domingo, 29 de maio de 2016

A pirâmide invertida


Com quase um período concluído do curso de Jornalismo, alguns conceitos deixam de ser meras teorias e passam a fazer parte do seu dia a dia. Em sala você aprende que nem toda informação é digna de se tornar notícia. Enquanto isso, na vida, você descobre que alguns conceitos englobam muito mais do que a resposta em uma questão dissertativa na prova bimestral.

Uma notícia é construída a partir de uma informação cujo interesse que desperte seja grande e proporcional à importância que possui dentro de uma determinada comunidade. O que mais poderia depender da combinação entre interesse e importância? (Valor: 1,0 ponto)

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Há quem diga que o verdadeiro aprendizado da faculdade está localizado fora da sala de aula, nas experiências pessoais que você adquire ao longo dos semestres. Como a primeira vez em que você mata aula para ir ao bar do outro lado da rua, e começa a reparar nos pequenos macetes para disfarçar o cheiro de cigarro e o bafo de cerveja dos seus pais. Ou a primeira vez em que você fica com alguém e descobre que ele ou ela estudam não só no mesmo bloco que você, mas na sala ao lado, e por mais que você não queira repetir a dose, estará fadado a reencontrar a pessoa nos corredores ou nas escadarias pelo restante do ano letivo.

Não nego o valor que existe em desbravar o mundo ao redor do campus da universidade, mas há definitivamente uma vantagem para aqueles que resistirem ao instinto de dormir durante as aulas e perceberem o quão aplicável toda aquela teoria que você passou quarenta minutos copiando do quadro pode ser. Como foi o caso da pirâmide invertida.

Notícias são escritas através de um modelo pós-moderno chamado de “pirâmide invertida”: as informações consideradas como as mais relevantes – respondendo a questões básicas (o que/como/quando/onde/com quem/por que/para quê isto aconteceu?) – que compõe o “lead” da matéria deverão sempre vir em primeiro lugar no texto, seguidas por outros fatos mais supérfluos. Enquanto o professor despreocupadamente ditava tudo isto mais rápido do que eu conseguia escrever utilizando uma letra decente, eu pensei no quanto este modelo não só revolucionou o jornalismo, mas na sua empregabilidade em outros contextos. Mas estaria mentindo se dissesse que cheguei mesmo a algum plural em meus pensamentos. O foco foi único, e o mesmo de sempre: relacionamentos.

Quando você conhece alguém, digamos, através de meios mais convencionais – o amigo do amigo, a garota no bar, ou até mesmo um match do Tinder – as perguntas básicas são exploradas antes de qualquer contato físico ocorrer. Você procura se informar sobre aquela pessoa antes e, a medida em que as respostas são diretamente proporcionais ao interesse, decide então entrar em modo plantão e parte para o mais importante: um beijo.

Agora, quando você conhece alguém, digamos, por vias indiretas – bêbado em uma cervejada, animada em uma balada ou (convenhamos) um primeiro encontro de Tinder – às vezes o beijo acontece sem que as perguntas básicas sejam feitas ou, digamos, sem que você sequer se lembre direito do nome da pessoa. Acontece. E seja lá qual tenha sido a abordagem escolhida, esta dará o tom do relacionamento que irá segui-la.

Nem sempre as matérias seguem a regra da pirâmide invertida. Assim como nem toda informação se torna notícia, nem todo encontro, beijo ou conversa se torna um relacionamento sério. Mas talvez esta técnica, criada durante a Primeira Guerra Mundial com o propósito de informar a população acerca do que estava acontecendo nos campos de batalha, seja igualmente relevante em se tratando das pessoas com quem nos envolvemos. Se eu sei de antemão quem é você, como e quando chegou até aqui e o que procura, talvez nos decepcionaríamos menos – em vez dos casos em que nos precipitamos e deixamos um beijo acontecer antes de investigarmos qual é a história daquela outra boca. E se eu gostar de você, e você não estiver interessada em me ver de novo? Talvez algumas guerras mais simbólicas fossem evitadas: devo mandar ou não uma mensagem? Convidá-la ou não para sair? Admitir ou não que sinto a sua falta?

O “lead” foi desenvolvido por um motivo – talvez o mesmo pelo qual devemos escolher bem as pessoas que deixamos entrar nas nossas vidas. Se funciona para o jornalismo, que é o meio aonde eu decidi construir a minha vida profissional, certamente deverá funcionar para a minha vida pessoal.

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Para você que não soube responder a pergunta no início do post, duas observações:
1) Estude para as matérias que você provavelmente ficará em dependência.

2) Boa sorte na vida.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Apartamento 101


Anos atrás eu descobri a sutil diferença que existe entre uma casa e um lar. Uma casa pode ter cômodos espaçosos ou apertados, janelas que controlam a entrada do sol, papéis de parede ou cores que cubram a opacidade dos rebocos e tijolos. Enfim, pode ser feita de várias coisas, mas nunca realmente passará de uma estrutura. O que irá estruturar, por outro lado, é o que nos leva a descobrir o que torna uma casa qualquer em um lar singular, único. Especial em vez de meramente espacial. Acolhedor ao contrário de apenas acessível. Mais seguro do que limitadamente fechado sob um telhado e trancado por uma porta. Para ser importante é preciso ser significativo. E para alcançar um significado é preciso vida. Lares possuem vida. Casas, apenas moradores.

Esta é literalmente a centésima vez que me coloco a escrever sobre isto. A história que venho construindo a quase um ano em Foz do Iguaçu, depois de deixar uma vida – e seu respectivo lar – para trás, em nome de um sonho que perdi entre mudanças de endereço e ruínas de planos desfeitos. E passei a fazer isso porque deu certo uma vez; reler sobre os dramas dos primeiros dias, o nervosismo das primeiras vezes, e a ansiedade dos primeiros contatos fazia com que eu me sentisse menos deslocado em um apartamento que ainda não parecia ser nada meu. Parecia ser só um conjunto de quartos em que não havia nada reconhecível dentro deles, em um prédio cujos vizinhos eu ainda não cumprimentara direito, em uma cidade estranha e distante de tudo que eu considerava seguro.

Se você, assim como eu, acompanha esta história desde o primeiro capítulo, então já está cansado de saber como tudo começou. Talvez até mesmo você, que só surgiu depois de eu já ser capaz de reunir algumas coletâneas de amor, saudade e esperança, também esteja sentindo um pouco do tédio que eu passei a sentir ultimamente. Porque tudo que poderia ter sido feito pela primeira vez parece já ter sido vivido, escrito e traduzido em músicas para acompanhar os diários da viagem. Mas este é um momento especial, embora não tenha o mesmo charme e encanto de algo novo. Nem toda a originalidade reside em experiências frescas. Alguns marcos só são possíveis mesmo alguns capítulos adiante no livro, quando o personagem atinge uma retórica sobre si mesmo que era incapaz de perceber enquanto estava desbravando um novo mundo.
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Depois de escrever noventa e nove vezes sobre o quanto o começo é a pior parte de qualquer coisa, eu finalmente descobri o porquê. Eu me sentia tão perdido quando cheguei em Foz do Iguaçu ao ponto do desconforto passar para raiva – quase ecoando os cinco estágios de luto por uma perda. Mas não era uma perda, porque fui eu quem escolhi mudar. Fui eu quem escolhi, enfim, correr atrás da vida que eu gostaria de ter em vez de me conformar com apenas o que poderia ser. E então eu me dei conta de uma verdade universal: as pessoas mudam quando querem, as circunstancias não. E a minha negação, raiva, barganha e depressão estavam diretamente ligados à perdição que me ocasionaram, e o luto pelo controle que não era capaz de ter enquanto não conhecesse esta cidade bem o bastante.

Mas... Quando, ou melhor, aonde foi exatamente que eu estive sob controle de alguma coisa?

Controlamos a nossa vida tão ilusoriamente como pensamos que fazemos com as coisas e as pessoas nela. E o meu pavor por depender de algo ou de alguém sempre me motivou a fazer o que precisasse para manter a minha auto-suficiência em cheque; algo que nunca deu, nem nunca dará certo pra ninguém. Por isso pedir ajuda sempre foi sinônimo de desistência para mim, quando na verdade não há sequer um dicionário que a traduza assim. Mas durante os anos que morei e vivi sozinho, pedir ajuda literalmente significava ter de ir ao alcance de algo que estava fora da minha realidade – o que fazia parecer que o meu mundo por si só não era o bastante para solucionar um problema ou abafar um choro de saudade. Eu vivi sozinho por tempo o suficiente para me tornar hábil em dificuldades técnicas, ao custo de que isto significava para mim que não era necessária a participação de outra pessoa. E pedir ajuda tornou-se tão infame quanto admitir derrota para mim mesmo.

A verdade é que eu nunca realmente estive sob controle de nada, e é pela centésima vez que chego à realização de que sempre me senti sozinho. Só que desta vez é diferente. E no ápice das primeiras vezes que já vivi nesta cidade, esta é aquela em que eu aceito que viver sozinho é impossível. Seja aqui ou em qualquer lugar em que eu ainda vá parar.


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Já faz tempo que os meus dias no apartamento 316 terminaram, mas sentir saudade é diferente de entender que ela sempre fará parte de mim. Felizmente isto é algo que existe à parte de tudo o que eu criei para mim aqui, no apartamento 101: refeições com a família sentada à mesa, finais de semana com amigos antigos que visitam, cafés da tarde com amigos novos que até o porteiro já reconhece, maratonas de séries, brindes com vinho argentino e, agora, cem capítulos de uma história que ainda parece estar só começando. O que separa casas de lares, e viver ao contrário de apenas morar neles, é o mesmo que encerra a transição entre lutos e recomeços: aceitar que as coisas podem melhorar com as mudanças.

Talvez eu também já tenha escrito isso cem vezes, mas eu me sinto melhor agora.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

A Igor-dice

Para a entrada, uma porção de contexto.

Dizem que a necessidade é a mãe de todas as invenções, e se este for mesmo o caso, o tédio existencial só pode ser o pai. Porque depois de anos morando sozinho a base de misto quente e lasanhas congeladas, nenhum impulso de sobrevivência sequer me motivou de tentar produzir algo utilizando o fogão que não fosse pipoca. Isto ainda quando estivesse me sentindo mais aventureiro do que o habitual, pois além de ser algo relativamente simples, ainda conseguia queimar a pipoca e o fundo da panela.

Enfim, cozinhar nunca foi o meu forte. Nunca nem foi o meu fraco – era apenas algo que eu subtraí por completo da minha vida, junto a outras necessidades que sempre pareceram mais supérfluas para mim do que o habitual para outras pessoas. Assim como dirigir, economizar ou relacionamentos bem resolvidos, não era algo que parecia chegar ao nível de commodity, até mesmo quando fazia falta; fosse para ajudar a ir de um lugar para outro, para comprar algo fora do orçamento cotidiano, ou para ter uma companhia que não me fizesse questionar toda a minha existência neste mundo.

Precisar de algo, ao contrário do que dizem ser eficaz no processo de resolução de problemas, nunca me levou a tal resultado. Pelo contrário; precisar de algo ou de alguém me causa mais pavor do que inspiração. A pressão até ajuda a desenvolver certos fluxos criativos em mim, mas definitivamente não consegue ser tão eficaz quanto o ócio. É na inércia, na rotina e no desespero silencioso em que eu realmente prospero. E talvez exista o argumento de que isto nada mais seja do que a necessidade de sair do ócio, mas a física é clara: um corpo em repouso tende a continuar em repouso. E eu não deixo o meu repouso porque preciso, especialmente em dias invernais como estes. No fim até os meus próprios instintos são feitos reféns do meu existencialismo recorrente. Só me submeterei às minhas vontades ditas como inerentes quando eu mesmo decidir isto.

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Prato principal: psicologia à moda da casa.

A psicanálise concebe o processo de sublimação como parte do desenvolvimento humano cuja ocorrência habitual se dá durante o período da adolescência; a produção de hormônios em grande escala além de amadurecer o corpo, também causa com que este procure meios de gastar toda a energia extra que produz. Como o amadurecimento sexual é mais gradual do que o jovem gostaria, este acaba por praticar esportes ou a se concentrar mais nos estudos para aproveitar seu superávit de stamina. Ou ele só começa a se masturbar com mais freqüência mesmo. E quando finalmente chegam à idade adulta, as pessoas passam a sublimar sua energia acumulada de outras maneiras, invariavelmente exageradas. Eis os workaholics, os ansiosos, os alcoolotras, as pessoas insuportavelmente otimistas que acordam cantando, e os que se masturbam frequentemente até hoje. Isto quando não encontram outra pessoa tão incansável quanto eles para trocar a partida de cinco contra um por uma a dois.

Foi o que aconteceu com a minha fome. Além da necessidade diária de me alimentar, a fome por algo novo me motivou a buscar um novo extremo em algo familiar – talvez para harmonizar com os outros modos extremos sob os quais eu levo a minha vida. E assim começaram a surgir anotações de receitas no meu quadro de recados, ingredientes que nunca antes compuseram minhas listas de compras no mercado, e fotos de comida no lugar de selfies em meu Instagram.

O que começou com uma vontade de fazer minha própria pizza certa noite evoluiu para uma tentativa de fazer arroz. Que logo evoluiu para um strogonoff. Que abriu brecha para um macarrão. Que, por sua vez inspirou um conchiglione. Seguido por panquecas, lasanhas... Até que passei a visitar setores que sempre ignorei nos mercados para procurar por produtos estrangeiros para mim: orégano, azeite, salsinha, cebolinha, páprica, molho inglês... E então passei a testar técnicas para temperar, selar e reduzir ingredientes na panela, depois que só misturá-los e cozinhá-los perdeu a graça. Logo passei para a confeitaria: bolos simples a princípio, seguido por bolos com cobertura, bolos com cobertura e recheio... Cozinhar não parecia mais uma arte tão indomável. Aliás, já parecia normal, costumeiro, rotina...

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Sobremesa: um mousse de ironia.

Dia desses, enquanto experimentava uma receita de ganache para cobrir um bolo de chocolate que havia feito, eu percebi que levara meu novo passatempo a fronteiras que nunca pensei que seria capaz de atravessar. E ainda havia muito a ser descoberto, testado e experimentado, mas aquele gosto de novidade não parecia mais estar disposto na cozinha. Talvez eu o pesei demais em algum molho que fiz, ou talvez eu simplesmente o perdi de vez. Seja lá o que fosse, parecia que eu havia voltado exatamente aonde comecei. Ao ingrediente-chave das minhas aventuras culinárias: uma boa dose de tédio que, como era de se esperar, estava muito sem sal.

Logo eu encontrarei outra maneira de sublimar o meu vazio interior. Enquanto isso, vou enchê-lo de bolo. O que não me mata de tédio, engorda.

domingo, 15 de maio de 2016

A cidade fantasma


Se eu considerar o quanto a maior parte de mim é feita na verdade de contradições e não de ironia e comentários sarcásticos (ao contrário do voto popular), isto não deveria surpreender ninguém – muito menos a mim mesmo – enquanto andava pelas ruas do centro de Foz de Iguaçu durante uma noite qualquer. Incomodado com um pensamento que havia tido algumas semanas antes, em outro dia qualquer, ao andar  por outra rua nos mesmos arredores. Cogitei a hipótese de que talvez a solução para o meu problema estivesse na iniciativa em desbravar novos territórios da terra das Cataratas que ainda não demarcados por mim e as minhas contradições. Mas então me lembrei de que a cidade, embora cheia de marcos históricos e rotas estratégicas de fuga para dois países vizinhos, não é tão grande assim. Embora a cidade e eu ainda tenhamos algo em comum nisto: nossos dilemas envolvem três fronteiras diferentes.

A contradição em questão está no seguinte: o que mais me assustava quando cheguei à Foz do Iguaçu era exatamente a mesma coisa que me animava e que me motivou a me mudar para cá: o novo. O potencial de um recomeço. O alívio de um histórico limpo. Era assustador porque não havia nada familiar no que me apoiar durante os primeiros dias, e é por isto que me desafiei a ser sincero em meus devaneios que publico aqui. Para que fossem relidos em noites como esta, quando eu me sentisse perdido ou sozinho, e que eu me lembrasse de que o começo é sempre a pior parte. Dias melhores viriam, e de fato vieram. A contradição está na contrapartida.

Enquanto andava por uma rua em particular da cidade, me lembrei da primeira vez que trilhei aquele caminho. Ainda não sabia aonde ele me levaria, mas queria descobrir. Queria conhecer aquela cidade e suas curvas, porque não via a hora de que tudo deixasse de ser novo e assustador para se tornar, enfim, familiar. E então passei por um ponto de ônibus, que serviu de cenário para um primeiro beijo de um quarto encontro com uma garota com quem eu esperava ter um novo relacionamento. E não tão distante ali, passei por um bar onde havia tido outro encontro com outra garota, com quem também compartilhei beijos e outras expectativas. Ao chegar à avenida principal, próxima da minha casa, me lembrei do fim de outro encontro, e de que foi em um momento daquele percurso em que outra garota tomou a minha mão na dela, insinuando que havia gostado da companhia que encontrou e, quem sabe, eu entendesse que ela queria que eu continuasse por perto.

Pois eu não entendi. E aquela foi a última vez que eu a vi. E as outras eventualmente também tomaram outros rumos para si. Talvez porque encontraram companhias mais atraentes. Ou talvez porque andávamos em ritmos diferentes, e com o passar do tempo eu não senti mais vontade de tentar acompanhá-las. Ou não permiti que elas me acompanhassem. Fosse o que fosse, aquele foi um caminho que percorri sozinho naquela noite. Assim como naquele outro dia em que pensei sobre isto, e muitos outros desde então. E naquela noite eu percebi que entre encontros e desencontros, Foz do Iguaçu já não é mais novidade para mim. Mas passou a me assustar com o quão terrivelmente familiar esta se tornou, em comparação com meus antigos lares em outras cidades, e os fantasmas que pensei ter deixado para trás.

A cidade já possuía uma história minha. Currículos que distribuí por aí. Encontros que tive. Caminhos que procurei percorrer simplesmente para aprender aonde levam. Tudo reconhecido, desbravado, e manchado de alguma maneira. Assombrado por sombras daqueles primeiros dias que não voltam mais, e primeiros momentos que já não despertam mais tanto interesse. Um padrão bastante familiar com o modo que tratei minha filial – Cascavel – e minha matriz – Londrina. E o que eu fiz quando estas pareciam não ter mais nada de novo para me apresentar? A mesma coisa que faço quando o suspense dos encontros se dissipa no ar do primeiro beijo, primeiro toque, primeiro apelido carinhoso... Eu faço as malas e sigo em frente.

Talvez Foz do Iguaçu não esteja tão assombrada quanto eu penso. Talvez a verdadeira maldição esteja em mim. A maldição de perder o interesse nas coisas e nas pessoas depois que a novidade se perde na intimidade. E só existe uma maneira de exorcizar esta sensação: eu preciso reaprender a deixar que alguém me traga de volta à vida, antes que eu me torne cada vez mais monótono, insosso e chato. Recluso de uma cidade que já não parece me cativar tanto quanto aqueles primeiros dias, que eu mesmo costumava odiar e rezar para que passassem logo. A maldição que reside em mim é a contradição.

Meus fantasmas são produtos de relacionamentos imaginários. De uma vida de andar de mãos dadas no shopping que poderia ter sido e não foi. A solução? Amor real. Vida de verdade.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

O sonho impossível


O mundo não é mais um lugar romântico. Algumas pessoas, no entanto, ainda são, e a elas cabe uma promessa: não deixe o mundo vencer.

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Depois de ler incontáveis romances, um homem aparentemente comum decide trazer de volta o cavalheirismo e reviver o sonho de um mundo justo e correto, duelando contra inimigos tiranos e salvando todos aqueles que se encontrem em apuros, acreditando que sua bravura será reconhecida e recompensada por aquela que ele considera como a mulher da sua vida. Esta é a trama do épico “Dom Quixote”. E o que me assusta não é conhecê-la tão vividamente sem sequer ter lido o livro, mas já ter passado alguns anos tentando recriá-la na minha própria vida.

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A adolescência é uma selva. Uma luta por sobrevivência constante – ou pelo menos é assim que a gente se sente, entre mãos tremulas durante apresentações de trabalhos, potes de cremes para espinha que parecem tão funcionar magicamente da noite para o dia como nós precisávamos que funcionassem, e fantasias remotas com a garota mais linda da sala com quem nós absolutamente nunca realmente teríamos uma chance – então pra quê tentar? E é nesse contexto em que traços marcantes da nossa futura personalidade adulta começam a ser desenhados. Traços definitivos que ecoaram pelo resto da nossa eventual maturidade, sejam eles originados por traumas do que fizemos, ou por arrependimentos do que poderíamos ter feito. Tanto um quanto o outro podem ser justificados pela nossa própria natureza, invariavelmente despreparada para responder às exigências do mundo real na maioria das vezes.

O problema é o seguinte: mais cedo ou mais tarde, todos nós crescemos. O próprio tempo nos empurra pra frente a cada dia. Os tremores se acalmam e as espinhas secam, mas os sonhos... Bom. Alguns sonhos permanecem. E ao contrário das roupas e calçados, nem sempre é evidente quando alguns sonhos já não nos servem mais. O que me leva a admitir algo que há anos vem sendo esquivado ou desconversado por mim mesmo, entre posts sobre louça suja e as lamúrias da existência.

Meu nome é Igor e eu ainda sonho com a mulher da minha vida.

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Eu me lembro de ter 14 anos e passar dias e noites escrevendo sobre amor. Um amor, ainda que na sua forma bruta e contraditoriamente mais pura, que eu considerava existir na forma da Dulcinéia – a garota mais linda da primeira série do colegial. E por muito tempo eu tentava conquistar a Dulcinéia com as minhas façanhas literárias, declarando sempre que era ela a minha musa inspiradora, e que não haveriam obstáculos que não poderiam ser conquistados caso ela me concedesse uma chance de provar que eu poderia ser o seu cavaleiro. Vale ressaltar aqui também que não há muita diferença entre o colegial e a Idade Média – em escala emocional, é claro.

Mas independente dos meus apelos e dos gigantes que eu estava disposto a enfrentar para ficar com ela – desde a minha mãe, que sempre achou que “aquela menina não é boa o bastante para você”, os meus amigos que tentavam me lembrar de que ela tinha outros pretendentes bem mais bravos e belos, até as amigas dela que tentavam me consolar ao confessar as palavras que Dulcinéia havia repassado a elas: “Ela não vê você de uma maneira romântica...

Era inconsolável e irremediável o quanto eu não queria desistir. Ou o quanto eu sentia que não podia desistir. O que me levava a escrever inúmeras cartas de amor, e a traçar a épica jornada que parecia haver entre a minha casa e a dela, para que eu pudesse entregar tal mensagem diretamente ao seu castelo, e rezar para que os meus apelos fossem aceitos. Para que a sua misericórdia fosse tão majestosa quanto a sua beleza. Um apelo que, por fim, nunca foi aceito.

Anos depois, eu me mudei para um novo condado e aos poucos deixei de receber notícias sobre Dulcinéia. Meu amor por ela, no entanto, parecia só aumentar com a distância. A saudade é o combustível mais potente que existe para inflamar chamas que, vez por outra, causariam menos estragos se fossem apagadas de uma vez.

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Tudo isso parecia muito épico e grandioso para mim, dez anos atrás. A verdade é que durante todo o colegial eu fui apaixonado por uma garota da minha sala, e que partiu meu coração ao dizer que só me via como um amigo. Hoje, até onde eu sei, ela está casada, tem um filho, e está bem feliz ainda na mesma cidade em que nos conhecemos. Seu nome não era Dulcinéia; este é o nome que Miguel de Cervantes usa em sua obra, “Dom Quixote”, para construir a imagem do amor inatingível que motiva o seu protagonista a uma busca incansável por ela através de duelos contra o que ele considera ser gigantes inimigos, mas que não passavam de alucinações criadas de imagens distorcidas de moinhos de vento.

E no final da história que serviu de base para os anos formativos da minha imaturidade e minha literatura, também não poderia haver uma metáfora melhor para ilustrar o que eu preciso fazer agora. Não existem amores inatingíveis ou gigantes que nos impedem de alcançá-las; apenas pessoas ordinárias e moinhos de vento. Assim como dizia o nome da canção que Dom Quixote dedicava à sua Dulcinéia, é preciso finalmente admitir o inevitável: mais cedo ou mais tarde, todos nós precisamos crescer – até mesmo emocionalmente. E alguns sonhos, infelizmente, são mesmo impossíveis.

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O mundo não é mais um lugar romântico. Algumas pessoas, no entanto, aprendem a se adaptar a ele. E talvez na saudade de um sonho, ainda perdure uma promessa.