terça-feira, 1 de setembro de 2015

A turma do chapéu


Depois de completar um mês morando em Foz do Iguaçu, eu já me sinto bem mais a vontade para tratar a cidade do mesmo jeito que eu trato todas as outras coisas da minha vida: com ansiedade, egocentrismo e delírios de grandiosidade. E, claro, submetendo-a a se encaixar em quaisquer teorias que eu tenha a conceber pelo bem da minha existência. Não é o sistema mais eficaz do mundo, mas é o que nós, projetos de escritores, carinhosamente chamamos de “processo criativo”.

Talvez seja a única profissão do mundo em que ter um olhar megalomaníaco sobre todas as coisas sirva para produzir obras, matérias, crônicas e reportagens que possam pagar as nossas contas. O sensacionalismo interno deve ceder lugar aos fatos, cuidadosamente dosados com opiniões, argumentos e, no meu caso, um senso apocalíptico de humor. Ao menos esta é a esperança. Mas atualmente os fatos são de que, por enquanto, eu sou apenas um cara de 23 anos desbocado e com muito tempo livre, mas com um sonho. Um sonho que eu não sabia que tinha até vê-lo com os meus próprios olhos, no último lugar que eu pensei que seria possível encontrá-lo: uma mesa de bar.

Durante a minha mais recente odisséia rumo a um novo emprego, tive a oportunidade de conhecer alguns dos jornalistas mais importantes e influentes da cidade – e de, humildemente, lhes pedir ajuda para sobreviver profissionalmente na terra das Cataratas. E foi em uma destas entrevistas que algo inusitado aconteceu: a velha história de “eu conheci um cara, que conhece um cara, que conhece um cara que pode me arrumar um emprego”. Um cara que, coincidente, também freqüenta o mesmo bar que eu e que, aparentemente, também possui a sua mesa cativa onde outros grandes figurões do cenário jornalístico se reúnem para um dos mais sagrados rituais da profissão (e um velho favorito meu também): o happy hour.


Era o que se podia imaginar de um grupo de jornalistas: óculos de grau com armações grossas, camisetas pólo com o colarinho descontraído, as típicas tiradas sarcásticas contra o governo, um castelo de canecas de chopp sob a mesa, e chapéus panamá usados como símbolos de liberdade de expressão. Após a minha entrevista, pus-me em uma mesa na órbita daquela reunião extracurricular de profissionais da mídia impressa, rádio e telecomunicação, e fiquei hipnotizado pela possibilidade de, um dia, ter meu próprio lugar naquela mesa. Ser capaz de construir uma carreira ao retomar os meus estudos do campo e eventualmente integrar o seleto círculo de figuras públicas capazes de investigar, apurar, especular e, enfim, noticiar fatos sobre o mundo afora, para enfim tirar alguns momentos no fim do dia para comemorar com os colegas de profissão por mais um dia de dever cumprido – com direito, é claro, a tirar o chapéu panamá e colocá-lo sobre a mesa como quem quer dizer, “Por hoje é só”.


Foi aí que eu decidi: faria parte da “turma do chapéu” um dia e tomaria meu lugar em uma terra de gigantes. Melhor ainda: teria cadeira cativa também naquela mesa. E ninguém sairia de lá enquanto o governo não mudasse.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

El próximo mes


Foz do Iguaçu. População: aproximadamente 263.647 habitantes conforme as estatísticas do IBGE, desde a última vez em que alguém atualizou este artigo na Wikipedia. E desde 27 de Julho de 2015, 263.647 habitantes, mais 01 Igor.
Seja bem vindo à terra das Cataratas! Boa sorte para agüentar o calor.

Já faz um mês que tudo mudou. Ou mais precisamente, faz um mês que um caminhão de mudanças trouxe a mim e os meus pertences para a beira do país, junto com a minha esperança de que tudo mudasse. Demoraram alguns dias para que cada coisa encontrasse um novo lugar, e que algum esboço de rotina fosse construída, mas definitivamente ainda levará mais algumas ondas diárias de calor até que eu possa dizer que me sinto mesmo em casa.

O começo das coisas é decepcionante e desencorajador. É como finalmente decidir começar a assistir “Game of Thrones” depois de já terem produzido cinco temporadas e dos meus amigos que já assistiram me avisarem a não me apegar a nenhum personagem porque todo mundo morre. Bom, se eu fosse levar isto mesmo a sério, a vida como um todo não é assim também?
Isto não deveria me impedir de trilhar o caminho. Mas o começo... Ah, o começo. É um saco. Também foi assim com “Breaking Bad” e “House of Cards”. E pelo jeito serializado que ando levando a minha vida – especialmente após os finais de temporada da faculdade e do meu tempo em Cascavel – provavelmente será assim também com Foz do Iguaçu. Walter White não se tornou o fodão da metanfetamina em uma temporada, nem Frank Underwood usurpou o poder de todos que estavam acima do seu cargo em Washington em 13 episódios. Foi preciso controlar a ansiedade para continuar assistindo, e mais de uma temporada para que os personagens e a história em si se consolidassem em algo mais palpável do que meros roteiros. Roteiros que, em termos de vida, podem ser traduzidos como planos. Que são só o que tenho por enquanto.

Sobre a cidade eu já conheço um pouco. Mesmo sem grandes progressos, muita coisa pode acontecer em uma temporada. E em um mês de vida real já consegui visitar marcos históricos, corri por quase toda a Avenida República Argentina (e avisei alguns quatis pelo caminho, o que pode ser considerado normal pelos Iguaçuenses mais habituados), presenciei o show de iluminação da barragem da Itaipu à noite, e expandi minha cultura gastronômica por alguns restaurantes temáticos – mas sem abrir mão de uma pizza às vezes. Me decepcionei ao ir até o Duty Free na fronteira da Argentina para comprar mashmallow e não encontrei, então segui em frente até Puerto Iguassu – porque pelo jeito que as coisas andam, é mais barato dar um pulo até o país do lado para comprar azeite e dar sorte de encontrar as últimas garrafas de Pinot Noir em um mercadinho, do que me desfazer de preciosos reais em território nacional. E o mais surpreendente de tudo: em apenas um mês eu já consegui decorar meu próprio CEP.
Ah, e clareei minhas idéias sobre o que quero fazer da minha vida, etc, etc. Fiquei empolgado mesmo em saber dizer aonde moro com todos os números possíveis, caso algum quati me ataque quando for sair pra correr e invoque algum deles sem querer. Porque estamos falando de Foz do Iguaçu, minha gente, e tudo é possível.

Minhas metas são claras:
1) Reaprender a viver em família, porque depois de seis anos de independência juvenil em Cascavel, é difícil se adaptar a regras e disciplina – ainda mais quando se mora em um condomínio;
2) Cursar a faculdade de Jornalismo (até o fim desta vez), e trilhar minha carreira profissional desde o primeiro dia – como uma professora de psicologia me ensinou em minha primeira graduação que é como faculdades devem ser encaradas, caso queira-se fazer um futuro delas;
3) Aproveitar tudo o que a terra das cataratas pode oferecer em termos de cultura e turismo – sem correr o risco de pegar insolação ou causar algum incidente internacional ao encher a cara e cruzar a fronteira de algum país próximo – o que, convenhamos, pode acontecer.

Como um todo, eu posso dizer que este primeiro mês foi produtivo. Do jeito que a primeira temporada de uma série estreante deveria ser. Criar a base para eventos futuros e semear plots para crescimento pessoal: confere. Quero fazer com que isto dê certo, mas como já escrevi em outro blog – um “amanhã” atrás – nada acontece da noite pro dia; mesmo quando se está próximo de duas zonas francas internacionais diferentes. Diante do resto da minha nova vida pela frente, algo permanece constante: vai ficar tudo bem – repetiu ele, incrédulo, até realmente acreditar.


Agora é com você, Foz do Iguaçu: prove que valerá a pena.

 

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Fé, e outros rascunhos


A cada dia que passa, eu tento me situar um pouco mais com a minha nova realidade. Uma realidade que, neste caso, envolve Foz do Iguaçu: uma das cidades mais dinâmicas em termos de turismo, cultura, entretenimento e possibilidades de vida em níveis internacionais. São tantos restaurantes, casas de shows, museus, parques temáticos, maravilhas da natureza...  Que às vezes eu me surpreendo um pouco com o quanto eu fico entediado em casa.

Porque, sinceramente, viver cansa. Explorar novos lugares pode ser trabalhoso. Provar novas cozinhas pode ser caro. E ter novas experiências tem lá a sua famigerada margem de erro. É fácil arquivar algo como “experiência” depois de ter passado por momentos de desgosto e estresse. Mas a minha meta hoje vai além de tudo isso. Minha meta hoje é de aprender a ser feliz, tranqüilo e grato pelo que eu tenho: uma oportunidade de recomeçar, o tempo e a infra-estrutura o suficiente para fazer isto.

Isto é, até aquele teste.

***

Dia desses eu fiz um teste online sobre traços de personalidade e sabotadores mentais que anulam a sua inteligência, dentre outras palavras-chave muito atraentes que me seduziram a clicar em “aceito sem ler os termos deste teste que pode ou não coincidir com uma resposta que você procura neste momento”. E de acordo com nossas análises, Igor, clique neste outro link e leia em preto e branco os resultados que obtivemos através do nosso longo e repetitivo questionário sobre como você lida com estresse, situações-problema e outras neuroses cotidianas. E ainda geraram os resultados em inglês, para dar mais credibilidade na nomeação dos meus déficits.

Enfim, a aleatoriedade do questionário – que, devo deixar claro, não influenciam em nada na sabedoria milenar que envolve a produção de biscoitos chineses da sorte – decidiu que o meu problema é o excesso de autocrítica, mas em um sub-nível diferente: a hiper realização. A necessidade constante de atingir novas conquistas e de, conseqüentemente, atribuir a minha auto-estima a elas.

O que fez todo o sentido para mim hoje, que vivo em uma cidade que comporta inúmeras possibilidades e que desperta em mim a constante necessidade de explorar ao menos uma delas por dia. Porque eu decidi mudar de vida e decidi que isto deverá valer a pena – o quanto antes, porque meu tédio é inversamente proporcional à minha ansiedade. Será que isto caberia em uma fórmula ou algo do tipo?

***


Ok. Digamos que seja só coisa da minha cabeça, e que não haja nada nem ninguém me cobrando resultados que aparentemente eu não estou entregando ainda. Seja através de viver novas experiências ou finalmente cumprir velhas promessas de ano novo. Eu não sei. Mas em um novo capítulo das minhas irônicas desventuras, fiz uma limpa na pilha de rascunhos que compõe mais da metade da minha mesa e encontrei um que me chamou a atenção:

 

Talvez fosse mesmo uma crise existencial; a eterna procura por algo a mais, ou o teste definitivo pelo qual todos os seres humanos eventualmente passam durante o curso da vida – o da fé. Fosse o que fosse, decidi que valeria a pena dedicar o meu sábado para explorar outras partes de Foz do Iguaçu, como o famoso templo budista, na esperança de encontrar mais algum sinal. Mas só o que encontrei foi o aviso no muro de entrada: horário de funcionamento das 9h30 às 16h30. E às exatamente 16h36, eu senti que parte da minha fé ficou abalada.

Em seguida decidi visitar outro templo; a mesquita que reúne a segunda maior comunidade muçulmana do Brasil... também fechada para visitação.

Por último, a caminho de volta para casa, passei pela igreja católica matriz – com uma grande placa que dizia “EM OBRAS” bem em frente à porta principal. E a essa altura pensei que o problema não fosse a minha fé, mas a minha falta de planejamento.

***

No final das contas, eu decidi que meus pensamentos não estavam realmente voltados para fé, ou o segredo da vida, ou a psicologia da minha inquietação. Minha necessidade instintiva de encontrar uma resposta satisfatória eventualmente sossegou com o entardecer e deu brecha para uma nova teoria, representada pela fórmula abaixo:


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Independente dos meus questionamentos, Foz do Iguaçu está fazendo jus à sua proposta turística de pelo menos levar a minha mente a novos rumos... mesmo que eu acabe com dor de cabeça em um beco sem saída. Tudo bem; vale como experiência.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Algo novo?


O melhor aspecto da minha vida em Foz do Iguaçu hoje também é o pior: tudo é novo. Por um lado me sinto perdido por sair pelas ruas da cidade sem saber exatamente para onde estou indo ainda. Por outro, me sinto confortável na minha confusão por ter o habeas corpus de ser “de fora” e não ter a responsabilidade inata de saber para onde estou indo. Se ao menos isto valesse no meu contexto de vida e não só na geografia, eu estaria bem mais tranqüilo. Mas também não haveria nada para escrever aqui. E no final do dia eu gosto de ter o que registrar, nem que seja só para apuração do placar entre a cidade e eu.

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Round #1

Acordei com um bom humor inexplicável. Talvez fosse o despertar preguiçoso que por um instante deixa a minha realidade embaçada, ou talvez fosse só o cheiro de café vindo da cozinha. Independente do que fosse, foi um daqueles dias em que você acorda disposto, encorajado, inspirado a fazer da sua vida algo significativo. Era cedo na semana para qualquer sentimento de “carpe diem”, mas por passar a maioria dos meus dias em casa sem planos ou renda, a atemporalidade do desemprego toma conta do relógio biológico. Isto é, exceto pelo meu Masterchef nas noites de terça-feira. Enfim, algo me levou a abrir a janela como forma de dar uma chance para a vida me surpreender. Mas ao contrário de um céu azul e uma proposta milionária de trabalho, encontrei cinzas, chuva e um lagartixa – que, claro, pulou para dentro do meu quarto e se apossou da minha cama. Um breve assassinato depois, fechei a janela novamente e deixei qualquer sentimento de esperança do lado de fora. Não me importo tanto com o clima tropical lá fora, mas do meu ecossistema cuido eu. E o meu ventilador.

Foz do Iguaçu: 1 x Igor: 0

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Round #2

Andando pelas ruas da cidade, me deparei com um papel grudado em um ponto de ônibus. Por um instante pensei que fosse só alguma propaganda qualquer, do tipo que compra/vende ouro ou contato de moto-táxi, até que parei pra ler com atenção (e antes que você me questione, a resposta é sim: eu ando tendo muito tempo livre):


“Marina, a Aline ta te procurando. PS: Desculpa eu te procurar assim, mas eu não sabia mais onde te encontrar. PS: Vou te esperar no mesmo lugar as 21h.”

Foram tantas perguntas que me vieram à mente, mas até agora apenas uma dúvida em particular ainda me incomoda: tudo bem a pessoa estar perdida e não saber como encontrar a Marina, até porque, quem sou eu para questionar métodos para encontrar qualquer coisa? Mas como alguém que aparentemente sabe diferenciar “mas” e “mais” me peca logo no uso da crase?
Eu não conheço nem a Marina nem a Aline, nem sei que ônibus passa naquele ponto. Mas mesmo nos meus piores momentos de desorientação, eu ainda soube me apoiar na gramática.

Foz do Iguaçu: 1 x Igor: 1

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Round #3

Segunda feira à noite, tentando me manter fiel à proposta de que qualquer experiência nova que Foz do Iguaçu possa me proporcionar é válida, eu sacrifiquei um princípio de uma das minhas maiores crenças – a gastronomia – e concordei em sair para jantar em um restaurante chinês, já que a maioria dos outros restaurantes temáticos estavam fechados. Não é nenhum preconceito contra a cultura oriental, mas massa e legumes para mim sempre pertenceram à classes cuidadosamente separadas e não unidos pelo curry em um yakisoba. Mas eu admito que não estava ruim, assim como os rolinhos primavera da entrada também me surpreenderam felizmente com seu recheio de legumes. Só que a surpresa mesmo veio na saída do restaurante, quando abri meu biscoito da sorte:


“Na vida você deve fazer o que gosta, senão, acaba trabalhando.”

Entre paralelas que não se encontram em centro algum e o clima exponencialmente vulcânico, Foz do Iguaçu parece estar me mostrando aos poucos que nada aqui é como qualquer experiência que eu já tive antes, mas que isto não significa que poderá valer a pena caso eu continue saindo por aí e permitindo que a cidade me surpreenda. No mínimo ela já me provou que vale a pena só pela ironia na minha sorte do biscoito. Às vezes um desvio incerto pode levar ao caminho que você procurava desde o começo.

Placar final: empate técnico (por enquanto).

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Três semanas depois...


...eu vi a minha vida passar diante dos meus olhos. Ou melhor, a minha vida anterior a esta. Na verdade é estranho tentar colocar em palavras o que eu fiz porque ainda é algo que não faz muito sentido. Mas em termos objetivos, eu estive em Cascavel, no interior do Paraná pela primeira vez desde que me mudei para Foz do Iguaçu. Para você que não me conhece e por acaso trombou com este link, jamais entenderá o que isso quer dizer. Mas para você que me conheceu enquanto eu ainda morava por lá, eu sei que isso parece mais claro.

O enredo: há seis anos eu me mudei para a cidade de Cascavel com o intuito de estudar Jornalismo. Mas planos são coisas tão frágeis e propensas a mudanças como, bom, pessoas. E entre tantos desvios que a gente faz na vida, desde mudar de idéia até mudar de CEP, eu optei por cursar outra faculdade – a de Psicologia. E a minha história em Cascavel se desenrolou desde o primeiro dia de aula do curso “errado” até alguns meses após o dia da minha formatura do curso “certo”... Até eu descobrir mais uma vez nesta vida que certo e errado não existem, e que no final das contas eu estava pronto para ingressar um mercado de trabalho, mas não o que eu realmente queria. Pode parecer um pouco confuso, mas por enquanto escrevo para mim e para algumas pessoas em especial que ainda acham interessante acompanhar os próximos capítulos da minha nova história: cursar Jornalismo de novo, desta vez do começo ao fim, em Foz do Iguaçu.

Eu sinto que os marcadores que ando inserindo em meus textos tem se repetido bastante, mas acredito que seja porque joguei seis anos de histórias, amizades, relacionamentos e sonhos em um ventilador e nem todos os pedaços voltaram ao chão ainda. E o que eu senti ao adentrar território Cascavelense de novo não tem outro nome: estrangeirismo. Estar de volta na cidade em que morei em três apartamentos, cursei uma graduação e meia em duas faculdades diferentes e conheci uma série de pessoas incríveis e inimagináveis, e de repente perceber que não há mais um espaço para mim lá foi devastador. Porque por seis anos – os seis anos que morei sozinho e cheguei mais próximo de alcançar a minha independência – fui eu quem havia definido bem o meu espaço, as minhas regras (que simplesmente existiam para fins decorativos) e a minha liberdade. E era eu quem descia para abrir o portão (porque o interfone nunca funcionou direito) para deixar as minhas pessoas entrarem para sentarem na sacada, beberem seu veneno de escolha e desabafarem sobre como é frustrante morar com os pais, ou como é complicado estar em um relacionamento, ou como é impossível às vezes conviver consigo mesmo.

Eu nunca fui uma pessoa fácil de se lidar. Nunca. Desde que me conheço por gente, fui complicado, estressado, convencido, egocêntrico, prepotente, arrogante e auto-destrutivo. Com um famoso dom para acolher e ser companheiro das pessoas que julguei serem merecedoras disto, porque eram pessoas inspiradoras para mim. E estou falando aqui dos meus amigos – os poucos porém insubstituíveis amigos que fiz nos últimos seis anos naquela cidade – que pretendo continuar carregando comigo; nas crises existenciais, nos dramas emocionais, nos grupos de WhatsApp e no coração. Mas me deparar com eles assim, sem emprego, sem rumo e sem saber exatamente o que fazer, foi demais para mim. Logo eles que sempre me pareceram tão determinados e destinados ao sucesso, e que invariavelmente – para mim ao menos – já se tornaram quem gostariam de ser nesta vida. Estudantes, profissionais, lendas aos meus olhos.

Não foi uma viagem fácil. E mais do que aturar a minha personalidade difícil, sempre foi pior ter que admitir em alguns momentos que eu preciso de ajuda. Que as coisas não estão indo como eu planejava porque, bom, eu não tinha um plano quando cheguei aqui – só um caminhão cheio de coisas e um único sonho em mente. O que, se me lembro bem, é bem similar ao que eu passei há seis anos, no começo daquela vida. E eu também tive muita, mas muita teimosia para aceitar que este é só o começo novamente – e que começos por via de regra são uma droga.  E foi assim que, mais uma vez, eu me deixei levar pela ansiedade de que, no final das contas, só fazem três semanas que o meu mundo mudou. Mas foi bom descobrir que o meu legado – os meus amigos e todas as histórias que escrevemos naquela cidade – permanece intacto.

Há quem diga que a vida é uma só. Há quem diga que é feita de ciclos, fases, etapas com começos, meios e fins. Quanto a mim, carrego comigo um dos princípios da minha graduação de Psicologia: eu continuarei fadado às mesmas crises enquanto continuar repetindo os mesmos padrões. Neste caso, o padrão de querer sempre mais do que tudo aqui e agora, e de ser alguém para se aspirar também. Mas eu preciso me acalmar, levar um dia após o outro e, por que não?, renovar as minhas filosofias. Da última vez em que escrevi uma história dessas, o amanhã era tudo.

Acho que agora o que posso adotar é acreditar que hoje, à beira de dois outros países, são inúmeros os caminhos que eu posso seguir. E que segundo o que a minha professora de psicanálise me desejou em uma mensagem de ano-novo, basta que eu encontre o meu e o percorra até o fim.