheio de metáforas egocêntricas capazes de partir de qualquer coisa que esteja ao meu alcance – e de teorias mais-ou-menos (leia-se: mais pra menos) fundamentadas sobre elas. E aqui e agora, meus amigos, é claro que a louça suja significa mais do que apenas pratos e copos da noite anterior, somados a canecas e colheres do café da manhã de hoje: é o universo.
Ok. Longe demais, eu sei. Então digamos que não é o universo. É apenas... O mundo. Meu mundo. Um mundo cheio de coisas que eu imaginei que durariam para sempre. E aqui são necessárias duas explicações: 1) apesar do meu repúdio pelo uso do termo “coisa” (que, até hoje, carrego comigo a lição que minha professora de português da oitava série nos passou sobre o uso deste termo significar uma trágica ausência de vocabulário) e 2) apesar de todos os momentos definitivos que marcam a passagem da vida juvenil para a odisseia adulta, eu aprendi a aprender que nada dura para sempre. E digo isso porque a aprendizagem de algumas coisas também precisa ser aprendida (e uso “coisas” aqui para subentender mais do que este parágrafo poderia conter).

E dentre muitas as “coisas” que aprendi ao longo da pequena passagem que já percorri por aí, sempre foi chamada a minha atenção para o uso de outro termo fatídico: o nada. Porque “nada” nunca é nada; algo o inspirou, moldou, catalisou. Assim como “nunca” também não pode zerar alguma possibilidade. E aos poucos – pelo menos, gramaticalmente – você aprende que a vida é feita de muitas “coisas”, mas de poucas certezas. E que os momentos definitivos  que você teve, ou que está tendo, ou que eventualmente terá e nem os imagina ainda, estes sim significam algo.

O que nos traz de volta à louça suja que, por sua vez, significa tudo sobre o qual eu nunca quis ter parte. Sobre responsabilidades, conseqüências, compaixão, aceitação e aprender a aprender a amar a vida, seja ela torta, aleatória e mal lavada. Tem a ver com o fato de que eu nunca quis crescer, de que eu acreditei que muitas coisas durariam para sempre, e de que eu ignorei o máximo que eu pude a minha incapacidade de aprender a enxergar a vida como todos ao meu redor a viam: como ela é de verdade. Bagunçada, atarefada, conturbada, barulhenta, impiedosa e injusta.

Mas é a mesma vida que me trouxe você. E é a vida que nós já dividimos há algum tempo, independente do que mais pudesse nos acontecer. E trágico, trágico mesmo seria se depois de tudo o que passamos, a razão da nossa desconstrução acabasse por ser... Nós mesmos.

Eu sei que muito do que digo é metafórico, e muito do que eu penso é ilusório, e muito do que eu escrevo é abstrato. Mas nada disso nunca me impediu de ser autêntico acima de tudo. E repare também quantas linhas eu passei construindo teorias, crenças e superstições, apenas para ignorar todas elas com uma só frase – assim como a vida faz com a gente, eventualmente. Foi em um dia qualquer desses que o mundo que eu conhecia acabou. E depois acabou de novo. E de novo, e de novo... Até eu ser obrigado a deixar parte das minhas crenças de lado e aprender a aceitar a aleatoriedade do universo. O mesmo universo que gira interminavelmente, mas que ao contrário do que eu gostaria, não é ao meu redor. E são essas voltas que nos deixam tontos, e enjoados às vezes da vida que a gente leva. São essas voltas que fazem com que a gente se choque um com o outro, e que nos leva para longe mesmo quando não paramos para pensar ao certo se isso era... Bom. O certo.

A desconstrução está por toda parte. Gramaticalmente, emocionalmente, universalmente. O que me faz ser cada vez mais grato por você que – ok, vamos admitir – foi o que me colocou aqui. Muito além das trinta linhas que eu gostaria de ter dedicado para este devaneio em particular, porém mais próximo de escrever o que tudo isto realmente quer dizer...

Eu sinto muito. Por mim. Por você. Por nós. Por tudo. Eu sei que nada dura para sempre, mas isto também não significa que precisa terminar agora. Acho que já passei por fins demais por enquanto. Algo precisa durar, e se eu tivesse algum poder de escolha sobre isso, eu optaria por nós.

Claro que isto não resolve o problema da louça suja. Mas é um começo... Não é?

*Escrito em 25/05/2015.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

A história sem fim

Eu estou ficando um pouco cansado de carregar uma bagagem enorme comigo por aí. De ter uma “longa história” que eu preciso contar para alguém quando começo um novo relacionamento. Uma longa e aparentemente interminável história, cheia de curvas inesperadas e personagens infames que, de uma maneira ou outra, acabaram por intervir no rumo deste que vos fala – o protagonista – e que conseqüentemente tiveram algo a ver com o modo como eu levo a minha vida agora. Alguns me acrescentaram, outros me diminuíram, mas independente das suas participações, sempre que estas se mostram finitas eu acabo me sentindo... Quite. Isto é, em um primeiro momento. As conseqüências dos nossos atos e dos que outros tomaram sobre nós só vem à tona com o passar do tempo. Ou, neste caso, nos próximos capítulos.

Como se cada uma dessas pessoas que vieram e se foram, por serem infelizes na sua existência ou porque eu decidi que estava na hora de rescindir seu contrato, tivessem feito parte do arco principal de uma temporada. Mas devido à pobre audiência que atraíram em mim, acabaram por terem suas participações encerradas. E como não poderia deixar de ser, geralmente acaba sendo de uma maneira dramática – “Nós não podemos continuar nos enganando deste jeito! Precisamos terminar! E não me procure mais!” – ou até mesmo em forma de cliffhanger – “Até a próxima...” Tem até um pessoal que sumiu sem explicação, mas que no final das contas não atrapalhou em nada o enredo.

Enfim, a vida não é uma comédia romântica. Nem um seriado à espera constante de uma reviravolta que traga ação, aventura, suspense e situações irreverentes para serem resolvidas a cada novo episódio. A vida é só... A vida. Com dias em que parece não haver nada pra fazer a não ser definhar no sofá em frente à televisão, e dias em que 24 horas parecem pouco para dar conta de tudo que precisa ser feito. Isso acontece. Mas voltando ao rascunho do episódio de hoje, as vezes em que a minha “longa história” precisa ser contada sempre me deixa enjoativamente nostálgico. Ao ponto de tentar relembrar em qual ponto da história um erro foi cometido que mudou toda a trajetória da trama.

Mas as pessoas vem e vão, assim como as situações-problema. Há quem diga que tudo serve para, no mínimo, guardar na experiência. Essas pessoas provavelmente são autoras de best sellers extremamente bem sucedidos, enquanto eu me enquadro na categoria mais obscura da biblioteca sob a sina de cometer o mesmo erro – geralmente com a mesma pessoa – umas quatro ou cinco vezes até que todo o nosso afeto se resuma a um único tom de cinza. Independente disso, eu não me sinto tão constrangido para recontar a minha longa história para uma potencial pretendente/coadjuvante em ascensão: ela precisa saber como eu me desenrolei ate aqui, e é bom para que eu mantenha em mente que apesar de tudo o que passou, tudo passou.

Agora vire a página, dê um parágrafo e comece de novo.

*Escrito em 17/02/2015.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

A garota do adeus


Você gosta de mim. Você gosta da minha honestidade, meu caráter, minha lealdade extrema a quem eu sou nesta vida. Você gosta de mim porque eu não minto para você sobre quem eu sou, ou sobre as coisas que você precisa ouvir. Você gosta de mim porque eu não alimento o seu egoísmo, nem jogo os seus jogos, nem respeito as suas incoerências quando nem você mesma se dá a este trabalho.

Você gosta de mim porque eu sei lidar com os seus dramas, sei como enxugar suas lágrimas, e sei o que dizer para fazer você se sentir melhor. Você gosta de mim porque eu te faço chorar quando você precisa desabafar, mas é incapaz de admitir derrota, baixar as guardas e permitir que outra pessoa te veja vulnerável. Mesmo quando não há placar ou vencedor, você sempre sente que perdeu alguma coisa.

Você gosta de mim porque eu não digo o que você quer. Eu digo o que você precisa ouvi e mais ninguém te diz. Nem você mesma, quando está sozinha e mal se atreve a pensar nisso. Você gosta de mim porque somos parecidos. E é exatamente por isso que você impõe limites para mim no seu coração.

Você gosta de mim, mas só até certo ponto. Você gosta de mim, mas pensa que não podemos ser mais nada além do que já somos. Porque eu sou tão quebrado, perdido e inconsequente como você. Mas você gosta de mim mesmo assim. Gosta quando conversamos, porque é a maneira que você tem de enfrentar seus próprios problemas sem precisar se ver no espelho ou sentir na própria pele a dor da realidade de que, sim, você não é perfeita. Sim, você precisa mudar.

Você gosta de mim, mas não se prende a mim nem a mais ninguém. E é por isso que articula sua indiferença com fineza toda vez que eu atinjo meu limite e me afasto. Você gosta de mim, porque sabe que eu sempre volto. Apesar de saber que você gosta de mim, eu gostaria de saber: porque você não pára de me dar motivos para me afastar, e tenta gostar de mim também ao ponto de aceitar que não quer que eu nunca mais vá para longe?

***

E por muito tempo foi assim que eu me senti. Até, de repente, não conseguir sentir mais nada. Até não ser mais capaz de aguentar a sua respiração perto de mim, os seus braços ao meu redor, ou a sua boca usando meu nome em vão. Completa com outros sentimentos muito bonitos mas que pareciam ridiculamente insinceros vindo de você, como alegria ou saudade.

Um dia algo aconteceu. O inimaginável. O inesperado. O impossível. Logo eu que era incapaz de conceber a ideia de ficar longe de você, decidi que seria menos doloroso tentar sobreviver longe de você do que insistir em congelar no frio da sua sombra. Um lugar da onde você definitivamente jamais me tiraria.

Porque desde o primeiro momento em que nos conhecemos – e eu deveria ter prestado mais atenção aos seus olhos do que nas suas palavras – era claro que eu não seria mais nada pra você além de alguém que estaria sempre ali quando precisasse. Quando você quisesse, para tirar toda a dor do seu coração e guardar no meu, sem me importar por um segundo com o quanto isso me mataria por dentro a cada amanhã que viesse. Só que o último amanhã chegou. E é isso...
           
Eu não posso mais ficar perto de você. Não sou tão forte assim. Nem sei se um dia eu realmente fui.
           
As certezas se foram. Estou me recompondo aos poucos; a mim e as minhas razões para acreditar em qualquer coisa de novo, principalmente nas pessoas. Ninguém que vier depois de você tem uma parcela da responsabilidade pelo que agora eu percebo que não foi nem você quem causou. Fui eu. Você não me pediu para adotar a sua dor. Você só queria atenção. Só queria sentir que alguém gostava de você e conseguiu.


Quem sabe por um instante você realmente gostou de mim, e talvez até sinta mesmo a minha falta. Mas por mais que você goste de mim, eu amo você e essa é a maior diferença entre nós. A diferença que agora não me deixa mais negar o óbvio: você não era a garota certa. Nem mesmo era a garota errada. Você só era... Você. E eu te amo e sinto muito por isso.

Adeus.

*Escrito em 12/08/2013.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

A infância desbloqueada


Eu fui uma criança de sorte. Por um lado isso é bom, mas por outro significa que tenho muitos anos de constrangimentos e decepções a serem sentidas, amarguradas e epicamente superadas ainda por vir. Tudo começou porque, ironicamente, eu tinha que fazer uma coisa chata de adultos: ir ao banco buscar o cartão de uma conta-corrente que precisei fazer para receber o salário do estágio e gastá-lo com... Bom; criancices. O que deixa tudo ainda mais irônico. Eu já disse que a ironia me persegue? Tome cuidado quando estiver comigo, pois estará sujeito a alguma situação digna de ser recontada aos risos em uma mesa de bar, ao mesmo tempo em que estiver bebendo para tentar amortecer a experiência.

Mas está quase tudo bem comigo. Sempre está quase tudo bem comigo, na verdade. E dessa vez o “quase” envolveu meus problemas típicos com portas giratórias de banco, alienação acerca de quais dos meus pertences travam o detector de metais (“Senhor, tenho algumas moedas no bolso que, por acaso, está furado e fez com que as moedas se perdessem dentro da minha calça. Juro que é só isso que está travando a porta. Não vou assaltar o banco. Estou em horário de almoço; não tenho tempo pra isso.”) e a espera infame pela chamada da minha senha, enquanto outras pessoas que chegaram depois de mim misteriosamente conseguiam ser atendidas primeiro. Vocês estão dando pro dono do banco ou coisa parecida? Eu só vim buscar um cartão, caramba!

Quando me chamaram o atendente me deixou em suspense ao não achar o bendito cartão, até que a outra moça que fica do lado de fora da parte dos atendimentos o encontrou. Isto me lembra: apesar dos pesares, eu preciso ir mais ao banco. O crachá daquela atendente bonitinha estava virado e não vi o nome dela; terei que voltar para descobri-lo. Isso só pode ser considerada uma atitude de stalker se eu não tiver nenhuma interação com ela antes de pesquisar quinze redes sociais diferentes à procura dela. Eu nem escolhi o nome dos nossos filhos ainda, então relaxem... Enfim, estou me perdendo no que queria dizer. Coisa de criança também; ficar puxando um assunto atrás do outro sem concluir nenhum.

Depois que moça achou o meu cartão, o outro cara me disse que era só desbloqueá-lo em um dos caixas eletrônicos da agência, o que teria sido fácil, simples e normal demais para incentivar alguma filosofia da minha parte acerca do que eu estou fazendo com a minha vida. O problema foi que eu não lembrava a minha senha, e pelo visto depois que você insiste em querer saber mesmo assim três vezes seguidas, o cartão bloqueia. Voltando ao guichê para pegar outra senha para atendimento, eu já estava me sentindo incapaz o bastante, visivelmente abatido com mais uma demonstração de fracasso da minha parte sobre as coisas da era digital, o que me deixou particularmente sensível diante do diálogo que tive em seguida quando outra atendente me chamou.

- Como posso ajudá-lo?
- Então, eu acabei de pegar um cartão novo da minha conta, mas quando eu fui tentar desbloqueá-lo ali fora...
- Uhum, uhum, você bloqueou ele, é? – disse ela com um tom indiscutivelmente infantilóide, como se estivesse falando com uma criança que pegou o cartão de dentro da bolsa da mãe sem ela ver e fez arte com ele.
- É.. Sabe, eu achei que lembrava a senha, mas pelo visto...
- Uhum, uhum, tudo bem, tudo bem. Isto acontece, não é mesmo? Me dê o seu cartão e vamos resolver isso já já, ok? – disse ela novamente com aquele tom acusatório e acolhedor ao mesmo tempo, que questionava minha maturidade, mas ao mesmo tempo a aceitava, visto que eu era só uma criança e não sabia mexer com cartões.
- Muito bem, agora vamos cadastrar uma senha nova, ok? – disse ela, fazendo uma pausa em sua fala, sentindo que eu precisava de um minuto para entender o que ela tinha dito antes de completar as instruções – Só que dessa você precisa se lembrar dela, viu?

Feito isso, eu já estava preparado para minha nova caminhada da vergonha de volta ao caixa eletrônico, quando ela completou:

- Se você tiver mais algum problema, pode voltar a falar comigo, viu? Nem precisa passar pela moça da recepção pra pegar senha. Só volte para a minha mesa e daremos um jeito, ok? – disse ela em seu último sermão, antes de me liberar para voltar a brincar de gente grande.

Depois de conseguir decifrar o menu criptografado de opções em busca da minha autonomia financeira, eu finalmente consegui desbloquear o cartão. A ironia final para coroar a situação foi descobrir que tudo aquilo tinha sido relativamente à toa: não havia caído dinheiro na conta ainda. Quando eu disse que existe um lado ruim em ter sido uma criança de sorte, me refiro a todos aqueles anos que passei em casa assistindo desenhos enquanto outras crianças da minha idade estavam brincando lá fora, raspando joelhos quando tentavam escalar um muro ou quebrando braços quando tentavam aprender a andar de bicicleta. Eu não fiz nada disso, mas ainda me lembro de ter assistido toda a série de filmes produzida pela época da renascença da Disney em meu quarto confortável e fechado.

Eu demorei muito para realmente sentir o mundo ao meu redor. Levei anos para descobrir a vida e entender que se você não lembrar imediatamente da senha do seu cartão de crédito, é melhor tirar a dúvida enquanto está sendo atendido do que se sentir diminuído emocionalmente por um caixa eletrônico. Sim, eu sei que estou exagerando; o que tem a ver não ralar o joelho quando era criança com não saber como um cartão de crédito novo funciona? Simples. Crianças que começaram a experimentar o mundo cedo, logo aprenderam aos poucos como ele funciona e como devem se portar diante de adversidades. Só não sei dizer se isso também ajuda futuramente a memorizar uma senha de letras e números aleatórios de seis dígitos, mas sem dúvida não deve atrapalhar.

Naquele dia eu senti que não foi só o cartão que quase ficou bloqueado. Minha infância ficou bloqueada, limitada a canções originais de “Aladim” ou “Hércules” e outros grandes sucessos de quem foi feliz por ser uma criança com videocassete em casa durante os anos 90, mas que teve o desenvolvimento de outras habilidades sacrificado por isso. Tudo bem que também aprendi muito com os desenhos; é bem provável que minha primeira experiência com a morte tenha sido quando o Mufasa morreu em “O Rei Leão”, deixando Simba sofrendo por anos devido ao um luto mal- elaborado. O que, ironicamente, veio a ser o tema do meu TCC em Psicologia há alguns anos. Isso me faz pensar que nem tudo está perdido. Que apesar de ainda ter dificuldades em conviver com adultos, e até mesmo a me comportar como um, ainda há tempo de aprender. Há, inclusive, atendentes bonitinhas de banco que estão lá só para ajudar as pessoas que tem problemas com caixas eletrônicos.

Enquanto isso, meu lado criança permanece intacto e ativo até hoje, criando situações irônicas capazes de me fazer rir da vida mesmo quando isso não parece ser possível, e me desafiando a aprender cada vez mais a como lidar com as coisas da maneira mais emocionalmente madura possível. Isto claro, desde que eu acertei em desbloquear este lado em prol do que poderia ser inspirado por ele. Seja em relacionamentos, seja no âmbito profissional, ou então apenas para me animar quando eu me olhar no espelho daqui alguns anos e ser refletido com cabelos brancos, óculos de fundo-de-garrafa e aparelhos de surdez. Porque eu fui uma criança que não só sentava perto demais da televisão, como também deixava o volume muito alto.

Algumas pessoas parecem sentir quando é a hora exata de deixar de ser criança, sem considerar que talvez seja possível manter um equilíbrio entre a infância que você teve e a maturidade que você quer alcançar. E então existem outras pessoas como eu, que tem brinquedos expostos na estante da sala e passam o Sábado de manhã assistindo a filmes da Disney no YouTube – com a minha própria internet, no meu próprio apartamento, usando a minha própria xícara com o café que eu mesmo fiz. Da última vez que folheei meus álbuns de fotos antigas, pude perceber pelas minhas caretas que eu fui uma criança irônica desde sempre. Se minha vida está indo bem, meu coração está em paz e minhas contas estão sendo pagas em dia, por que isto deveria mudar agora?

Sou um adulto cheio de infantilidades, mas ao menos são criancices funcionais.

*Escrito em 01/02/2014.