quarta-feira, 13 de abril de 2016

A infância desbloqueada


Eu fui uma criança de sorte. Por um lado isso é bom, mas por outro significa que tenho muitos anos de constrangimentos e decepções a serem sentidas, amarguradas e epicamente superadas ainda por vir. Tudo começou porque, ironicamente, eu tinha que fazer uma coisa chata de adultos: ir ao banco buscar o cartão de uma conta-corrente que precisei fazer para receber o salário do estágio e gastá-lo com... Bom; criancices. O que deixa tudo ainda mais irônico. Eu já disse que a ironia me persegue? Tome cuidado quando estiver comigo, pois estará sujeito a alguma situação digna de ser recontada aos risos em uma mesa de bar, ao mesmo tempo em que estiver bebendo para tentar amortecer a experiência.

Mas está quase tudo bem comigo. Sempre está quase tudo bem comigo, na verdade. E dessa vez o “quase” envolveu meus problemas típicos com portas giratórias de banco, alienação acerca de quais dos meus pertences travam o detector de metais (“Senhor, tenho algumas moedas no bolso que, por acaso, está furado e fez com que as moedas se perdessem dentro da minha calça. Juro que é só isso que está travando a porta. Não vou assaltar o banco. Estou em horário de almoço; não tenho tempo pra isso.”) e a espera infame pela chamada da minha senha, enquanto outras pessoas que chegaram depois de mim misteriosamente conseguiam ser atendidas primeiro. Vocês estão dando pro dono do banco ou coisa parecida? Eu só vim buscar um cartão, caramba!

Quando me chamaram o atendente me deixou em suspense ao não achar o bendito cartão, até que a outra moça que fica do lado de fora da parte dos atendimentos o encontrou. Isto me lembra: apesar dos pesares, eu preciso ir mais ao banco. O crachá daquela atendente bonitinha estava virado e não vi o nome dela; terei que voltar para descobri-lo. Isso só pode ser considerada uma atitude de stalker se eu não tiver nenhuma interação com ela antes de pesquisar quinze redes sociais diferentes à procura dela. Eu nem escolhi o nome dos nossos filhos ainda, então relaxem... Enfim, estou me perdendo no que queria dizer. Coisa de criança também; ficar puxando um assunto atrás do outro sem concluir nenhum.

Depois que moça achou o meu cartão, o outro cara me disse que era só desbloqueá-lo em um dos caixas eletrônicos da agência, o que teria sido fácil, simples e normal demais para incentivar alguma filosofia da minha parte acerca do que eu estou fazendo com a minha vida. O problema foi que eu não lembrava a minha senha, e pelo visto depois que você insiste em querer saber mesmo assim três vezes seguidas, o cartão bloqueia. Voltando ao guichê para pegar outra senha para atendimento, eu já estava me sentindo incapaz o bastante, visivelmente abatido com mais uma demonstração de fracasso da minha parte sobre as coisas da era digital, o que me deixou particularmente sensível diante do diálogo que tive em seguida quando outra atendente me chamou.

- Como posso ajudá-lo?
- Então, eu acabei de pegar um cartão novo da minha conta, mas quando eu fui tentar desbloqueá-lo ali fora...
- Uhum, uhum, você bloqueou ele, é? – disse ela com um tom indiscutivelmente infantilóide, como se estivesse falando com uma criança que pegou o cartão de dentro da bolsa da mãe sem ela ver e fez arte com ele.
- É.. Sabe, eu achei que lembrava a senha, mas pelo visto...
- Uhum, uhum, tudo bem, tudo bem. Isto acontece, não é mesmo? Me dê o seu cartão e vamos resolver isso já já, ok? – disse ela novamente com aquele tom acusatório e acolhedor ao mesmo tempo, que questionava minha maturidade, mas ao mesmo tempo a aceitava, visto que eu era só uma criança e não sabia mexer com cartões.
- Muito bem, agora vamos cadastrar uma senha nova, ok? – disse ela, fazendo uma pausa em sua fala, sentindo que eu precisava de um minuto para entender o que ela tinha dito antes de completar as instruções – Só que dessa você precisa se lembrar dela, viu?

Feito isso, eu já estava preparado para minha nova caminhada da vergonha de volta ao caixa eletrônico, quando ela completou:

- Se você tiver mais algum problema, pode voltar a falar comigo, viu? Nem precisa passar pela moça da recepção pra pegar senha. Só volte para a minha mesa e daremos um jeito, ok? – disse ela em seu último sermão, antes de me liberar para voltar a brincar de gente grande.

Depois de conseguir decifrar o menu criptografado de opções em busca da minha autonomia financeira, eu finalmente consegui desbloquear o cartão. A ironia final para coroar a situação foi descobrir que tudo aquilo tinha sido relativamente à toa: não havia caído dinheiro na conta ainda. Quando eu disse que existe um lado ruim em ter sido uma criança de sorte, me refiro a todos aqueles anos que passei em casa assistindo desenhos enquanto outras crianças da minha idade estavam brincando lá fora, raspando joelhos quando tentavam escalar um muro ou quebrando braços quando tentavam aprender a andar de bicicleta. Eu não fiz nada disso, mas ainda me lembro de ter assistido toda a série de filmes produzida pela época da renascença da Disney em meu quarto confortável e fechado.

Eu demorei muito para realmente sentir o mundo ao meu redor. Levei anos para descobrir a vida e entender que se você não lembrar imediatamente da senha do seu cartão de crédito, é melhor tirar a dúvida enquanto está sendo atendido do que se sentir diminuído emocionalmente por um caixa eletrônico. Sim, eu sei que estou exagerando; o que tem a ver não ralar o joelho quando era criança com não saber como um cartão de crédito novo funciona? Simples. Crianças que começaram a experimentar o mundo cedo, logo aprenderam aos poucos como ele funciona e como devem se portar diante de adversidades. Só não sei dizer se isso também ajuda futuramente a memorizar uma senha de letras e números aleatórios de seis dígitos, mas sem dúvida não deve atrapalhar.

Naquele dia eu senti que não foi só o cartão que quase ficou bloqueado. Minha infância ficou bloqueada, limitada a canções originais de “Aladim” ou “Hércules” e outros grandes sucessos de quem foi feliz por ser uma criança com videocassete em casa durante os anos 90, mas que teve o desenvolvimento de outras habilidades sacrificado por isso. Tudo bem que também aprendi muito com os desenhos; é bem provável que minha primeira experiência com a morte tenha sido quando o Mufasa morreu em “O Rei Leão”, deixando Simba sofrendo por anos devido ao um luto mal- elaborado. O que, ironicamente, veio a ser o tema do meu TCC em Psicologia há alguns anos. Isso me faz pensar que nem tudo está perdido. Que apesar de ainda ter dificuldades em conviver com adultos, e até mesmo a me comportar como um, ainda há tempo de aprender. Há, inclusive, atendentes bonitinhas de banco que estão lá só para ajudar as pessoas que tem problemas com caixas eletrônicos.

Enquanto isso, meu lado criança permanece intacto e ativo até hoje, criando situações irônicas capazes de me fazer rir da vida mesmo quando isso não parece ser possível, e me desafiando a aprender cada vez mais a como lidar com as coisas da maneira mais emocionalmente madura possível. Isto claro, desde que eu acertei em desbloquear este lado em prol do que poderia ser inspirado por ele. Seja em relacionamentos, seja no âmbito profissional, ou então apenas para me animar quando eu me olhar no espelho daqui alguns anos e ser refletido com cabelos brancos, óculos de fundo-de-garrafa e aparelhos de surdez. Porque eu fui uma criança que não só sentava perto demais da televisão, como também deixava o volume muito alto.

Algumas pessoas parecem sentir quando é a hora exata de deixar de ser criança, sem considerar que talvez seja possível manter um equilíbrio entre a infância que você teve e a maturidade que você quer alcançar. E então existem outras pessoas como eu, que tem brinquedos expostos na estante da sala e passam o Sábado de manhã assistindo a filmes da Disney no YouTube – com a minha própria internet, no meu próprio apartamento, usando a minha própria xícara com o café que eu mesmo fiz. Da última vez que folheei meus álbuns de fotos antigas, pude perceber pelas minhas caretas que eu fui uma criança irônica desde sempre. Se minha vida está indo bem, meu coração está em paz e minhas contas estão sendo pagas em dia, por que isto deveria mudar agora?

Sou um adulto cheio de infantilidades, mas ao menos são criancices funcionais.

*Escrito em 01/02/2014.

terça-feira, 12 de abril de 2016

O pseudo-carpe diem massificado

*Escrito em 13/02/2014.

Eu queria ser uma boa pessoa. Talvez; nem sempre. Mais vezes do que eu deveria, confesso que prefiro praticar pequenos atos específicos de maldade em vês de grandes ações aleatórias de bondade. Como cutucar o ombro de alguém e aparecer do outro lado, ou fazer ruídos incompreensíveis na forma de quem está tentando dizer alguma coisa, só para o coleguinha perguntar "o que?" e ficar com cara de besta quando eu mostrar a língua pra ele. Não, não é algo emocionalmente maduro de se fazer. A verdade é que entre abandonar rancores e tentar ignorar meus instintos imediatos de lógica e de fazer coisas que tenham sentido, eu andei praticando a arte milenar de reconhecer o que uma pessoa emocionalmente madura faria em determinada situação – só para fazer o contrário. Pode não ser muito saudável, e sem dúvidas não deixarei um mundo melhor para os meus netos através disso, mas por ora tem sido deveras libertador. Tudo isso é bobagem, claro. São só palavras digitadas ociosamente por um jovem homem existencialmente entediado em seu blog homônimo de credibilidade questionável. O mesmo jovem homem que já passou algumas manhãs de Sábado revendo as partes musicais dos filmes da Disney no modo karaokê para conseguir cantar junto. Normal.

A questão é que quando a minha maldade, minha imaturidade e meu tédio conseguem se aquietar, eu tenho momentos de redenção em que eu sinceramente desejo ser uma pessoa melhor um dia. É provável que nenhum leitor ou amigo meu já tenha visto isso, porque são momentos tão raros quanto um cometa que passa de raspão na terra, só para dar uma olhadinha no sul da Califórnia, e por pouco não explode o mundo. Quando isso acontece, eu paro, penso, sinto, choro por dentro, absorvo tudo de volta e digo "Só que não!". E mostro a língua. Esse é o tipo de pessoa que eu sou e esses são os absurdos que eu penso. O que me faz sentir melhor é que você, caso não pense parecido, também tem coisas ridículas guardadas em alguma gaveta obscura da sua alma, mas que tem medo de confessar. Por isso você leu até aqui. Ver outra pessoa ser ridícula faz a gente se sentir melhor quanto a nossa própria imaturidade. Claro que isso não justifica a minha inércia emocional, tampouco o mundo explodiria caso eu decidisse mudar. Eu posso mudar. Sou livre pra isso e tenho recibos e comprovantes de renda e residência o suficientes para provar que estou apto para isso. Mas por enquanto... Hum. Não. *mostra a língua*

Mas o catalizador das minhas crises de consciência costumam ser aquelas pessoas que parecem não ser desse mundo. Nada contra as pessoas em geral, mas existem alguns déficits na nossa espécie que instigam quesitonamentos sobre desistir de vez de toda a campanha. Toda vez que eu ando em um ônibus lotado, parte da minha fé na humanidade se perde na multidão que me empurra cada vez mais para a janela, sem aparentar nenhum senso de cidadania referente aos seus sovacos vencidos. Em contrapartida, a questão é que também existem pessoas que parecem estar andando livres e despreocupadas por aí com o único propósito de fazer a gente se sentir mal por não sermos tão saudáveis, bem sucedidas ou - me atrevo a dizer - emocionalmente maduros quanto elas.

Como era o caso do Janeverson, das minhas aulas de redação no ensino médio. Antes de continuar, vamos esclarecer duas coisas: primeiro, o nome dele não é Janeverson e, segundo, eu o odeio sem nenhuma preocupação bio-psico social. Apesar de toda a incoerência, fome e preguiça que compõem o meu ser, eu ainda acredito solenemente que, a partir do momento em que algumas definições na sua vida tornam-se concretas sem mais aquela necessidade de precisarem serem defendidas ou explicadas (como gostar daquele filme tosco, ou daquele cachorro-quente gorduroso da carrocinha do outro lado da rua da faculdade, ou até mesmo daquela pessoa chata e sem graça que você chama de “amigo” ou, em alguns casos, “amor”), é porque você está se tornando uma pessoa madura. Com uma personalidade sólida, ímpar e invariavelmente intransigente. Se é uma maneira distorcida de maturidade ou não, não cabe a ninguém a não ser você decidir. A beleza desse sistema de definições é ter o prazer em justificá-las com um “porque sim” que na verdade quer dizer “porque foda-se você”, mas com a graça e a diplomacia de um “por que não?”. Enfim, a vida tem dessas coisas, e eu odiava o Janeverson. Porque sim/porque foda-se você/por que não?

Mas dessa vez até teve um porquê. O ensino médio também acabou sendo a idade média da minha imaturidade acadêmica, cujo iluminismo se deu na forma daquelas aulas de redação nas tardes de quarta-feira. Eu finalmente havia descoberto algo que eu gostava. Algo que me fazia ir feliz para o colégio, sem ser para conversar com os coleguinhas e/ou mostrar a língua pra eles. E, acima de tudo, algo em que eu era bom. Tipo, muito bom. Tipo, nota 10, mantendo sempre a impecabilidade das dissertações de 25 a 30 linhas e lealdade à temática da semana. E teria sido tudo muito bom, a ponto até de originar um Igor melhor para a história da humanidade, se o Janeverson não tivesse insistido em pesar a minha vida com o seu existir. Maldito Janeverson. Porque por mais que eu fosse bom, e criativo, e engraçado, e dotado de um dom para transcrever uma ironia pura que conseguisse manter-se entre a linha tênue das tradições Machadianas e a contemporaneidade como poucos conseguiam, o Janeverson ainda assim era melhor. Maldito Janeverson! Com sua pinta de bom moço, sua família rica, sua namorada loira de olhos azuis, seu intercâmbio na Europa e seu apartamento megalômano um-por-andar no lado nobre da cidade com vista pro lago. E ele era meu amigo. Talvez não amigo-amigo. Mais pra amigo-inimigo. Amigo/competição. Amigo... Imaginário? Enfim, era até gente bo. Mas por que não odiar, sabe?

E então veio o dia fatídico. O dia em que eu comecei a pavimentar o ódio da estrada que hoje leva ao meu coração frio e calculista (só que não, rá ié ié!). Pra falar a verdade, eu não lembro qual era o tema da redação. Algo sobre a sociedade, o capitalismo desenfreado, a crise econômica mundial e a felicidade. Enfim, “discorram sobre o tema em forma de dissertação argumentativa, de 25 a 30 linhas!” Eu tirei 9,5. O Janeverson tirou 10. Mas não foi pela nota que eu me irritei... Ok, em parte foi pela nota... Droga. Mas foi, principalmente, porque depois de quase um ano inteiro tirando 10 e ter sido nomeado como um exemplo de escritor pelos outros coleguinhas de sala, eu não tive o reconhecimento mor da professora. Quem teve, você me pergunta? Quem teve, você quer saber?! Sabe quem teve?! O Janeverson, é claro! E ela insistiu em ler a redação dele para o resto da sala, para que a gente aprendesse o que era uma dissertação bem feita. Uma redação nota 10. Maldito Janeverson!

Só que algo aconteceu quando ela leu a redação do Janeverson. Mais precisamente, foi durante um trecho que dizia algo desse sentido, mas com aquela expressão que eu jamais esquecerei: “As pessoas buscam um tipo de felicidade prêt-à-porter que foi fabricado pelo capitalismo como algo ideal, porém inacessível. Tão atraente e infame em seu modelo que foi capaz de gerar um distorcido pseudo-carpe diem massificado no modo de vida do homem contemporâneo”. Foi incrível. Era tudo que eu queria saber escrever, completo com toda a técnica, vocabulário, raciocínio e termos frescos em latim e em francês que carregam consigo aquele prestígio irrefutável que só os estudiosos de latim e os franceses conseguem ter. Salvo exceção, é claro, os estudantes de intercâmbio da Europa. Maldito Janeverson!

Até onde eu sei, o Janeverson é uma boa pessoa. Um amigo confiável, um cidadão politizado, um eleitor consciente, um voluntário em abrigos de velhinhos em suas horas vagas, que seja. Mas eu não gostaria de ser o Janeverson. Não é que eu odeie o Janeverson a ponto de pegar ódio de pessoas boas, ou carregue comigo um orgulho do tamanho do mundo que é incapaz de aderir a características que vão contra a minha natureza rancorosa – o que certamente explicaria porque qualquer tentativa de mudança poderia ocasionar em um novo big bang. Apesar dos pesares, eu gosto de ser quem eu sou. E já não me sinto mais tão incomodado pelos Janeversons que cruzam o meu caminho. Porque por mais que eles sejam bonitos, inteligentes, bem sucedidos e emocionalmente maduros, daqui até a eternidade só haverá um Igor... Mentira. Tem Igors aos montes por aí. Mas outro Igor como eu, jamais haverá. Eu já sonhei em ser um Janeverson, mas ser o Igor é tão mais divertido... Não é?

Maldito Janeverson...

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Conexão perdida

Não é que eu deteste o modo como o mundo contemporâneo incorporou as opções online/offline ao modo como nós levamos as nossas vidas. Muito pelo contrário, vez por outras passo mais dias online no vácuo do que offline do lado de fora de casa, longe do alcance de qualquer Wi-Fi. Aliás, às vezes é difícil saber até o que fazer com as mãos quando estas não possuem um celular conectado com o resto do mundo. Mas existem certos aspectos que ainda não consigo adaptar completamente – o que, por conseqüência, pode tornar a minha visão de mundo incompatível com os vários aplicativos que temos ao nosso dispor hoje. E dia desses me peguei pensando sobre tempos mais simples, quando conhecer e desconhecer pessoas costumava ser mais audacioso do que suar frio de ansiedade após tentar puxar conversa em um bate-papo virtual, e imaginar as mil e uma maneiras de reação que a pessoa do outro lado poderia ter. Quase todas, geralmente, beirando aos traumas do nosso ego ferido em outras janelas de conversação, fadadas ao eco de uma simples palavrinha maldita:

“Visualizado”

***

Desta vez eu me surpreendi com algo sobre o qual realmente não deveria reclamar. Já que no final das contas, quando pesquiso meu próprio nome no Google – e não aconselho você a fazer o mesmo com o seu, caso queira continuar dormindo tranqüilo à noite – os primeiros resultados são, não necessariamente nesta ordem, os links para meus perfis criados no Facebook, no Instagram, no Twitter (que há muito tempo é usado apenas para fins voyeuristas do que para publicações autênticas) até, enfim, ao perfil que lidera as publicações deste blog. Seria deveras hipócrita da minha parte utilizar das ferramentas da internet para criticar, bom, a própria Internet. Mas isto não é uma crítica; é uma confissão. Quando foi que eu permiti que estas ferramentas se transformassem em correntes? E se você ainda não entendeu o que eu quero dizer, talvez um diálogo que tive algum tempo atrás (e que você provavelmente também já teve), ajude:

- Você está bravo comigo ou coisa parecida?!
- Não! Por que?!
- Nunca mais falou comigo.
- Mas você também nunca mais mandou nada.
- Mas fui quem te chamou para conversar por último!

Se você já teve, ou está envolvido neste exato momento em algum tipo de cabo-de-guerra imaginário com alguém com quem você não conversa há muito tempo, nem em um milhão de anos considera a hipótese de arriscar suar frio para escrever um “oi” para ela e apostar todo o seu amor próprio ao clicar em “enviar”... Bom, eu te entendo. Mas quando eu paro pra pensar nas alternativas, ainda vale aquela antiga verdade universal sobre sermos irremediavelmente atraídos por aquilo que não podemos ter. É o motivo pelo qual sentimos vontade – para não dizer “necessidade” – de desabafar com alguém quando nossos relacionamentos parecem padecer e deteriorar a cada novo vácuo no qual caímos. Porque alguém esqueceu de nos responder, ou simplesmente não pôde nos responder naquele momento em particular. As mensagens instantâneas nos ensinaram a esperar por respostas instantâneas, seja em qualquer visor que esteja ao alcance das nossas mãos, até toda a vida que continua se atualizando ao redor dele.

Eu não sei. Talvez seja tudo uma questão de limites. De paciência, compreensão e outras virtudes que nunca consideramos de fato quando o nosso humor se torna diretamente proporcional à velocidade e o conteúdo da sua resposta para o meu “oi”. Mas a Internet está aí e não irá embora tão cedo. Aliás, provavelmente seremos nós quem iremos partir bem antes da Internet. Deixando de lembrança para ela uma série de perfis e fotos publicados com nossas imagens e nossos “mimimis”, daqui para a eternidade. Mas hoje tudo o que eu gostaria é que o meu ego, minha auto-estima e minha auto-confiança voltassem a depender só de mim mesmo, em vez de roteadores e cabos de fibra óptica.

***

Mas só para constar: todos nós temos nossas fraquezas. E é claro que existem alguns que ando ignorando de propósito. Se existe algo que a tecnologia nunca irá extinguir de vez, é o nosso orgulho. Mais do que isto: existem plugins para ele.

*Escrito em 24/11/2015.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Amor: o aplicativo indisponível


Pode parecer aleatório, mas é só a minha mania de enxergar uma profundidade em coisas que na verdade são inocentemente rasas. Porque eu quero escrever um pouco sobre relacionamentos hoje, mas antes eu preciso te contar sobre como eu estava assistindo os improvisos sinceros do Chico Pinheiro no Bom Dia Brasil (sirva-se de uma amostra) em uma manhã dessas. Até que chegaram a uma matéria sobre um novo aplicativo que permitiria aos espectadores assistirem o que bem quisessem de um vasto banco de dados que compunha a programação da TV, desde o que já havia passado até o que estiver no ar naquele momento. E inaugurariam o aplicativo ao subirem o que foi chamado de “capítulo zero” da nova novela das sete. Nele passaria um pouco do que os personagens estavam fazendo uma semana antes da trama central ser desencadeada aos olhos de quem, assim como eu, não possui espaço de armazenamento suficiente para se dar ao luxo de ter aplicativos no celular. Mas a idéia por trás disso foi algo que me subiu à cabeça de maneira bem mais eficiente do que o estresse pelo meu frustrante pacote de dados móveis.

Só o conceito de conhecer alguém já é conflituoso por natureza: a ansiedade, o nervosismo, a insegurança, o monitoramento de quando foi a sua última visualização no WhatsApp... Mas quando se pára pra pensar em como deve ser entrar na vida de alguém – uma vida que estava em movimento há muito tempo, bem antes de que eu pudesse considerar te chamar para conversar com todos os meus rascunhos de organogramas em mãos para manter o assunto fluindo – fica ainda mais difícil acreditar que possam existir mesmo os lugares e as horas certas para o amor acontecer. Ou qualquer outro sentimento caloroso que não necessariamente circule pelos seus órgãos genitais ao mesmo tempo em que te cause borboletas no estômago.

E então eu comecei a pensar sobre o “capítulo zero” das pessoas e em como seria muito mais difícil tentar pedir permissão para participar da trama de alguém caso soubéssemos de antemão o que vem acontecendo com ela. Claro que existem os spoilers: as postagens no Facebook, as fotos no Instagram, os check-ins no Foursquare... Mas nada disso realmente te garante que a vida de alguém “dá pé” para que você tente entrar sem medo de se afogar. Redes sociais são como outdoors: propagandas especialmente selecionadas para que você passe por mim e fique contente por alguns segundos sobre o restaurante que eu fui, ou por onde e com quem eu andei naquela balada. Mas que jamais te faça considerar que talvez, só talvez, seja muita estética para pouca filosofia.

O que nos leva aos primeiros encontros – e o motivo pelo qual às vezes eles não acontecem. Quando nos orientam a criar absolutamente qualquer outra coisa a não ser por expectativas, nosso instinto natural de desordem toma conta de nós antes mesmo que pudéssemos dizer algo do tipo “Não, não, pode deixar, não é nada sério. Só estamos conversando, numa boa, sem pressão!”, enquanto na verdade já pensamos em qual é o caminho mais prático para chegar até a papelaria mais barata da cidade, para comprar os plásticos que usaremos para encapar os cadernos dos nossos filhos, quando nós os matricularmos naquela escola particular em que já deixamos nossos nomes na lista de espera, pouco antes do casamento. E nem tente negar. Eu sei que você também pensou nisso.

A pressão envolvida em conhecer alguém agora começa muito antes mesmo de realmente conhecer alguém. E digo por experiência de quem já passou pela árdua espera para ver alguém que no final das contas não quis ser vista, bem como já acabei por fazer o mesmo. O motivo é simples: eu não estava pronto. As expectativas, assim como as tretas embutidas, já haviam sido plantadas. “E se você não gostar de mim? E se achar que a minha foto, depois de muita edição e três tipos de filtros diferentes, não tem nada a ver comigo pessoalmente? E se aquelas conversas de madrugada desaparecerem na luz do dia? E se a realidade não corresponder? Quer saber? Não vou arriscar.” E de todas as possibilidades, desde todos os sonhos do mundo sobre os quais Fernando Pessoa escreveu, até os que você esconde debaixo do seu travesseiro para que ninguém jamais descubra que você é daqueles que procura alguém para amar mas não sabe como nem quem nem aonde, nada acontece.

No final das contas, entre spoilers e “capítulos zero”, ninguém quer tentar dar uma chance para que um personagem novo possa desencadear novas emoções à sua trama, até mesmo quando uma dessas emoções possa ser um amor. E é por isso que estou tentando escrever a minha história ao mesmo tom em que começo todos os meus dias: com a espontaneidade do Chico Pinheiro e a esperança por um amor que ainda não encontrei.

*Escrito em 15/11/2015.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

O amor da sua vida curtiu sua foto


Houve um tempo em que o flerte costumava ser artístico. Algo respeitoso, singelo, carinhoso. Um começo poético e inocente para se contar às crianças, anos depois, quando estas perguntassem como os pais se conheceram. Mas os tempos mudaram desde o fim da Renascença e a ascensão da Revolução Sexual, e alguns valores foram perdidos entre uma mudança e outra. Outros foram realocados, mas nunca mais soaram como outrora. E digo isso com pesada poesia porque, ultimamente, não há mais nada de romântico em flertes. E se, hipoteticamente, meus filhos inquietos insistirem em saber como eu conheci a mãe deles, é melhor ter uma história melhor para contar do que, digamos, algo do tipo: “Papai encontrou Mamãe no Tinder, mas ela não era muito de puxar papo...

Há quem diga que relacionamentos são jogos de poder. E ao contrário do que já acreditei um dia, isto me parece bem mais plausível agora. A única coisa que ainda não consigo compreender ao certo são as regras. Se é que elas existem. Mas se relacionamentos estiverem mesmo baseados em jogos, ganha aquele que, discretamente, jamais demonstrar que está jogando. Achou confuso? É bem mais simples na prática.

Situação #1: O Amor Da Sua Vida (até então) posta uma nova foto no Facebook. Enquanto você está viajando aleatoriamente em sua linha do tempo, encontra a foto dela – linda, perfeita, incrível e, surpreendentemente, ainda intocada por todos os seus outros fãs. Atualizada há cerca de cinco minutos, próxima de você, ainda não há “curtidas” para esta foto. Você:

a) Decide ser o primeiro a “curtir”, inocentemente.
b) Decide esperar para que outra pessoa seja a primeira a “curtir”, já que ela obviamente sabe que você gosta dela e “curtir” imediatamente sua foto demonstraria certo desespero da sua parte.
c) Deixa a foto passar batido por você e volta ao que estava fazendo – mesmo que não estivesse fazendo nada. Aliás, decide até arrumar o que fazer.
d) Salva a foto em uma pasta obscura do seu disco rígido (provavelmente nomeada apenas como “Nova Pasta” para evitar suspeitas) e opta por fazer da foto do Amor Da Sua Vida o seu novo papel de parede do Desktop. Caso a foto não fique muito distorcida, providencia um pen-drive para levar a foto a uma gráfica para encomendar uma dúzia de camisetas com a foto dela para usar quando encontrá-la “acidentalmente” ao rondar a casa dela até o momento em que ela precise sair para sua aula de pilates toda terça-feira às quatro e quinze da tarde.

Particularmente, eu não vivo à mercê das minhas inseguranças. Pelo menos não o tempo todo. Mas já vivi algumas situações interessantes em que algo deste tipo demonstrou um interesse exacerbado da minha parte perante alguém – assim como já descobri interesses alheios em mim através de uma cuidadosa análise estatística de “curtidas” e comentários em minhas postagens mais recentes, voltando até os primórdios de 2011 onde a última moda em flertes resumia-se em “cutucar” alguém. E eu acho engraçado o quanto isto parece bobagem quando tento estipular uma espécie de fundamentação teórica acerca das técnicas e jogos de sedução da contemporaneidade, quando a verdade é única e atemporal: não existem jogos, nem artimanhas, nem esquemas, nem estatísticas, nem nada em se tratando de relacionamentos que indiquem quem está mais afim de quem ou algo parecido.

Nenhum de nós sabe o que está fazendo. E se achar que sabe, está blefando.

Mas nós insistimos com os joguinhos, os olhares, as conversas ensaiadas no espelho antes de encontrar o Amor Da Sua Vida no corredor da faculdade, porque a sensação de poder é o mais próximo que temos de nos sentirmos seguros sobre nós mesmos. Porque demonstrar interesse em alguém é e talvez sempre será o momento mais vulnerável que podemos vivenciar. Como andar na corda bamba sem uma rede de proteção lá embaixo, precisamente posicionada para nos reconfortar caso a recíproca nunca chegue e sejamos forçados a pular para evitar o discurso do “vejo-você-só-como-um-amigo”.

Os constrangimentos também adquiriram sua versão online: é só tirar o “visualizado por último” do WhatsApp e tomar cuidado para não ligar para a pessoa sem querer enquanto estiver babando na foto ampliada do perfil dela. Ah, a humanidade.

*Escrito em 21/10/2015.