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terça-feira, 18 de agosto de 2015

Três semanas depois...


...eu vi a minha vida passar diante dos meus olhos. Ou melhor, a minha vida anterior a esta. Na verdade é estranho tentar colocar em palavras o que eu fiz porque ainda é algo que não faz muito sentido. Mas em termos objetivos, eu estive em Cascavel, no interior do Paraná pela primeira vez desde que me mudei para Foz do Iguaçu. Para você que não me conhece e por acaso trombou com este link, jamais entenderá o que isso quer dizer. Mas para você que me conheceu enquanto eu ainda morava por lá, eu sei que isso parece mais claro.

O enredo: há seis anos eu me mudei para a cidade de Cascavel com o intuito de estudar Jornalismo. Mas planos são coisas tão frágeis e propensas a mudanças como, bom, pessoas. E entre tantos desvios que a gente faz na vida, desde mudar de idéia até mudar de CEP, eu optei por cursar outra faculdade – a de Psicologia. E a minha história em Cascavel se desenrolou desde o primeiro dia de aula do curso “errado” até alguns meses após o dia da minha formatura do curso “certo”... Até eu descobrir mais uma vez nesta vida que certo e errado não existem, e que no final das contas eu estava pronto para ingressar um mercado de trabalho, mas não o que eu realmente queria. Pode parecer um pouco confuso, mas por enquanto escrevo para mim e para algumas pessoas em especial que ainda acham interessante acompanhar os próximos capítulos da minha nova história: cursar Jornalismo de novo, desta vez do começo ao fim, em Foz do Iguaçu.

Eu sinto que os marcadores que ando inserindo em meus textos tem se repetido bastante, mas acredito que seja porque joguei seis anos de histórias, amizades, relacionamentos e sonhos em um ventilador e nem todos os pedaços voltaram ao chão ainda. E o que eu senti ao adentrar território Cascavelense de novo não tem outro nome: estrangeirismo. Estar de volta na cidade em que morei em três apartamentos, cursei uma graduação e meia em duas faculdades diferentes e conheci uma série de pessoas incríveis e inimagináveis, e de repente perceber que não há mais um espaço para mim lá foi devastador. Porque por seis anos – os seis anos que morei sozinho e cheguei mais próximo de alcançar a minha independência – fui eu quem havia definido bem o meu espaço, as minhas regras (que simplesmente existiam para fins decorativos) e a minha liberdade. E era eu quem descia para abrir o portão (porque o interfone nunca funcionou direito) para deixar as minhas pessoas entrarem para sentarem na sacada, beberem seu veneno de escolha e desabafarem sobre como é frustrante morar com os pais, ou como é complicado estar em um relacionamento, ou como é impossível às vezes conviver consigo mesmo.

Eu nunca fui uma pessoa fácil de se lidar. Nunca. Desde que me conheço por gente, fui complicado, estressado, convencido, egocêntrico, prepotente, arrogante e auto-destrutivo. Com um famoso dom para acolher e ser companheiro das pessoas que julguei serem merecedoras disto, porque eram pessoas inspiradoras para mim. E estou falando aqui dos meus amigos – os poucos porém insubstituíveis amigos que fiz nos últimos seis anos naquela cidade – que pretendo continuar carregando comigo; nas crises existenciais, nos dramas emocionais, nos grupos de WhatsApp e no coração. Mas me deparar com eles assim, sem emprego, sem rumo e sem saber exatamente o que fazer, foi demais para mim. Logo eles que sempre me pareceram tão determinados e destinados ao sucesso, e que invariavelmente – para mim ao menos – já se tornaram quem gostariam de ser nesta vida. Estudantes, profissionais, lendas aos meus olhos.

Não foi uma viagem fácil. E mais do que aturar a minha personalidade difícil, sempre foi pior ter que admitir em alguns momentos que eu preciso de ajuda. Que as coisas não estão indo como eu planejava porque, bom, eu não tinha um plano quando cheguei aqui – só um caminhão cheio de coisas e um único sonho em mente. O que, se me lembro bem, é bem similar ao que eu passei há seis anos, no começo daquela vida. E eu também tive muita, mas muita teimosia para aceitar que este é só o começo novamente – e que começos por via de regra são uma droga.  E foi assim que, mais uma vez, eu me deixei levar pela ansiedade de que, no final das contas, só fazem três semanas que o meu mundo mudou. Mas foi bom descobrir que o meu legado – os meus amigos e todas as histórias que escrevemos naquela cidade – permanece intacto.

Há quem diga que a vida é uma só. Há quem diga que é feita de ciclos, fases, etapas com começos, meios e fins. Quanto a mim, carrego comigo um dos princípios da minha graduação de Psicologia: eu continuarei fadado às mesmas crises enquanto continuar repetindo os mesmos padrões. Neste caso, o padrão de querer sempre mais do que tudo aqui e agora, e de ser alguém para se aspirar também. Mas eu preciso me acalmar, levar um dia após o outro e, por que não?, renovar as minhas filosofias. Da última vez em que escrevi uma história dessas, o amanhã era tudo.

Acho que agora o que posso adotar é acreditar que hoje, à beira de dois outros países, são inúmeros os caminhos que eu posso seguir. E que segundo o que a minha professora de psicanálise me desejou em uma mensagem de ano-novo, basta que eu encontre o meu e o percorra até o fim.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Tudo ensolarado o tempo todo sempre


Estabilidade. Esta é a meta. A tão sonhada despreocupação emocional, somada pela independência financeira e a liberdade que pode abranger ou não uma dose saudável de libertinagem também. Mas para isso é preciso ter um foco, um plano e o mais importante: uma infra-estrutura. Estas são as palavras-chave que me trouxeram até Foz do Iguaçu, aonde qualquer um irá lhe confirmar a primeira marca registrada da cidade: o calor.

Quanto a isso não há argumentos, e é o que eu vejo escancarado nos jornais todos os dias: tudo ensolarado o tempo todo, sempre. Pode não ser o clima mais agradável de todos, mas sem dúvida é condizente com ao menos a filosofia da minha meta – é estável. E por ser tão destrutivamente abençoada de vitamina D, Foz do Iguaçu me permitiu retomar um dos meus velhos hábitos: a corrida.

Ao ter me familiarizado a cada dia um pouco mais com a minha parte da cidade, ficou fácil traçar uma rota para seguir em busca de uma vida mais saudável e, em algumas ocasiões, um mal humor menos saturado. Porque além de um hábito e de uma fonte quase inesgotável de metáforas sobre “seguir adiante”, “correr atrás dos objetivos” ou “dar valor ao caminho em vês da velocidade”, correr também me permite desfrutar de um precioso conceito psicanalítico: a sublimação.

Confesso que não sou o maior fã da psicanálise, mas meu passado recém graduado na ciência do comportamento humano não me deixa esquecer que existem mais teorias sobre o homem entre o céu e a terra do que só a minha abordagem do coração – a analítica-comportamental – pode compreender. Para quem não é da área, não se considere inferior - porque, vez por outras, eu gostaria de ser só um cara normal, sentado em um bar, indiferente à má fé alheia. Mas não. É como um sensor de presença que acende automaticamente ao calor da neurose de alguém. E só até aqui eu já fui capaz de jogar a análise do comportamento, a psicanálise e o existencialismo em um ventilador literário, só para ser pego pela bagunça que surgiu: muito prazer, antes de qualquer coisa, mas pode me chamar de Igor.

Enfim, sobre a sublimação: reza a lenda de Freud que o ato de sublimar é primeiramente inconsciente, e consiste na reutilização de energia que antes estava sendo reservada em um determinado fim, para ser aplicada em outro considerado mais “produtivo”. É como ser capaz de perceber o lado bom da raiva, ou enxergar o copo meio cheio em vês de meio vazio – apesar de que, cá entre nós, não existe um lado bom da raiva quando se está diante de um copo meio vazio. E cá estou eu me enrolando na correria da minha prosa de novo em vês de me preocupar com coisas mais importantes: o que neste caso seria fazer um pingo de sentido.

Voltando à corrida, que só pela sua descrição já demonstra todas as curvas que aprendi a fazer pela cidade, este pequeno vislumbre de “vida movendo adiante” que consegui restabelecer à minha nova rotina tem me feito mais bem do que eu esperava. Independente do calor, da sublimação e da distância, antes de qualquer meta ser atingida é preciso reconhecer bem o terreno a ser explorado daqui em diante. É preciso criar um relacionamento com as ruas, atribuir algum significado às avenidas e espalhar lembranças pelas passarelas que cruzo em minha sonda diária. Antes de qualquer sucesso ser atingido em Foz do Iguaçu, é preciso primeiramente fazer parte dela. E isso só será possível depois que eu deixar de me sentir como um intruso a cada vez que passo pelo rol de entrada do meu prédio ou quando atravesso qualquer cruzamento do qual eu ainda não entendo direito o timing do semáforo.

O que quero dizer é que, bem, eu estou tentando. Estou saindo, explorando, investigando, refletindo e agora correndo pela cidade em busca dos meus objetivos. Sejam eles uma carreira bem sucedida, um novo horizonte para a minha liberdade ou – por que não? – alguns quilos de desemprego, insegurança e ansiedade a menos.

A verdade é que Foz do Iguaçu e eu ainda não temos nada sério; estamos só “ficando” um com o outro. Mas definitivamente há potencial para algo mais estável.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

A reconstrução


Duas semanas depois, eu já consigo me situar melhor pela cidade. Algumas ruas são mais familiares, as avenidas não parecem tão longas quanto eu imaginava, e o “centro” continua sendo.., bom, inexistente. Não parece existir uma avenida principal em Foz do Iguaçu; apenas um punhado de paralelas que eventualmente se interligam. Enfim, longe de mim criticar a infra-estrutura de uma cidade inteira – logo eu que sequer tenho noção das minhas próprias fundações às vezes. Especialmente quando me perco nas minhas próprias linhas paralelas de raciocínio.

Mas o que me chamou mesmo a atenção sobre a linha do horizonte em um dos centros de Foz do Iguaçu foi a quantidade de edifícios e áreas abandonadas. Obras de grandes espaços que, por motivos que ainda não cheguei a investigar, permanecem com a sua construção em aberto. Obviamente eu não pesquisei nada sobre isso porque estava ocupado demais; distraído como sempre com uma metáfora.

Ao ter me mudado recentemente de Cascavel – ou, como o próprio município foi batizado por seus saudosos embargadores, “uma metrópole em construção” – eu não pude deixar de me sentir especialmente mais acolhido por Foz do Iguaçu. Afinal de contas, pelo que eu pude perceber depois de perambular por aí, nós dois estamos em um processo também. Um processo que ainda me assusta e me impede de realmente tentar sair por aí para garantir o meu espaço no mundo e a minha marca registrada profissional: um processo de reconstrução.

Foz do Iguaçu está incompleta e eu entendo. Para falar a verdade, segundo meus estudos em Psicologia, somos todos seres incompletos em constante transformação. Deixamos planos para trás para seguir novas metas adiante. Abandonamos pessoas que já não combinam mais conosco para dar espaço a novos rostos, novas experiências. Mas na prática a vida é um pouco mais complicada do que os rascunhos que tento esboçar nas folhas em branco do Word. Ficam sempre os rastros, as pegadas, os artefatos. Reconstruções vem e vão, mas é infame pensar que um dia estaremos completos. É o caso de Foz do Iguaçu, o seu e o meu também. O que mais explicaria nossa constante vontade de crescer, de evoluir. De abranger cada vez mais conhecimento, maiores distâncias e profundas vivências. O que eu sempre dificuldade para aceitar é que realmente não há nada de errado com isso. Nem com as mudanças, nem com a saudade, e nem com os rascunhos.

Eu posso tentar de novo. É o que eu vim fazer aqui. E é o que as construções inacabadas que me cercam pelos vários centros da cidade me lembram constantemente. As obras foram interrompidas por um motivo, assim como os planos que eu havia feito para mim no começo de 2015 – o que, ironicamente, inclui a renovação da minha velha promessa de ano novo sobre nunca mais fazer planos. Sou uma planta inacabada e tenho alguns nortes para seguir, mas tudo pode mudar. E felizmente ou infelizmente, algumas construções precisam ser implodidas para darem espaço para outros grandes monumentos. Como a minha carreira, por exemplo, que está apenas começando... Mais uma vez.

Foi assim que eu passei a perceber as construções inacabadas com um olhar diferente – pelo menos, até eu pesquisar sobre as várias obras embargadas, desvios de verbas, contratos fraudulentos e empresas-fantasmas dentre várias outras formas de sabotagem que o ser humano é capaz de fazer pelos fins errados. Também foi assim que eu passei a afiar um pouco mais o meu senso crítico para que quando uma chance de entrar no ramo jornalístico surgir, eu esteja um pouco mais preparado.

Igor Costa Moresca: em obras para melhor entender-me.