segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Vida em marte


Lá em Janeiro, quando a faculdade estava prestes a me conceder um grau que, exercendo a profissão ou não, eu fiz por merecer, deixei um post-it para mim mesmo grudado na base do monitor do meu computador. Era uma frase que, pra variar, eu adotei de um seriado porque falou tanto em poucas palavras que ecoou em mim ao ponto de tê-lo carregado comigo na mudança de Cascavel para Foz do Iguaçu. E ele permanece em seu lugar – talvez a única coisa nesta confusão toda que eu soube exatamente o lugar ao qual pertence.

“Você precisa perder tudo antes de realmente conseguir se encontrar”

Simples, direto, profundo. Bem como todas as coisas que eu tento dizer, fazer e escrever na minha vida, mas que nem sempre se safam de serem infames. Mas já estamos no fim de Setembro, que eu nem vi passar direito porque – eu admito – estava ocupado demais tentando atravessar todas as temporadas disponíveis de “Game of Thrones” para sofrer junto com quem já assistiu tudo até a próxima temporada em 2016. E porque, ironicamente, é assim que eu venho me sentindo há muito tempo. Ansioso pelo ano que vem, porque como diria Manuel Bandeira em sua famosa sofrência, 2015 teve em si uma vida inteira que poderia ter sido e não foi. Mas além de não ter sido nada a mais, muita coisa que já estava bem confortável e familiar para mim, deixou de ser.

Eu me formei em um dia, perdi meu emprego no outro. Não saiba o que fazer da vida, até arrumar outro emprego e aprender a me acomodar... Isto é, até eventualmente jogar tudo para o alto e decidir ir atrás do que eu realmente quero desta vida: que ela seja vivida. Abri mão do meu apartamento, da companhia dos meus amigos, coloquei mais alguns quilômetros de distância entre minha família e eu, e fugi para a fronteira. Porque não queria me acomodar, nem desistir. Queria viver e acreditava que poderia, mas que levaria um bom tempo até que eu encontrasse no desconhecido um bar para freqüentar sempre, amigos para irem comigo, e uma nova definição para “liberdade” que não necessariamente signifique que eu preciso morar sozinho.

Vale a pena ressaltar que eu também abri mão de um relacionamento porque, no final das contas, não era ela. Queria que fosse, acreditei que poderia ser, toda uma vida mais uma vez... Que não foi. E acontece. Ninguém errou, ninguém previu, e ninguém será igual depois disto. Eu sei que não serei, e que isso não é totalmente ruim. Entre ser ou não ser, a vida também tem dessas questões.

Eu abri mão de tudo para realmente ir atrás do que eu sempre disse que queria, e surtei mais do que deveria quando três semanas se passaram e nada aconteceu. Quando um mês passou e nada aconteceu.

E agora: dois meses. Dois meses, sessenta e dois dias, mil quatrocentas e oitenta e oito horas... Metade delas gasta em cinco temporadas de “Game of Thrones”, três temporadas de “House of Cards”, e um sonho. O sonho de fazer com que tudo que ficou para trás, valha a pena pelo que vem por aí. Só não sei quando, onde, como, quem ou porque – questões que são, por sinal, perguntas padrões que devem constar com as respostas em toda e qualquer reportagem.

Aprendi um pouco sobre Jornalismo na minha primeira tentativa no curso, e ainda carrego comigo algumas aulas, algumas lições... Alguns arquivos salvos no computador de trabalhos e matérias de prova. Ah. E o arrependimento.

Hoje eu saí pra correr, como quase todo dia tento fazer para criar a sensação de que a vida está seguindo adiante, mas tudo o que pude pensar era que havia dado dois passos para trás. Em dois meses de tempo. É preciso mesmo perder tudo? É possível se encontrar em uma cidade cheia de turistas de todas as partes do mundo, mesmo sem nenhum conhecido? Se existe vida em marte, é possível ainda existir vida em mim para começar mesmo de novo? E quando mais eu me questionava, mais o coração apertava, os olhos fechavam em dor e saudade, e mais eu corria. E, por Deus, eu fui longe. Passando da marca onde geralmente eu paro para caminhar, e da rua em que sempre atravesso para voltar para casa, eu continuei correndo. E refiz todo o caminho mais uma vez, ainda correndo, até que o coração finalmente sossegasse. Não sabia da onde vinha toda aquela adrenalina, aquela garra, aquele fôlego... E foi só depois de finalmente parar em um sinaleiro e atravessar uma rua caminhando de novo que eu olhei para trás e vi: o pôr do sol.

Eu corri por uma hora, por dez quilômetros, por mim. Mais um dia ficou para trás, mas desta vez ele terminou comigo ali, ofegante e vivo, contemplando mais do que um avanço físico, mas a descoberta de que ainda existe sim muito mais vida em mim do que eu pensava. Muito mais fôlego e resiliência para passar mais meses, anos, o que fosse necessário até que este rascunho de vida criasse forma, históricos, companhias e, quem sabe, menos barriga.

Você precisa perder tudo para realmente conseguir se encontrar. E em dois meses talvez nada muito grandioso tenha acontecido, mas o que eu venho aprendendo sobre mim me faz pensar que vale sim a pena. Que o meu nome vai ecoar muito mais por aí do que as promessas e planos que faço para mim mesmo a cada Janeiro. Claro que isso não me faz querer perdoar 2015 pelas dores, pela saudade e pelo desgaste todo. Não foi o melhor ano da minha vida, mas talvez seja aquele tempo que toda temporada tem para preparar suas histórias antes delas puderem mesmo acontecer. E que quando acontecem... Uau.

É isso que 2015 está sendo. Uma vida que poderia ter sido e não foi, porque eu nunca irei me acomodar. Talvez ainda leve mais alguns meses, mas que servirão para que eu descubra que consigo ir ainda mais longe do que já cheguei.

Seja um escritor, Igor, ou morra correndo atrás disso. Não sei se existe vida em marte (pelo visto, existe água), mas ainda existe em mim.

domingo, 27 de setembro de 2015

O soneto da mensagem instantânea


Tarde chuvosa, céu cinza, edredom.
Sábado à noite, clima ameno, vinho tinto.
Sofá, preguiça, televisão.
Acolhimento, segurança, conforto.
Felicidade nas pequenas coisas, em tempos nublados, só porque sim.
Sem motivos, sem pressão, sem explicações.
Conversa, risada, olhares.
Eu, você... É. Isso.
Neste verso, só eu e você.

Talvez o que complique as coisas seja querer sempre algo a mais do que isto.
Ou uma razão para isto.
Ou se concentrar no que não está ali no momento, do que no momento que está ali.
Ou, ou, ou...

Ou nada.
Pare com isto.
É sempre assim.
Tudo ou nada.
Mais do que tudo.
Mais do que o agora.
O que aconteceu com a simplicidade?
O que aconteceu com a gente?
Quando foi que deixou de ser divertido?
Por que não responde?!

O céu estava fechado e agora se abriu.
Manhã seguinte. Louça suja na pia. Claridade.
Preguiça de fazer o café, de levantar da cama, de viver de novo.
Fragilidade, vista embaçada, dores nas costas.
E aos poucos foi deixando de ser simples, prático, aconchegante.
E virou rotina, trabalho, canseira.
Estresse, nervoso, pressa.
Tédio, dúvida, impaciência.
Tanto faz, mas isso não.
Nem isso.
Nem isso!
Quer saber?
Deixa quieto.
Por que?
Porque sim.
Porque nada!
Porque esqueça!
Tchau.
Tchau!

Oi.
Oi.
Desculpa?
Desculpo.
Vem cá.
Tudo bem.
Passou?
Passou.
E agora?
Abre um vinho.
Chove lá fora.
Escute a chuva.
Feche os olhos.
Me dê a mão.
Um brinde.
Saúde!
Saúde.
Te amo.
Te amo!

Domingo à noite, fadiga, insegurança.
Me abrace, me beije, me queira.
Me segure, me proteja, me escute.
Me ajude a não estragar tudo, a não cometer um erro, a não desistir.
Tudo bem.
Tudo bem?
Tudo bem.

Boa noite.

Até a próxima.

sábado, 26 de setembro de 2015

A definição de família


Eu gosto de pensar que sou uma pessoa tolerante, mesmo com os comentários impensados, sarcásticos e eventualmente desnecessários que eu costumo soltar por aí para quem quiser pegar para criar e se ofender para sempre. Apesar disto, eu fui criado com toda a educação e respeito possíveis, resultantes dos meus pais que se separaram há muito tempo, mas que em momento algum deixaram que isto influenciasse o modo como eu trataria os outros. Meu pai é daqueles que segura a porta para todos entrarem antes dele, perpetuando o cavalheirismo em extinção, e minha mãe é daquelas que dá “boa noite” até para o William Bonner, levando adiante as boas maneiras até quando não necessariamente são cabíveis ao momento.

São pequenos exemplos que dizem muito sobre quem são como pessoas, e são estes e muitos outros fragmentos da sua criação que carrego comigo hoje e, entre discussões sem sentido e olhares irônicos, é o que tento reproduzir entre as pessoas com quem eu convivo. E só para deixar bem claro também: o meu desengajamento político nada tem a ver com a minha criação, visto que meus pais sempre foram muito claros em ressaltar a importância de saber o que está acontecendo no mundo lá fora – especialmente o meu pai, que nunca perdeu a chance de me chamar de alienado quando eu provava ser insuportavelmente chato enquanto ele assistia seus noticiários até finalmente ceder o controle da televisão para que eu pudesse trocar de canal para qualquer outra distração animada. Enfim, são histórias que quase toda “família tradicional” deve ter para contar. E repare bem na ênfase do “quase” e nas aspas que separam a famigerada expressão acima do resto do texto, porque é disso que eu preciso comentar.

Porque logo eu que assisto e leio menos jornais do que deveria, mas que não estou completamente alheio ao resto da humanidade, me senti particularmente atingido pelas notícias desta semana sobre um projeto aprovado pela câmara dos deputados que, ao ser aprovado, definiu que não só as minhas histórias mas de grande parte da população, não valem nada. O que conseqüentemente anula não só mais da metade do país, mas também uma porção de sentimentos que vão muito, mas muito além do tal poder legislativo. Mesmo sendo consideravelmente tolerante em relação às opiniões, gostos e desgostos dos outros, eu não me considero anulado por nenhum projeto de lei e ainda me atrevo a dizer que talvez existam apenas duas únicas definições universais sob às quais estamos todos à mercê: a vida e a morte. O resto é circunstancial e, sinceramente, pessoal.

Posso não ser a pessoa mais adequada para afirmar tais conclusões, ainda mais segundo nosso novo estatuto que invalida totalmente o que eu poderia afirmar ou não, mas acho que até os menos informados do que eu tem liberdade de abrir alguns parênteses nesta imposição para questioná-la. E não quero causar nenhum tumulto; não mesmo. Longe disto, prefiro aceitar opiniões contrárias porque cada um tem direito de pensar e acreditar no que quiser. É claro, desde que você saiba aonde os seus dogmas terminam e os do outro começam. Respeito tem uma tradição muito mais favorável do que as maneiras que as pessoas tem de se organizar ou até mesmo de sobreviver.

A definição de família, ou de qualquer outra composição social, vai muito mais além do que uma votação em um plenário pode estabelecer. E não quero nem entrar nos milhares de exemplos específicos que contradizem este estatuto porque, sinceramente, esta é uma discussão que não precisamos ter. E se você é um pouco mais atento às diversas calamidades que assombram o Brasil hoje, sabe exatamente do que mais nós poderíamos estar falando. Agora, declarar que algo tão íntimo e pessoal está limitado a uma “lei” para ser verdadeiro ou não, é mais do que assustador; deveria ser visceralmente ilegal. E digo isso como um cidadão brasileiro que não quer comprar briga com ninguém, porque não foi assim que a minha “família” me criou – aderindo aqui à nova regra que respingou até na ortografia – mas quem sabe um pouco mais de sensibilidade para se dirigir às famílias brasileiras, sejam elas como forem, deva ser o próximo assunto da pauta da câmara dos deputados.


Porque não cabe a vossas senhorias, nem a ninguém na verdade, julgarem como pais, mães e filhos se definem. Obrigado.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

A corrida maluca


Antes de admitir qualquer problema, vocês precisam tentar entender o meu lado. E não é que eu queira defender um comportamento que talvez seja mesmo inconsequente, ineficiente e imaturo, muito menos exagerar na proporção disto... Mas eu sou irremediavelmente obcecado por competições. Por comparar o quanto eu já percorri na vida em comparação a todos as outras pessoas/competidores pelos quais eu já passei, e por aqueles que estão – teoricamente – à minha frente. E provavelmente você também é assim, ou então já teve seus momentos que obviamente guardou para si. Porque competir é a base da evolução humana; é instintivo, desde o espermatozoide mais rápido que cruza a linha de chegada, até o candidato que demonstra ser mais eficiente nas perguntas eliminatórias de uma entrevista de emprego. Até mesmo quando se está caminhando pacificamente pelo shopping e alguém significantemente mais lento que você surge na sua frente; é instintivo querer ultrapassá-lo, e quem sabe até murmurar baixinho, “Por que gente lerda sai de casa?!”. No trânsito a competição fica bem mais evidente; é uma guerra e cada motorista pensa em si mesmo como se fosse o Bruce Willis tentando avançar todos os sinais vermelhos para capturar algum terrorista – mas não sem xingar em voz alta ou buzinar para quem tem a ousadia de respeitar os limites de velocidade.

Enfim, todos nós enfrentamos as nossas provações diárias, sejam pequenas ou grandes, silenciosas ou barulhentas. E caso eu esteja errado sobre isso, eis o problema que eu precise admitir. E eu estou sinceramente tentando mudar, começando por hábitos mais enraizados na arte de competir para, quem sabe, aderir o padrão aos outros contextos da minha vida. Toda tarde quando saio para correr, venho tentando cuidar da velocidade com a qual eu faço meu percurso para não terminar ofegante e visivelmente exausto ao passar por algumas avenidas movimentadas no caminho de volta para casa. Tento me concentrar no percurso e não na pressa, visto que o importante é exercitar-se, sair de casa para respirar ar puro, distrair-se dos problemas escutando minhas playlists favoritas... Não tem porque ficar se comparando com outros corredores; talvez eles tenham começado antes, talvez treinem há mais tempo, talvez estejam indo para outro caminho. Cada um na sua vibe... E eu juro que ia conseguir, se não fosse por aquele cara.

Já na metade do caminho, atravessando o bosque na avenida Paraná, um cara surgiu na minha frente e me ultrapassou. Tudo bem; cada um tem o seu ritmo, o importante é exercitar-se, bla, bla bla... Só quanto mais eu seguia em frente, mais ele continuava à minha frente. Não disparado na minha frente, apenas ali; existindo há apenas alguns passos de mim, porém “à frente” na corrida.

“Ok... Tudo bem. Nada de pânico. É só um cara; você não precisa ultrapassá-lo. Siga com esse ritmo porque ainda tem muito chão pela frente; a descida na avenida República Argentina é sempre tensa e cheia de gente pra desviar. Não adianta querer se desgastar só porque ele está na sua frente. Na verdade ele nem está na sua frente; só está correndo no ritmo dele. Você não conhece ele. Não precisa provar nada pra ele, nem pra ninguém. É só um exercício, um passatempo, uma redução de danos na sua gama defeituosa de sanduíches, bifes à parmegiana e strognoffs que você se atreve a chamar de “hábitos alimentares”. Isso pra não falar da cerveja, dos vinhos... Mantenha o ritmo. Foco, força e fé! Talvez ele não siga no mesmo caminho que você! Olha, ele pode atravessar aqui e sair do seu caminho! Ok, não é “meu caminho”. Pare de pensar assim! Enfim, no que eu estava pensando? Ah, sim! Lá vai ele, lá vai ele, lá vai ele... Ok, não foi. Seguiu em frente. Tudo bem; deixe ir... Concentre-se em se desviar das pessoas e tudo vai ficar bMAS QUE DROGA, GENTE! NÃO ESTÃO VENDO QUE ESTOU CORRENDO E VOU PASSAR MAIS RÁPIDO POR VOCÊS?! SAIAM DA FRENTE, CARAMBA! Vish! Que coisa, viu! Gente lerda é um atraso de vida mesmo! Mas ta, já passou. Pelo menos esse pessoal agora teve mais noção! E lá está aquele cara. Ainda na minha frente. Ainda no meu caminho. Ainda me caçoando. Ainda provando que é mais rápido que eu. Que é melhor na única coisa que eu tenho para fazer nesta droga de cidade calorenta! Acha que eu não tenho mais o que fazer, hein?! ACHA QUE É MAIS RÁPIDO QUE EU, É?! ISSO É O QUE NÓS VAMOS VER!”

Eventualmente eu ultrapassei o cara e me senti vergonhosamente vitorioso. Mas o pior mesmo foi passar reto pela rua em que eu sempre atravesso para voltar para casa, e seguir reto pela avenida até o próximo cruzamento, ainda correndo, até chegar na Presidente Kennedy e passar mais uma vez pelo cara que anuncia o fim do mundo em quatro línguas diferentes (desta vez em espanhol!). E ao chegar na rua de casa, continuei correndo até a portaria do prédio. Quando finalmente parei, hesitei um pouco antes de entrar em casa. Depois de ultrapassar o cara nem me preocupei em olhar para trás, para ver se havia mesmo ganho a corrida imaginária em que eu havia nos colocado, ou se ele seguiu por outro caminho – provando mais uma vez que competições deste tipo só fazem mal para pessoas como eu, enquanto os outros estão (aparentemente) despreocupados com este tipo de coisa.

Naquela tarde eu aprendi duas coisas:
1) Eu sou tragicamente obcecado por competições e admito que preciso me preocupar com coisas mais importantes como o meu próprio caminho, e entender que para tudo na vida há um tempo certo e não adianta querer apressar as coisas. É preciso crescer, amadurecer, restabelecer metas, ser paciente e parar com as infantilidades, pois sou um adulto e já passou da hora de agir como tal.
2) Só pra constar: eu ganhei. Pelo menos por hoje.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

O princípio do quarto da bagunça


Para cada mudança que a gente faz, sempre há aquela caixa cheia de coisas aleatórias cujas quais você ainda não sabe exatamente aonde guardar no seu novo lar. E então você guarda a caixa em um canto escondido dos olhos das visitas para que não pensem que você é bagunceiro ou preguiçoso demais para desempacotar tudo. Dias passam, meses, anos, até que finalmente você lembra de que algo que seria muito necessário agora não estava junto com as outras malas e caixas que você organizou no dia da mudança. Está em algum outro lugar... Mas onde? E procura debaixo da cama, dentro do armário, nas gavetas do criado mudo e nas prateleiras da estante, até se lembrar de que ficaram algumas coisas guardadas na dispensa “pra arrumar depois”. E muitas mudanças depois daquela mudança em particular – a que ocasionou o empacotamento, arquivamento e esquecimento daquelas coisas – você reencontra aquela caixa e descobre que muitas outras coisas que você estava precisando ou já precisou antes estiveram ali o tempo todo.

É o princípio do “quarto da bagunça” que todos nós temos, independente das variações de móveis ou dependências possíveis para ocultar as nossas coisas que ficaram “pra arrumar depois”. E é um reflexo assustadoramente exato de como nós lidamos com as diversas fases que atravessamos pela vida. Caso ainda não acredite em mim, pense sobre a versão digital do princípio do “quarto da bagunça”: o desktop cheio de ícones não utilizados e muitas, mas muitas pastas simplesmente nomeadas como “nova pasta” ou qualquer outro neologismo que você criou ao digitar dez teclas aleatórias porque não importava como chamaria aquela nova repartição. Pois é. E talvez eu não precisasse falar sobre a forma mais preocupante deste princípio, mas é a que está mais camuflada entre todas as minhas gavetas bagunçadas e pastas de fotos salvas dentro de outras pastas de fotos; o meu coração.

Ainda sobre o exemplo digital, pense no seu coração com o mesmo carinho que você trata o seu disco rígido – ou, em outros casos, o cartão de memória do seu celular. Agora imagine ele travando, reiniciando sozinho ou ignorando seus comandos cada vez que você experimenta instalar um aplicativo novo, até ficar entediado e desinstalar para poupar seus gigabytes. Agora imagine você sendo obrigado a esperar alguns minutos para que um anti-vírus tente excluir todos os resíduos e arquivos temporários que estas várias desinstalações foram acumulando, só para se irritar quando o anti-vírus conclui metade da sua varredura e te notifica que caso queira seu disco rígido 100% limpo, você pode optar por imprimir um boleto ou efetuar o pagamento online com seu cartão de crédito para obter o programa completo. O coração é assim; as pessoas vem e vão, os lugares são descobertos e às vezes revisitados, mas sempre ficam os excessos, os ícones e atalhos que já não abrem mais nenhum programa, tampouco levam a lugar algum. E na vida não há nada equivalente a um anti-vírus desbloqueado, mas há a contraparte dos arquivos temporários: a saudade, o medo, a insegurança. E ao contrário dos discos rígidos que esquentam ao serem sobrecarregados pelos aplicativos e processos em aberto, nós vamos esfriando cada vez mais.

O que eu quero dizer com tudo isso? Bom, certamente não é para dar uma lição de moral em alguém, visto que minha constelação de novas pastas é recriminatória por si só e minha necessidade por um celular novo já não é mais novidade desde que me acostumei com ele travando e reiniciando sozinho pelo menos três vezes por dia. Mas voltando à minha mudança, que permanece recorrente em meus novos dias Iguaçuenses, hoje me peguei pensando sobre todos os quartos de bagunça que já tive e sobre como hoje, milagrosamente, só o que tenho para provar-me humano é uma pequena dispensa que vai além da área de serviço, onde as caixas que empilhei lá não estão necessariamente organizadas – mas ao menos estão nomeadas para que à primeira vista já se saiba o que há nelas e se valem a pena serem abertas ou não. A bagunça que mais me assombra hoje é a do meu coração que ainda não se situou completamente de tudo que já viu passar este ano, e que teme pelo que mais poderá vir. Para fugir da minha bagunça eu prefiro aplicar as minhas estratégias de fuga favoritas: maratonas inacabáveis de temporadas de séries novas, reprises desnecessárias de séries antigas, e uma hora de corrida por dia para ao menos demonstrar para a cidade e para mim mesmo que estou tentando fazer parte dela. Por mais que nada nem ninguém caiba a mim aqui ainda a não ser pelos meus próprios registros sobre como tem sido visitar marcos turísticos e andar pelas ruas em uma multidão de estrangeiros. É reconfortante saber que, apesar dos contextos diferentes, eu não sou o único que se sente perdido por aqui.

Hoje me pus a escrever de novo, ainda com o intuito de desabafar comigo mesmo em vês de meramente contar uma história cíclica envolvendo uma nova aventura e uma velha metáfora sobre as palavras-chave que destaco ao fim de cada texto, ao me perceber exatamente como o exemplo que descrevi no começo desta nova crônica. Estava correndo pelas ruas de Foz do Iguaçu com os fones de ouvido ao som máximo sem muita vontade de voltar logo para casa ou de dar continuidade à minha odisséia rumo à boa forma. Ultimamente o que me atrai em correr são apenas os momentos gastos fora de casa e em um caminho que eu já aprendi a percorrer. Quando a única coisa entre você e as coisas que você procura é o próprio tempo, todos os dias se tornam Domingos intermináveis. E por mais microscópico que pareça em comparação com o resto da minha vida, tem sido bom utilizar um pouco deste tempo todo dia para trilhar um caminho. Qualquer caminho que você crie para si mesmo vale a pena quando a única alternativa é ficar parado à mercê do tempo. E foi em uma dessas corridas que eu me peguei tendo aquele insight repentino, do tipo “lembrei-aonde-guardei-tal-coisa!”, e voltei para casa para criar coragem de remexer no meu coração. E foi nele que eu reencontrei a minha confiança de que as palavras que eu sinta que preciso escrever valem a pena serem digitadas, que caminhos em que eu procure correr valem a pena serem trilhados, e que mudanças que eu aceite para a minha vida valerão a pena desde que nenhuma bagunça fique para trás. E antes que Foz do Iguaçu e eu possamos realmente nos apegar um ao outro, eu preciso me certificar de que acredito que as coisas poderão dar certo aqui. E talvez a única maneira de fazer isto seja exatamente esta, ao deixar registrados os passos que dei em direção ao que vim aqui para fazer: tornar-me um escritor.

Às vezes eu sinto que estou me aperfeiçoando cada vez mais na arte de recomeçar. Ou então, que eu estou finalmente descobrindo onde expor as coisas que mantive guardadas em mim como, por acaso, a minha felicidade.

domingo, 13 de setembro de 2015

Muito Igor por nada


Vamos lá, Igor: escreva o que vier...

O que eu quero dizer desta vez? Hum... Ainda não sei. É difícil escrever quando não há mais um motivo aparente. Aliás, não sei da onde eu tirei que é necessário haver um motivo. Não me lembro quando foi exatamente o momento em que eu decidi que as coisas precisavam ter um motivo para existirem; quem diria, então, meras palavras. Serem sinceras não é mais um bastante? Não me lembro. Já faz algum tempo que para sentar e escrever, eu preciso antes sair por aí para buscar inspiração.

“Inspiração”, por sua vez, pode representar o conceito teológico sobre o qual todas as obras do mundo foram feitas de tal maneira através da supervisão divina do Espírito Santo para que fossem facetas intimamente reveladoras de Deus em si, ou apenas o processo de sugar o ar para dentro do organismo para liberá-lo para fora do corpo logo em seguida através da expiração, conforme a ordem natural do sistema respiratório humano.  Mas também há uma terceira significação para o termo; talvez a mais comum e, obviamente, a mais complexa de se canalizar: a inspiração artística – que, diga-se de passagem, não possui nem um artigo na Wikipédia que a defina bem, sendo resumida meramente a “algo que surge dentro do ser humano que o motiva mais a desenhar ou pintar, pois esta sensação lhe trará prazer ou orgulho”.  Já que estou sendo sincero: eu esperava mais de você, Wikipédia.

Houve um tempo em que eu não acreditava em “inspiração”; caso alguém fosse bom em alguma coisa, não era necessário aguardar por uma intervenção divina ou uma voz interior que motivasse a pessoa a realizar uma obra de arte, independente da sua moldura. Minha crença perante a inspiração era equivalente a uma famosa pérola do pensador contemporâneo Fausto Silva: “Quem sabe faz ao vivo!” E ao olhar em retrospectiva, também é possível perceber que a minha natureza prepotente não é nada recente, o que faz da minha falha perante os meus próprios valores algo ainda mais amargo de engolir. Mas cá estou eu, buscando novas histórias e outras maneiras de enxergar o mundo a medida que eu o exploro um pouco mais a cada dia, para que eu possa sentar diante de uma folha em branco do Word no computador sem me sentir intimidado por ela. “Você não me assusta, Word, porque eu sei exatamente o que quero escrever. Porque aconteceu isso, isso e isso, que me fez pensar nisso, nisso e nisso. Ah, e enquanto tudo isso rolava na minha cabeça, ao fundo estava tocando “Tears Dry On Their Own” da Amy Winehouse”. E pronto: “Post novo! Sobre algo rotineiro, algo não tão rotineiro e algo absurdo para chamar a atenção”. Eu costumava ser melhor do que isso. Mais espontâneo e menos sistemático: termos que serviriam muito bem para aquele pobre artigo sobre inspiração na Wikipédia. Por que então eu me rendi a fórmulas e a famigerada arte de fazer sentido? Ah, sim... Porque quando não há sentido... Bom, o que há? Talvez nada.

Quando eu morei sozinho por anos e não havia contratado nenhum plano de internet ainda, passava madrugadas escrevendo sobre “nada” – e entenda que a minha definição de “nada” contempla muito, mas muito sentimento esparramado pelo chão que eu tentava de alguma maneira emoldurá-los. Não para exposição como me sacrifico hoje em dia para fazer – sem ninguém me pedir nada, diga-se de passagem. Queria emoldurá-los para mim mesmo: para que anos depois eu pudesse reler e sentir que já havia tido momentos de desorientação antes. Era um mapa do tesouro que me levava de volta à mim, e não havia nenhum sentido nisso para mais ninguém que tivesse interesse em tentar segui-lo. Mas era tudo para mim, e nunca foi necessário sair por aí à procura de mais nada para me motivar a sentar e escrever por horas e músicas, até finalmente me sentir confortável na pele de Igor de novo. E mesmo tendo só dezessete anos quando comecei a fazer isso, já era consideravelmente mais independente do que posso dizer de mim hoje em dia. Trabalhava o dia todo, limpava a casa, reclamava de dor nas costas e falta de ar, olhava ao redor de um pequeno apartamento e meus poucos pertences encostados nas paredes, e ainda assim tirava um tempo no fim do dia para traçar meu caminho de volta a mim. Porque amanhã faria tudo de novo e era preciso estar bem. Quer dizer, não necessariamente bem, mas moderadamente disposto. Foram os dias em que aprendi a escrever para viver, e que futuramente me ensinariam que o que eu quero mesmo é viver para escrever. A única inspiração que eu precisava era tentar reencontrar meu fôlego para fazer com o que o dia de amanhã valesse a pena mais uma vez.

Não acho que tenha perdido esse sentimento totalmente, mas não quero mais me prender às desculpas que ando dando a mim mesmo – já que, anos depois, eu continuo fazendo isso sem ninguém ter pedido que eu escrevesse qualquer coisa. Sempre escrevi por mim e para mim e talvez seja isso que esteja faltando nesses últimos capítulos: uma alma disposta a reencontrar-se. Um mapeamento de mim mesmo em vês de crônicas sobre as minhas aventuras em uma nova cidade de novo. Talvez um dia eu aprenda que o meu valor nada tem a ver com o que eu conquistei nessa vida ou os lugares que visitei, mas o quanto eu sempre prezei muito por mim mesmo e os poucos leitores fieis que pude conquistar com a simples arte de ser quem eu sou: confuso, perdido, neurótico, porém leal ao dia de amanhã. Hoje valeu a pena e eu agradeço por isso para quem devo a honra. E espero que amanhã seja ainda melhor, mesmo que não visite grandes monumentos ou cruze fronteiras longínquas. No final das contas a inspiração vem da gente mesmo, disposto a ser quem a gente é dia após dia, sem edições nem preocupações sobre fazer sentido ou não.

E como é de praxe que a ironia da vida me siga aonde quer que eu vá, esta é a primeira vez que eu me disponho a escrever tanto sobre “nada”. Eu estava com saudades desse Igor; seja bem vindo à Foz do Iguaçu. Aproveite sua estadia.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Beber, rezar, amar


Ontem eu comemorei 45 dias de sobriedade filosófica em Foz do Iguaçu, resistindo às tentações de mergulhar em questionamentos sobre a vida, o amor e a cidade que fossem além das minhas distrações metafóricas (como, por exemplo, pensar sobre o quanto a péssima direção dos motoristas paraguaios nos estacionamentos de mercados aqui pode representar o desequilíbrio do dólar na bolsa de valores mundial). E talvez eu conseguiria me manter sóbrio por mais tempo, se não fosse a minha irônica sorte de redescobrir a minha fé nos lugares mais aleatórios. Ou, neste caso, nos lugares e nos horários de funcionamento certos.

***

De agora em diante, vamos considerar que estes relatos infames sobre mudanças que ando registrando por aqui vão mais além do que um mero caminhão de mudança que viajou cento e trinta quilômetros para levar as minhas coisas de um familiar ponto A para um distinto ponto B. O que eu quero com tudo isto na verdade é contar uma história que faça mais sentido do que a última que vivi, pois apesar de ter terminado tudo relativamente bem, o começo em si foi algo mais difícil de desenvolver. Bem como todos os começos de qualquer coisa, creio eu.  Mas o prólogo é sempre simples: você faz uma escolha, e assume as ramificações dela ao longo do caminho que se forma à sua frente. É a lei natural da vida – a causa e o efeito – em sua versão mais cotidiana. Não querendo soar determinista demais, nem ofender aqueles que acreditam que é possível cometer erros sem comprometer o seu destino, assim como eu secretamente ainda acredito. Parece até juvenil admitir em voz alta que algo como destino pode existir; como se ao atingir certa idade, conceitos como “destino” e expressões como “nunca” e “para sempre” tornam-se ocos diante do mundo real, e irreconhecíveis para aqueles que realmente levam este mundo a sério. Voltando à minha história, cujo prólogo tem esfriado assim como o clima lá fora, este talvez seja o momento em que o leitor chega até a página em branco que separa o prefácio do primeiro capítulo. Um capítulo que chamarei carinhosamente de “A Espera”.

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Se o mundo pertence aos dispostos, talvez eles considerem me aceitar à sua comunidade ao relevarem o quanto eu estou tentando fazer parte disso tudo pra valer. Caminhando pelas ruas de Foz do Iguaçu, visitando seus marcos históricos, registrando minhas experiências por esta terra de imigrantes e estrangeiros, um sentimento constante pairava sobre mim cuja nomenclatura permanecia indescritível. E talvez tenha sido esta a brecha que o destino estava aguardando que eu alcançasse – ou qualquer outra força que você leitor creia que rege o universo: Deus, o governo, ou os fabricantes daquela pílula vermelha do Matrix. Enfim, em minhas aventuras pela terra das cataratas, eu descobri a palavra que me faltava no que quase seria o lugar mais inesperado de todos: a parede da lateral exterior dos banheiros do Templo Budista Internacional.


Foi em uma visita a mais um ponto turístico da cidade que eu me percebi realmente tentando ir além das minhas zonas de conforto – e as chamo de “zonas” pelo caráter bagunçado que toma conta do meu quarto ultimamente. Admirando as estátuas e os dizeres em chinês sobre prosperidade e paz, eu senti uma calma que há muito tempo não sentia, visto que passo a maior parte do meu tempo entretido por maratonas de séries americanas e surtos de ansiedade generalizada sobre o futuro. Mas depois de passar por todas as estátuas, eu avistei mais alguns dizeres escritos pelas paredes da lojinha de lembranças e dos banheiros próximos a saída. E um deles prendeu a minha atenção ainda mais do que toda a minha mini-experiência budista até então:


E logo abaixo:


De acordo com a religião budista, a impermanência é um dos conceitos essenciais para a descrição do universo e diz respeito à constante mutação de todas as coisas. É importante compreender a importância da impermanência e, acima de tudo, aceitá-la como parte natural da vida. E como todo processo, toda mudança e toda viagem, é preciso dar o primeiro passo – que, por sua vez, sempre será o mais doloroso.

Coincidentemente ou não, a impermanência é a palavra-chave que simboliza esta parte da minha jornada hoje em Foz do Iguaçu. Na travessia entre o ponto A e o B, o mundo novo e o antigo, meu passado e o meu futuro, é preciso entender o porquê de certas coisas ficarem para trás antes de realmente seguir em frente. E ao dar fim à minha visita no templo (e de descobrir o quanto são caras as lembrancinhas daquela lojinha), levei algo bem mais valioso comigo: a crença de que mudanças são inevitáveis na vida de qualquer um, mas ao aceitá-las como um presente, a viagem rumo ao Nirvana pode se tornar bem mais proveitosa.



terça-feira, 8 de setembro de 2015

O jogo do desapego


A coisa mais Iguaçuense que eu vi nos últimos dias foi um homem que pude considerar como religiosamente extremista, marchando entre a avenida Brasil e a Presidente Kennedy enquanto carregava uma placa que anunciava o apocalipse ao sinalizar que “Deus está voltando”. Até aí tudo bem; este não é o primeiro estagiário divino a calcular errado o dia do juízo final que eu já encontrei por aí. O que foi interessante foi passar por ele em outras ocasiões e descobrir que ele possui mais versões daquela placa do que eu esperava; com o mesmo aviso, mas em outras duas línguas diferentes – inglês e árabe. E mais uma vez eu me peguei pensando sobre o quanto Foz do Iguaçu é fascinante a nível global, mesmo quando me pego sendo informado do seu eventual fim.

Apocalipses à parte, eu continuo dando continuidade ao que já pode ser considerada a minha maratona pessoal de assuntos aleatórios – que, por sua vez, inclui a própria atualização semanal desta página infame – enquanto meus planos profissionais aproveitam o fim do inverno para hibernar um pouco mais. E talvez tenha sido a lembrança daquele sujeito tão preocupado em avisar todas as pessoas de todos os povos que nenhum deles resistirá ao arrebatamento – ou o fato de que House of Cards só volta em Fevereiro – que uma vontade tanto quanto suicida me cativou a fazer o download das cinco temporadas de Game of Thrones como forma de ocupar os meus dias sem luta/dias sem glória.

Eu sei o que vocês que já assistiram estão pensando em me dizer: todo mundo morre (risos, risos, frustração súbita). Mas se uma série de fatalidades iminentes realmente me impedisse de assistir algo, eu não deixaria minha cama de manhã para servir de espectador aos comentários ironicamente críticos do Chico Pinheiro no Bom Dia Brasil sobre as últimas chacinas nacionais enquanto tomo meu café com leite. No entanto, algo para o qual eu não estava preparado – e talvez os fãs mais antigos sintam um pingo de saudade com a minha inocência aqui – foi descobrir que todo mundo morre mesmo: começando aos 5:51 minutos do primeiro episódio, com uma decapitação surpresa, até... Bom, eu só assisti ao primeiro episódio, mas isto parece servir mais para estabelecer o começo de rotina do que para nos assustar. Conforme as duas decapitações que vieram logo em seguida puderam demonstrar.

Depois de uma leve pesquisada sobre as críticas do primeiro episódio em sites do gênero – que, por sinal, foram bem sucedidas em me esnobar ao segregarem as reviews dos episódios em dois grupos: os experts que leram os livros antes, e os novatos (que, talvez assim como eu, só começaram a assistir devido a um amigo expert insistentemente chato) – eu já pude ter uma noção mais clara dos valores inclusos neste mundo fictício para prenderem a minha atenção pelos próximos capítulos. Valores como lealdade, honra, família... Dentre outros fatores-chave que a HBO eventualmente inclui em todos os seus programas: sexo, violência e efeitos especiais. Mas o que me chamou a atenção mesmo foi uma lição mais sutil, quase subliminar entre todo o sangue falso e as paisagens épicas: o desapego.

Eu não consideraria a arte do desapego como um dos traços mais marcantes da minha personalidade, até levar em consideração o que tenho feito até decidir participar da chacina – créditos ao Chico Pinheiro por implantar este termo na minha memória – de Game of Thrones, onde aparentemente ninguém de quem eu goste sobreviverá. Mas a mudança de Cascavel, a decisão de começar uma nova faculdade, a tentativa de reconstruir uma vida do zero mais uma vez... Dizer adeus às coisas e as pessoas nunca foi o meu forte, mas assim como Ned Stark eu entendo que às vezes é preciso deixar o seu reino e sua família para trás por um bem maior. Talvez as minhas escolhas não possuam um caráter tão épico, mas foram revolucionárias para mim tanto quanto migrar para o Sul a pedido do Rei.

Isto é, até um cara (que eu ainda não entendi direito quem é) empurrar o filho do Ned da janela de uma torre, porque ele viu o cara transando com a rainha de um outro reino. A ficção pode ter seus exageros, mas eu sempre defenderei suas intenções. E é bom saber que ao menos no meu mundo eu não preciso me preocupar em ser decapitado de surpresa; só com alguns atentados contra ao meu ego quando vou longe demais na linha do tempo do Facebook e dou de cara com a foto de alguém feliz e bem sucedido.

Tudo bem; o inverno está terminando.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

A linha de chegada


Se na virada do ano alguém me dissesse que dali nove meses eu estaria correndo pelas ruas de Foz do Iguaçu em um dia raramente nublado, escutando uma versão polca de “Bohemian Rhapsody”, depois de me graduar em Psicologia e decidir agregar isso a uma segunda faculdade de Jornalismo, começando em 2016, na esperança de me tornar um escritor famoso (e mais magro) um dia, mesmo que isto significasse deixar minha liberdade imobiliária, meus amigos, e toda a vida que eu construí para mim mesmo durante os últimos seis anos para trás...
Eu provavelmente acreditaria, porque parece totalmente algo que eu faria.Tanto é que...

Mas apesar das mudanças, existe algo do qual eu ainda não consegui fugir: a noção distorcida de que é mais importante correr rápido do que percorrer distâncias maiores. E da minha insegurança nasce a fadiga, que cede lugar à paranoia... Que me faz quase pisar em um bando de quatis que inexplicavelmente habitam a região central da cidade em busca de comida, enquanto pessoas passam correndo por eles em busca de aliviar o estrago que a comida lhes fez.

Entre animais silvestres curiosos, idosos de regata e a temperatura vulcânica da cidade, eu consegui recuperar aqui o meu ritmo de meses atrás – quando 2015 começou e eu decidi que uma das minhas metas seria deixar de caminhar para aprender a correr, e fazer um esforço a mais para a minha saúde que, no mínimo, compensasse pela ingestão desenfreada de bebidas alcoólicas e tranqueiras gordurosas. A questão não é fazer isto por uma vida mais light, mas pela redução de dados em um corpo que – pelos meus cálculos – irá se auto-destruir quando eu completar 30 anos, ou irá durar para sempre. Eu não sei qual será ainda, por isso levo um dia e uma long neck de cada vez.

Enfim, hoje eu me peguei relembrando os primeiros dias de 2015, quando ainda morava em Cascavel e estava há poucos dias da colação de grau. E de que quando nada parecia fazer sentido e eu me sentia perdido, sair correndo (literalmente) parecia a coisa mais sensata a se fazer. Ajudava a dar um cansaço na ansiedade, a colocar as idéias no lugar, e a tentar fixar em mim a lição de que não importa com qual velocidade você está correndo, se não sabe aonde quer chegar. E que mais importante que isto, é saber reconhecer a distância que você já foi capaz de percorrer – e arriscar a ir um pouco mais longe quando se sentir acomodado.

Foz do Iguaçu tem sido o meu percurso além da rota que eu estava acostumado a correr na vida, e a cada dia que passa pude perceber exatamente aonde quero chegar com tudo isto. Foi aqui que eu percebi que existe um conceito ainda mais importante do que a velocidade ou a distância do trajeto: algumas pessoas podem simplesmente seguir pelo mesmo caminho por algum tempo, até tomarem caminhos opostos que os levem até o que procuram. Eu sempre serei grato à minha primeira formação pelo conhecimento que pude adquirir e as pessoas com quem compartilhei aquele tempo, mas a verdade é que quando cruzamos a linha de chegada, muita gente ao meu redor sentiu que venceu... Eu não. Não porque eu queria algo a mais; queria algo diferente. E agora que eu sei aonde quero chegar, o caminho já não parece mais tão tortuoso. Pelo contrário: finalmente parece liberado para mim.

E não será um dia nublado que irá me impedir de continuar correndo atrás do que eu quero me tornar: um escritor. Agora, se serei magro ou não, só o tempo dirá.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

A turma do chapéu


Depois de completar um mês morando em Foz do Iguaçu, eu já me sinto bem mais a vontade para tratar a cidade do mesmo jeito que eu trato todas as outras coisas da minha vida: com ansiedade, egocentrismo e delírios de grandiosidade. E, claro, submetendo-a a se encaixar em quaisquer teorias que eu tenha a conceber pelo bem da minha existência. Não é o sistema mais eficaz do mundo, mas é o que nós, projetos de escritores, carinhosamente chamamos de “processo criativo”.

Talvez seja a única profissão do mundo em que ter um olhar megalomaníaco sobre todas as coisas sirva para produzir obras, matérias, crônicas e reportagens que possam pagar as nossas contas. O sensacionalismo interno deve ceder lugar aos fatos, cuidadosamente dosados com opiniões, argumentos e, no meu caso, um senso apocalíptico de humor. Ao menos esta é a esperança. Mas atualmente os fatos são de que, por enquanto, eu sou apenas um cara de 23 anos desbocado e com muito tempo livre, mas com um sonho. Um sonho que eu não sabia que tinha até vê-lo com os meus próprios olhos, no último lugar que eu pensei que seria possível encontrá-lo: uma mesa de bar.

Durante a minha mais recente odisséia rumo a um novo emprego, tive a oportunidade de conhecer alguns dos jornalistas mais importantes e influentes da cidade – e de, humildemente, lhes pedir ajuda para sobreviver profissionalmente na terra das Cataratas. E foi em uma destas entrevistas que algo inusitado aconteceu: a velha história de “eu conheci um cara, que conhece um cara, que conhece um cara que pode me arrumar um emprego”. Um cara que, coincidente, também freqüenta o mesmo bar que eu e que, aparentemente, também possui a sua mesa cativa onde outros grandes figurões do cenário jornalístico se reúnem para um dos mais sagrados rituais da profissão (e um velho favorito meu também): o happy hour.


Era o que se podia imaginar de um grupo de jornalistas: óculos de grau com armações grossas, camisetas pólo com o colarinho descontraído, as típicas tiradas sarcásticas contra o governo, um castelo de canecas de chopp sob a mesa, e chapéus panamá usados como símbolos de liberdade de expressão. Após a minha entrevista, pus-me em uma mesa na órbita daquela reunião extracurricular de profissionais da mídia impressa, rádio e telecomunicação, e fiquei hipnotizado pela possibilidade de, um dia, ter meu próprio lugar naquela mesa. Ser capaz de construir uma carreira ao retomar os meus estudos do campo e eventualmente integrar o seleto círculo de figuras públicas capazes de investigar, apurar, especular e, enfim, noticiar fatos sobre o mundo afora, para enfim tirar alguns momentos no fim do dia para comemorar com os colegas de profissão por mais um dia de dever cumprido – com direito, é claro, a tirar o chapéu panamá e colocá-lo sobre a mesa como quem quer dizer, “Por hoje é só”.


Foi aí que eu decidi: faria parte da “turma do chapéu” um dia e tomaria meu lugar em uma terra de gigantes. Melhor ainda: teria cadeira cativa também naquela mesa. E ninguém sairia de lá enquanto o governo não mudasse.