Mostrando postagens com marcador cidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cidade. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

El próximo mes


Foz do Iguaçu. População: aproximadamente 263.647 habitantes conforme as estatísticas do IBGE, desde a última vez em que alguém atualizou este artigo na Wikipedia. E desde 27 de Julho de 2015, 263.647 habitantes, mais 01 Igor.
Seja bem vindo à terra das Cataratas! Boa sorte para agüentar o calor.

Já faz um mês que tudo mudou. Ou mais precisamente, faz um mês que um caminhão de mudanças trouxe a mim e os meus pertences para a beira do país, junto com a minha esperança de que tudo mudasse. Demoraram alguns dias para que cada coisa encontrasse um novo lugar, e que algum esboço de rotina fosse construída, mas definitivamente ainda levará mais algumas ondas diárias de calor até que eu possa dizer que me sinto mesmo em casa.

O começo das coisas é decepcionante e desencorajador. É como finalmente decidir começar a assistir “Game of Thrones” depois de já terem produzido cinco temporadas e dos meus amigos que já assistiram me avisarem a não me apegar a nenhum personagem porque todo mundo morre. Bom, se eu fosse levar isto mesmo a sério, a vida como um todo não é assim também?
Isto não deveria me impedir de trilhar o caminho. Mas o começo... Ah, o começo. É um saco. Também foi assim com “Breaking Bad” e “House of Cards”. E pelo jeito serializado que ando levando a minha vida – especialmente após os finais de temporada da faculdade e do meu tempo em Cascavel – provavelmente será assim também com Foz do Iguaçu. Walter White não se tornou o fodão da metanfetamina em uma temporada, nem Frank Underwood usurpou o poder de todos que estavam acima do seu cargo em Washington em 13 episódios. Foi preciso controlar a ansiedade para continuar assistindo, e mais de uma temporada para que os personagens e a história em si se consolidassem em algo mais palpável do que meros roteiros. Roteiros que, em termos de vida, podem ser traduzidos como planos. Que são só o que tenho por enquanto.

Sobre a cidade eu já conheço um pouco. Mesmo sem grandes progressos, muita coisa pode acontecer em uma temporada. E em um mês de vida real já consegui visitar marcos históricos, corri por quase toda a Avenida República Argentina (e avisei alguns quatis pelo caminho, o que pode ser considerado normal pelos Iguaçuenses mais habituados), presenciei o show de iluminação da barragem da Itaipu à noite, e expandi minha cultura gastronômica por alguns restaurantes temáticos – mas sem abrir mão de uma pizza às vezes. Me decepcionei ao ir até o Duty Free na fronteira da Argentina para comprar mashmallow e não encontrei, então segui em frente até Puerto Iguassu – porque pelo jeito que as coisas andam, é mais barato dar um pulo até o país do lado para comprar azeite e dar sorte de encontrar as últimas garrafas de Pinot Noir em um mercadinho, do que me desfazer de preciosos reais em território nacional. E o mais surpreendente de tudo: em apenas um mês eu já consegui decorar meu próprio CEP.
Ah, e clareei minhas idéias sobre o que quero fazer da minha vida, etc, etc. Fiquei empolgado mesmo em saber dizer aonde moro com todos os números possíveis, caso algum quati me ataque quando for sair pra correr e invoque algum deles sem querer. Porque estamos falando de Foz do Iguaçu, minha gente, e tudo é possível.

Minhas metas são claras:
1) Reaprender a viver em família, porque depois de seis anos de independência juvenil em Cascavel, é difícil se adaptar a regras e disciplina – ainda mais quando se mora em um condomínio;
2) Cursar a faculdade de Jornalismo (até o fim desta vez), e trilhar minha carreira profissional desde o primeiro dia – como uma professora de psicologia me ensinou em minha primeira graduação que é como faculdades devem ser encaradas, caso queira-se fazer um futuro delas;
3) Aproveitar tudo o que a terra das cataratas pode oferecer em termos de cultura e turismo – sem correr o risco de pegar insolação ou causar algum incidente internacional ao encher a cara e cruzar a fronteira de algum país próximo – o que, convenhamos, pode acontecer.

Como um todo, eu posso dizer que este primeiro mês foi produtivo. Do jeito que a primeira temporada de uma série estreante deveria ser. Criar a base para eventos futuros e semear plots para crescimento pessoal: confere. Quero fazer com que isto dê certo, mas como já escrevi em outro blog – um “amanhã” atrás – nada acontece da noite pro dia; mesmo quando se está próximo de duas zonas francas internacionais diferentes. Diante do resto da minha nova vida pela frente, algo permanece constante: vai ficar tudo bem – repetiu ele, incrédulo, até realmente acreditar.


Agora é com você, Foz do Iguaçu: prove que valerá a pena.

 

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Algo novo?


O melhor aspecto da minha vida em Foz do Iguaçu hoje também é o pior: tudo é novo. Por um lado me sinto perdido por sair pelas ruas da cidade sem saber exatamente para onde estou indo ainda. Por outro, me sinto confortável na minha confusão por ter o habeas corpus de ser “de fora” e não ter a responsabilidade inata de saber para onde estou indo. Se ao menos isto valesse no meu contexto de vida e não só na geografia, eu estaria bem mais tranqüilo. Mas também não haveria nada para escrever aqui. E no final do dia eu gosto de ter o que registrar, nem que seja só para apuração do placar entre a cidade e eu.

***

Round #1

Acordei com um bom humor inexplicável. Talvez fosse o despertar preguiçoso que por um instante deixa a minha realidade embaçada, ou talvez fosse só o cheiro de café vindo da cozinha. Independente do que fosse, foi um daqueles dias em que você acorda disposto, encorajado, inspirado a fazer da sua vida algo significativo. Era cedo na semana para qualquer sentimento de “carpe diem”, mas por passar a maioria dos meus dias em casa sem planos ou renda, a atemporalidade do desemprego toma conta do relógio biológico. Isto é, exceto pelo meu Masterchef nas noites de terça-feira. Enfim, algo me levou a abrir a janela como forma de dar uma chance para a vida me surpreender. Mas ao contrário de um céu azul e uma proposta milionária de trabalho, encontrei cinzas, chuva e um lagartixa – que, claro, pulou para dentro do meu quarto e se apossou da minha cama. Um breve assassinato depois, fechei a janela novamente e deixei qualquer sentimento de esperança do lado de fora. Não me importo tanto com o clima tropical lá fora, mas do meu ecossistema cuido eu. E o meu ventilador.

Foz do Iguaçu: 1 x Igor: 0

***

Round #2

Andando pelas ruas da cidade, me deparei com um papel grudado em um ponto de ônibus. Por um instante pensei que fosse só alguma propaganda qualquer, do tipo que compra/vende ouro ou contato de moto-táxi, até que parei pra ler com atenção (e antes que você me questione, a resposta é sim: eu ando tendo muito tempo livre):


“Marina, a Aline ta te procurando. PS: Desculpa eu te procurar assim, mas eu não sabia mais onde te encontrar. PS: Vou te esperar no mesmo lugar as 21h.”

Foram tantas perguntas que me vieram à mente, mas até agora apenas uma dúvida em particular ainda me incomoda: tudo bem a pessoa estar perdida e não saber como encontrar a Marina, até porque, quem sou eu para questionar métodos para encontrar qualquer coisa? Mas como alguém que aparentemente sabe diferenciar “mas” e “mais” me peca logo no uso da crase?
Eu não conheço nem a Marina nem a Aline, nem sei que ônibus passa naquele ponto. Mas mesmo nos meus piores momentos de desorientação, eu ainda soube me apoiar na gramática.

Foz do Iguaçu: 1 x Igor: 1

***

Round #3

Segunda feira à noite, tentando me manter fiel à proposta de que qualquer experiência nova que Foz do Iguaçu possa me proporcionar é válida, eu sacrifiquei um princípio de uma das minhas maiores crenças – a gastronomia – e concordei em sair para jantar em um restaurante chinês, já que a maioria dos outros restaurantes temáticos estavam fechados. Não é nenhum preconceito contra a cultura oriental, mas massa e legumes para mim sempre pertenceram à classes cuidadosamente separadas e não unidos pelo curry em um yakisoba. Mas eu admito que não estava ruim, assim como os rolinhos primavera da entrada também me surpreenderam felizmente com seu recheio de legumes. Só que a surpresa mesmo veio na saída do restaurante, quando abri meu biscoito da sorte:


“Na vida você deve fazer o que gosta, senão, acaba trabalhando.”

Entre paralelas que não se encontram em centro algum e o clima exponencialmente vulcânico, Foz do Iguaçu parece estar me mostrando aos poucos que nada aqui é como qualquer experiência que eu já tive antes, mas que isto não significa que poderá valer a pena caso eu continue saindo por aí e permitindo que a cidade me surpreenda. No mínimo ela já me provou que vale a pena só pela ironia na minha sorte do biscoito. Às vezes um desvio incerto pode levar ao caminho que você procurava desde o começo.

Placar final: empate técnico (por enquanto).