sexta-feira, 18 de março de 2016

A resiliência do quilômetro 157


*Escrito em 15 de Setembro de 2014.

Antes de qualquer coisa, eu devo confessar que gostaria muito de ser um homem de uma metáfora só. Acho que se eu baseasse as minhas concepções de vida em apenas uma imagem abstrata, eu não teria essa compulsão por procurar outros significados escondidos em situações adversas. E acho que também seria uma ótima base na qual eu poderia apoiar meu futuro comprometimento por uma garota só, em vez de ficar procurando por outros significados escondidos em relacionamentos imaginários. Mas nada disso realmente tem a ver com o que aconteceu desta vez. Quer dizer, tem um pouco a ver. Porque, bem como já é de costume, não foi apenas uma situação adversa que aconteceu. Foi uma metáfora. E das grandes.

Viajar para Londrina de carro com o meu pai já provou ser uma situação adversa por si só. Mas acho que entre tantas idas e vindas naquele mesmo ano, nosso roteiro de viagem parecia não incluir mais silêncios constrangedores duradouros e discussões que acabavam sendo mediadas por pedágios – porque eu precisava parar para contar moedas pra ajudar a pessoa do guichê a devolver nosso troco. Agora nossas jornadas incluem desde trilhas sonoras personalizadas até lições valiosas de vida. E desta vez quis a vida que eu tivesse uma experiência mais memorável do que apenas descobrir que meu pai e eu temos o mesmo gosto musical. Desta vez a lembrança ia ser sobre uma lição de vida, uma revisão sobre mecânica básica e solidariedade.

- Pai, eu estou com um problema. Na verdade, não é um problema. Mas eu sendo do jeito que sou, tornei algo que não era um problema em um problema. Então é, eu tenho um problema. Não o meu problema em transformar coisas em problemas, mas o problema produto disso.
- É, realmente você tem um problema, filho. Mas diga aí.
- Ultimamente eu andei pensando em relacionamentos. Mas precisamente, sobre não ter um. No começo eu achava que era porque eu gosto de estar solteiro. Ou de estar sozinho. Gosto da liberdade, por mais que não a use tão bem quanto poderia.
- Ok...
- Mas eu gosto de não precisar dar satisfações pra ninguém. De sair pra onde eu quiser, a hora que eu quiser, com quem eu quiser. E eu odeio precisar de outra pessoa. Sabe que eu não sei pedir ajuda, ou reconhecer meus limites, ou admitir derrota...
- Um relacionamento não é isso, Igor. Não é ser limitado por outra pessoa, nem precisar de outra pessoa. É querer estar com outra pessoa. É querer compartilhar essa liberdade com outra pessoa. É saber reconhecer que... Que barulho é esse?!

Um estralo bem alto vindo de dentro do capô faz com que o carro desacelere aos poucos, até obrigar meu pai a parar em um acostamento improvisado de terra que fica entre uma descida para um sítio e uma árvore solitária.

- Era só o que me faltava.
- O que foi isso, pai?
- Eu não sei, Igor. Se soubesse, não teria parado.
- Acho que é de você que eu herdei o meu sarcasmo...
- NÃO COMEÇA!

Descemos do carro. Meu pai abre o capo e investiga até encontrar o problema: uma das velas ligadas ao motor se soltou. Meu pai tenta encaixá-la com a mão e volta para dentro do carro para tentar dar a partida. Outro estralo alto acontece, e a vela é desencaixada do motor em um disparo.

- Estragou a vela.. E não sei porque estou te dizendo isso. Você nem deve saber do que eu estou falando.
- Eu também te amo, pai. Agora me explica direito.
- Sem a vela, o motor não funciona. Se o motor não funciona, o carro não anda. Eu não consegui encaixar só com a mão. A gente precisa de uma chave para isso, mas eu estou sem nenhuma ferramenta aqui. Quer ir a pé, ou prefere voltar pro carro e procurar o recibo do último pedágio?
- Pra que?
- Lá tem um número para ligar em caso de emergências. Nunca me aconteceu nada até hoje para que eu precisasse ligar. Vamos ver como é...

Meu pai liga para o número, que por acaso é um 0800. Números do tipo 0800 nunca me inspiram muita confiança. Isso foi confirmado quando meu pai resmungou algo depois de finalmente conseguir barras de sinal o suficiente para ligar, e descobriu que para ser atendido por alguém, precisava teclar 1. E depois de resmungar por não conseguir achar o teclado do seu telefone para teclar 1, falou com uma atendente que registrou a ligação e disse que já estava enviando alguém para nos ajudar. Independente da minha natureza pessimista e caótica, a ideia de passar um tempo indeterminado parado em um acostamento improvisado em algum lugar nos arredores de Campo Mourão inspirou a minha impaciência a se manifestar:

- Será que eles demoram?
- Acho que não. Não faz muito tempo que passamos por um pedágio. Deve levar uns quarenta minutos, uma hora, por aí...
- Uma hora?!
- Você pode ir a pé se quiser.
- Ok, uma hora...

***

Antes de investigar o motor, meu pai abriu o porta-malas para conferir se estava com suas ferramentas. Deixou sua porta aberta depois que a vela disparou pela segunda vez. Até nos conformarmos de que poderíamos ficar ali por algum tempo, meu pai deixou todo o carro aberto. O rádio ainda estava ligado, tocando as músicas do pen drive que eu trouxe para a viagem. Ouvir música era só o que podíamos fazer enquanto esperávamos pela ajuda. Voltei para o meu lugar no carro, pensando se talvez teria sido melhor ficar em casa, ou se era eu quem tinha o dom de atrair problemas e situações adversas. E continuei aumentando o tamanho do problema na minha cabeça, enquanto meu pai caminhava aleatoriamente pelo acostamento até que um carro passou por nós lentamente e deu ré até se alinhar ao andar do meu pai.

- Ei, você que é o Souza?
- Souza?
- É, Souza. O dono desse sítio que fica nessa descida de terra aqui, do lado daquela árvore ali. Eu te liguei mais cedo sobre um motor de trator.
- Não, não sou eu... Meu nome é Marcio. Eu só estou aqui porque o meu carro deu um problema no motor. Eu e meu filho ali estamos esperando a ajuda chegar.
- Um problema no motor, é? Que coisa. Mês passado mesmo tive que mandar arrumar meu cabeçote. Gastei uma nota só, chê! Aliás, pode me chamar de Gaúcho. Então, como eu dizia, meu cabeçote deu pau e tive que ligar para um conhecido meu que é mecânico. Resolveu na hora, uma beleza de serviço. Só teve que cobrar um pouco a mais porque teve que trocar a peça. Se fosse só pela mão de obra, o cara dava uma maneirada. Aliás, espera aí que eu vou dar um toque pra ele. Quem sabe ele não resolve o problema de vocês?
- Olha, se o senhor puder me ajudar...
- Gaúcho, chê!
- Senhor Gaúcho.... Se o senhor puder nos ajudar, eu agradeço muito. Não estamos nem na metade do caminho da nossa viagem ainda.
- Guenta aí!

Eu fiquei observando a conversa entre o “senhor Gaúcho” e meu pai de longe. Estava ocupado demais tentando fugir dos mosquitos borrachudos que subitamente começaram a agir em conjunto em uma missão de me devorar por inteiro, uma picada aleatória de cada vez. Até preferi deixar só o meu pai falar, porque segundo relatos dos meus amigos, minhas caretas não me deixam mentir sobre o que eu acho das pessoas e das coisas ao meu redor. Sem sombra de dúvidas, conversar com o “senhor Gaúcho” em um acostamento improvisado durante uma tarde exageradamente ensolarada de sexta-feira, e ouvi-lo falar sobre o “pau no cabeçote” que ele sofreu tempos atrás, iria gerar uma careta que talvez o fizesse desistir de ligar para o tal mecânico. Ao desligar o telefone, depois de gritar seu sotaque com ele no telefone, ele continuou a falar com o meu pai:

- Acabei de falar com o Augusto – pelo visto o nome do mecânico era Augusto, e o “senhor Gaúcho” não era muito fã de contextos – e ele vai vir aqui dar uma olhada no problema de vocês. Agora você me dá licença, seu Marcio, que eu preciso achar esse tal de Souza pra ver se consigo vender um desses motores ainda hoje!
- Claro, claro, tudo bem, Gaúcho! Muito obrigado pela sua ajuda!

Meu pai, antes de dominar a arte do empreendimento, é um cavalheiro nato. Em uma pequena troca de falas gritadas com o “senhor Gaúcho”, ele já o considerava muito por ter parado e, mesmo depois de descobrir que não estava falando com o tal Souza, ainda se dispôs a terceirizar outro pedido de ajuda para nós. Quando o Gaúcho voltou para a estrada à procura de outro homem andando aleatoriamente no acostamento que se chamasse Souza, meu pai voltou para perto do carro, onde eu estava:

- Quem diria, não é?
- É, quem diria...
- Onde está seu desgosto por precisar das pessoas agora?
- O que?
- Ué. Você disse que odeia precisar das pessoas. Não levou em conta situações como essa, né?
- Uma lição de vida? Aqui? Agora? Sério?
- Você se preocupa demais com a vida, filho. Tem só 22 anos. Pra que esquentar a cabeça tanto assim? Deveria sair, se divertir, namorar, curtir... Com moderação, claro.
- Isso aqui é uma exceção. Estar parado debaixo do que parece ser a única árvore dessa parte da estrada esperando por dois mecânicos diferentes não tem nada a ver com o que eu estava falando sobre relacionamentos.
- Por que não? Não é você que vive falando sobre relacionamentos, comportamentos, e todas aquelas coisas de psicologia lá? É disso que a gente está dependendo aqui, agora.

Eu estava prestes a recuperar o fôlego que perdi enquanto ainda tentava me defender dos borrachudos para rebater o sermão do meu pai, quando o mecânico do 0800 do pedágio apareceu. Estacionou o carro do lado do nosso no acostamento improvisado, mas demorou uns cinco minutos para descer do carro. Pelo que parecia, estava preenchendo uma série de relatórios sobre a nossa ocorrência. “Até ele preencher toda a papelada que precisa, a gente já foi embora”, resmungou o meu pai. Entre o empreendedorismo e o cavalheirismo, meu pai ainda era um pai. Finalmente, o mecânico desceu do carro, com um sotaque ainda mais carregado do que o do “senhor Gaúcho”, só que puxando para o nordestino.

- Tarde, pessoal. Deu buxa no motor?
- Pois é – respondi, antes que meu pai pudesse colocar seu cavalheirismo em ação. Tudo para ganhar tempo para rebater aquele argumento.

Antes de sequer olhar o capô aberto do carro, o mecânico que ainda não tinha nome nos pediu uma série de informações sobre o veículo, sobre nosso endereço, telefones, e aproveitou para puxar conversa fiada sobre a nossa viagem. Ao revisar a tal queixa sobre a vela do motor que lhe foi passada, logo disse:

- É, ela soltou mesmo. Não vai ter como seguir viagem. Não adianta nem usar a chave pra apertar. Vai ter que mexer no cabeçote, mas não estamos autorizados a mexer no carro. Normas do serviço, para evitar danos ou processos, entendem? Vou chamar o guincho pra vocês, ok? Deixa só eu conferir no GPS aonde vocês estão e... Achei! Quilômetro 157. Beleza, então. Ligo do caminho, pra ir acelerando o processo. Só não sei quanto tempo vai demorar. Mas aguentem aí, ok? Obrigado!

Em algum momento do monólogo definitivo do mecânico, meu pai perguntou seu nome. Eu não me lembro do nome, porque estava ocupado demais sobre como cabeçotes de carro parecem ser mais problemáticos do que eu. Quando ele voltou para a estrada, meu pai voltou ao nosso assunto:

- Não botei muita fé nesse daí não.
- Mas ele é o mecânico da empresa do pedágio.
- O mecânico que nem pode mexer no carro serve pra que?
- Ok, ok. Mas quem você acha que vem primeiro? Já que nossa ocorrência já atraiu a visita de dois mecânicos e um guincho?
- Acho que o Augusto vem primeiro.
- “O Augusto”? Você nem conhece ele. E se não vier?
- Botei fé no Gaúcho.
- Este é você tendo fé na humanidade, para me mostrar como as pessoas precisam de pessoas e tudo mais?
- Exatamente. Onde foi que paramos?

Meu pai deu um sorrisinho irônico que, mais ironicamente, eu estava acostumado a ver só no meu reflexo. Ao fundo, o pen drive no carro estava tocando “Dancin’ Days”. Meu pai começou a dar alguns passinhos de dança, que só serviram para me provocar ainda mais. Estava sendo um dia daqueles, e por mais que custasse a admitir, queria muito que o Augusto chegasse primeiro. Também tinha botado fé no Gaúcho.

***

Antes que meu pai pudesse retomar seu sermão, uma Honda Biz surgiu rapidamente e desacelerou até chegar perto de nós para perguntar se ele era o Marcio sobre o qual o Gaúcho tinha falado. Era o Augusto, armado com sua caixa de ferramentas e maior disposição para ajudar do que o último mecânico. Ao contrário dele, Augusto era quieto e pacato, e analisou as peças do motor com as mãos até concluir que aquela vela tinha concerto sim – era só usar a chave certa, que por acaso tinha ficado para trás na oficina. Augusto montou de volta na moto e avisou “volto já!” antes de desaparecer no horizonte da estrada.

A essa altura já deveria ter passado cerca de uma hora. Não acompanhei o tempo da nossa parada não planejada no relógio, porque estava mais preocupado em matar os borrachudos que tinham conseguido entrar no carro antes que eu o fechasse para me refugiar. Quando vi que as coisas não ficariam mais fáceis do lado de dentro do carro, saí novamente e comecei a andar aleatoriamente em círculos, impaciente pela volta do Augusto, enquanto meu pai pôs-se a caminhar novamente pelo acostamento. Provavelmente estava distraído, porque não viu quando um trator apareceu na entrada do sítio ao lado da árvore solitária, em direção à estrada, e seu motorista começou a falar comigo, inexplicavelmente com outro sotaque carregado, só que desta vez, indecifrável:

- Oxê, o carro de vocês deu problema?
- Deu, deu sim. Mas já fomos socorridos. Apareceu um mecânico, depois que um outro motorista parou para nos ajudar. Enfim, longa história. Mas já estamos bem, obrigado!
- Ah, tudo bem, então. Precisando de alguma coisa, é só descer até o meu sítio ali em baixo. Meu nome é Souza, viu. Agora me dá licença que preciso ir encontrar um tal vendedor que ficou de me mostrar umas peças de trator e até não apareceu até agora.
- Na verdade, foi com ele que a gente falou. Ele foi por ali – e apontei para o horizonte, como quem queria ajudar de alguma forma para retribuir a quarta oferta de ajuda que recebemos desde a parada brusca.

Pouco depois do Souza também desaparecer no horizonte da estrada, meu pai voltou a caminhar pela minha direção e nem reparou que eu estava conversando com o motorista do trator, que por acaso era o Souza que o Gaúcho estava procurando antes de parar para nos ajudar através do Augusto. Foi aí que eu finalmente parei para perceber o quanto estávamos sendo ajudados por pessoas desconhecidas, enquanto eu ainda achava complexo demais pedir ajuda dos meus amigos, dos meus pais, ou até de me atrever tentar algo a mais com aquela garota. E o quanto minha desabilidade de transformar coisas pequenas em problemas já tinha passado do ponto de ser considerada uma simples neurose, para ser algo realmente problemático.

Enquanto eu ligava os pontos da minha própria irreverência, o Augusto apareceu de carro acompanhado pela sua esposa, que ele logo justificou ter demorado para voltar porque precisava buscá-la do trabalho dela. Foram questão de minutos para que o Augusto resolvesse o nosso problema com o apertar de uma chave na vela, cobrasse menos do que eu esperava que ele poderia pedir pelo serviço e pelo transtorno, e nos colocasse de volta na estrada. Alguns poucos metros de volta em nossa viagem, fui obrigado a admitir derrota:

- Ok, você tem razão.
- Sobre...?
- Sobre o que nós estávamos falando antes.
- Que era...?
- Sério mesmo, pai?! Por que será que eu sou assim, né?!
- Ok, ok, é brincadeira. Diga aí.
- Não é questão de precisar das pessoas, nem de garantir liberdade, nem de me sentir melhor sozinho. Talvez seja o medo de acabar preso com uma vela enguiçada em um acostamento improvisado no meio do nada. Talvez seja o medo de investir na pessoa errada de novo. Ou então, talvez seja o medo de não saber para onde eu estou indo, e de querer poupar outras pessoas de se perderem comigo.
- Quanto drama, filho. Não precisa disso tudo. Apenas viva sua vida de um jeito que te traga alegria, e compartilhe isso com as pessoas que você gosta de ter por perto. E namore uma garota de quem você realmente goste, e não te faça ficar questionando essas coisas. Se você está pensando tanto nisso, talvez não seja ela. Mas talvez possa ser se você der uma chance. Eu também não sei. Não sei tudo. Só sei que não adianta a gente ficar só querendo ser feliz. Às vezes a gente precisa tentar algo a mais. E se der errado, eu vou estar aqui para te ajudar. Os seus amigos também. E pelo visto ainda existem pessoas nesse mundo dispostas a fazerem o bem também. Os Gaúchos e os Augustos por aí.
- Ok, pai, você tem razão. Obrigado.
- Obrigado, nada. Faz um favor pra mim. Pega o meu celular aí e liga para aquele número de 0800 de novo.
- Ué, por que?
- Pra cancelar aquele guincho. Se me lembro bem, tem que teclar 1 no primeiro menu que aparecer, e esperar alguém te atender. Mas sem pressa, né? Ainda tem muita estrada pela frente.

Entre imprevistos, enguiços e 110 músicas daquele pen drive depois, nós finalmente chegamos em Londrina. Eu disse ao meu pai que aquela provavelmente foi a melhor viagem que nós já fizemos, e prometi a mim mesmo que faria aquela experiência contar para alguma coisa. Que eu iria tentar mudar algumas coisas, para realmente tornar essa promessa de ser feliz e viver bem em algo real. E que se por acaso eu acabasse preso em um acostamento nos arredores de Campo Mourão de novo, eu já tinha o telefone do Augusto salvo no telefone.

É. Eu vou ficar bem.

quinta-feira, 17 de março de 2016

O ciclo do café com leite


Era uma manhã qualquer. De um dia típico em uma semana ordinária. Nada demais, para falar a verdade. Confesso que talvez esteja me tornando apegado demais a rotinas, o que é, no mínimo, iônico. Visto que, meses atrás, logo quando cheguei aqui, tudo o que eu queria era ter um pouco mais de noção sobre a cidade em que eu estava morando. E como os meus dias nela iriam ser. Tudo era muito novo, muito rápido, muito espontâneo, enquanto eu não sabia de nada do que iria acontecer em seguida. Não que hoje eu saiba, mas o mistério que cercava os meus dias há sete meses definitivamente parece já ter entregue o seu final. E não foi tão surpreendente quanto eu esperava que fosse. Mas eu estou me perdendo do que quero dizer. O que eu quero dizer é que, em uma dessas manhas de mais um dia insuportavelmente previsível, parecia que só o que poderia me surpreender seria o fim dos tempos. Mas não. Em vez disso, acabou o pó de café.

Quer dizer, não acabou. Mas também não seria o suficiente para me despertar da ressaca da contemporaneidade que eu estava sofrendo. A cafeteira iria passar pouco café e eu iria passar muita vontade. Quis a vida, que eu não canso de dizer que é uma eterna brincalhona com esses nossos dramas existenciais, que apesar de não haver outro pacote de pó de café em casa, tivesse leite. E se eu fosse um fã de café com leite, este teria sido o fim da história.

Claro que não foi. E caso você ainda insista em continuar lendo, e se já conhece um pouco da minha paranóia literária, acho que sabe onde eu quero chegar com isso...

Eu não gosto de café com leite. Acho fraco, quase insosso, e uma fraude quando comparado com café de verdade. Daqueles bem fortes e amargos, perfeitos para dias cinzentos de melancolia e ressaca da contemporaneidade. Acho que a essa altura, vale ressaltar que eu ando muito bem sim, obrigado. Mas eu devo confessar que sim, estou sofrendo daqueles períodos de seca paradidática, onde qualquer migalha de inspiração já serve para me colocar diante do terror de uma folha branca do Word. Nem que seja para tornar o meu ócio um pouco mais útil, e para matar tempo enquanto termino de fazer o download de mais uma temporada de alguma série. E não me olhe deste jeito. Cada um tem o seu jeito de sobreviver ao “endomingamento” da alma. Ainda mais quando isto não se limita mais aos Domingos.

Enfim, café com leite me lembra fraqueza. E sim, antes que você me diga algo, eu gostaria muito de ser capaz de simplesmente calar a boca e aproveitar um café com leite como uma pessoa normal. Mas este não é o caso. Até porque, se fosse, o que eu faria com todo esse potencial literário? Imaginação é uma coisa terrível de se desperdiçar. Ao contrário do potencial do café com leite, que desde a infância já é considerado como algo inaceitável. Porque nenhum de nós queria ser a criança “café com leite” da brincadeira. Aquele que não é capaz de lidar com a brincadeira igual a todos os outros, e precisa ter um pouco de vantagem e piedade sobre os outros para conseguir brincar também. Ou então era deixado de fora, porque ninguém queria dar vantagem para ninguém.

E aí a gente cresce, faz amigos novos, estuda, trabalha, namora e se der sorte é até feliz. Mas nada realmente apaga aquele passado café com leite que te trouxe até aqui. Não vou negar que já fui a criança café com leite, apesar de não me lembrar ao certo da frequência que isso aconteceu. O que me lembro claramente era de odiar ser a criança café com leite. E até de abandonar algumas brincadeiras por conta própria, por não querer que outras crianças me dessem algum tipo de vantagem para acompanhá-las. Às vezes porque os outros eram mais velhos, ou porque era alguma brincadeira perigosa, ou porque minha mãe brigava comigo na frente dos outros, dizendo que eu não podia brincar. “Porque não e ponto final!”.

Ser a criança café com leite significava ser a criança fraca, que poderia crescer e se tornar um adulto fraco. Que precisa que os outros peguem leve com ele para que ele consiga acompanhar a competitividade dos jogos dos adultos. A competitividade do mundo real. Mas até aonde eu sei – o que eu confesso não ser muito – o mundo real não se preocupa em dar vantagem ou não pra ninguém. Aliás, ao meu ver, o mundo real é tão aleatório quanto as amizades que fazemos quando somos crianças.

O que me levou àquela manhã melancólica e mal humorada, com pouco pó de café e muita vontade de acordar. Talvez fosse o resultado de uma noite passada ruim, ou de um mundo de adultos que nos obriga a estar sempre alerta, sempre pronto, e sempre com um estoque considerável de pó de café em casa. Na falta de alternativa melhor, e de vontade de trocar de roupa para ir tomar café na padaria da esquina, às favas com os padrões da sociedade e com o meu mau humor. E joguei o pouco pó de café que restava na cafeteira, peguei o leite milagroso que restava na geladeira e preparei a minha caneca. Quando o café ficou pronto, hesitei um pouco antes de dar o primeiro gole, provavelmente impedido pelas minhas lembranças asquerosas de infância e meus sentimentos amargos de jovem adulto insosso. Mas quando dei o primeiro gole, o café com leite não tinha o gosto ruim do qual eu me lembrava. Estava muito bom na verdade, mas tinha gosto de ironia.

Depois de anos comprometido com a noção de que café com leite é ruim, que ser fraco é inaceitável e que competições existem para serem sempre ganhas, eu me peguei questionando tudo isso a medida em que era despertado por aquele café da manhã. Por que é tão difícil aceitar ajuda? Por que é preciso competir sempre, até mesmo quando não há competição? Por que recusar o café com leite, apesar de ser menos amargo, pelo café tradicional que os adultos tomam para se manterem alertas? Parte de mim até gosta de ter esses momentos de claridade, porque ao menos servem para me lembrar de que eu preciso ser menos exigente comigo e com o mundo ao meu redor. Independente do que já aconteceu comigo, do que eu posso fazer daqui em diante, ou da cor do gramado do vizinho. Ou, então, o café com leite poderia ser só um café com leite. Que serviu para me trazer de volta à realidade tão bem quanto qualquer outro café faria. E nem precisou me deixar mais amargo para isto.

Paranoias à parte, o café com leite também serviu para me lembrar de que eu preciso ir ao mercado.

quarta-feira, 16 de março de 2016

As sobras da felicidade


*Escrito em 24 de Agosto de 2014.  

Quando eu não desperdiço o meu tempo ao ficar pensando sobre como eu desperdiço o meu tempo, meu ócio criativo também passa por momentos aleatórios de otimismo e esperança que me fazem repensar sobre a vida e afins. E geralmente esses momentos tendem a me iluminar ainda mais quando estou sentado na sacada com alguém tomando um tereré e filosofando sobre... Bom, qualquer coisa. E foi em um desses dias em que eu ouvi um absurdo tão espontâneo que resultou em uma teoria mais improvisada ainda, mas que perdurou nas engrenagens dos meus pensamentos preguiçosos por algum tempo.

- Eu acho que estou feliz, mas não tenho certeza.
- Isso é normal. A gente nunca tem certeza de quando está feliz. Quer dizer, tem sim. Por uns cinco ou dez minutos. A partir daí é uma curva decrescente que resulta em dúvida, ansiedade e ataques aleatórios de pânico e auto-destruição intelectual.
- Ok... E como você explica isso?
- Ué. A gente sempre sabe quando está triste. É quase palpável. Tem gente que falta só pendurar uma placa ao redor do pescoço com a frase, “Vá embora, estou triste!”. Mas quando a gente está feliz, não. Isto é, no começo é visível. Não precisa nem de placa porque o sorriso estampado no rosto não deixa espaço para outras sinalizações. Mas não dura. Felicidade genuína tem a mesma duração que o gás da Coca-Cola. Com o tempo o refrigerante vai perdendo o gás, mas nem por isso ele deixa de ser bom.
- Eu não gosto de Coca-Cola sem gás.
- Não conta. Você é fresca. Mas olha só, raciocina comigo: sabe quando você está naquele seu tradicional coma de seriados, trancado em um quarto escuro para não deixar o reflexo da vida lá fora atrapalhar a visão do seu monitor, completamente alheio ao resto da humanidade que não entende porque você assiste aquele seriado tão ruim?
- Ok, estou com você até agora. Continue...
- Então... Um corpo parado assistindo uma temporada inteira de um seriado qualquer tende a terminar esta temporada no conforto da sua inércia, certo? Mas em algum momento você levanta para ir até a cozinha e buscar alguma coisa na geladeira para deixar a sua inércia mais apetitosa. Como, por exemplo, as sobras da pizza da noite anterior.
- Hum... Pizza de frango com catupiry.... Por falar nisso, ainda tem a minha parte, né?
- Melhor não entrarmos nisso agora. Continua comigo! Olha só; você vai até a geladeira, abre a porta e não encontra a pizza. A pizza acabou. Você já comeu tudo e nem se lembra. O que você sente?
- Tristeza... E raiva, agora que eu sei que foi você quem comeu tudo.
- Não perca o foco! Olha só, vou encher o copo de tereré pra você e pode pular a minha vez. Agora imagine um outro dia qualquer, uma terça-feira gorda e abafada. Você está entediada em casa, já assistiu todos os filmes que você tem no mínimo três vezes, não tem ninguém legal online para conversar no momento, aí você levanta e vai para a cozinha. Abre a porta da geladeira e revisa tudo o que tem dentro dela. O que você quer?
- Nada, eu acho... Aliás, por que a gente faz isso? Abre a porta da geladeira sem saber o que quer, fica lá parado só olhando, depois fecha sem pegar nada e volta pro quarto?
- Pelo mesmo motivo que a gente não sabe que é feliz e fica se questionando. Quando a gente fica triste, não há dúvidas. A falta é óbvia, é clara, é obscena. Agora, quando a gente fica feliz, igual quando a pizza chega, é uma festa que dura uns dois ou três pedaços. Depois a gente fica preguiçoso, cansado, distraído... E se questiona se comeu demais, se arrepende porque o esforço da semana na academia já era mas que foi por uma boa causa, etc... Mas nem por isso a gente para de procurar pela felicidade plena. Especialmente no dia seguinte, quando a gente reencontra as sobras, que são as alegrias aleatórias que sempre restam mas que tendem a ser mais sutis.
- O que você quer dizer, então, é que eu estou feliz e não sei disso?
- Exatamente. Você está triste?
- Não...
- Então você está feliz. Qualquer meio-termo que flutue entre uma coisa e outra é assunto para outra discussão, outra teoria, outra metáfora. Mas agora eu estou com preguiça, então aceite estar feliz e se contente com isso. E me passa o tereré.
- Ok... Mas isso não justifica você ter comido a minha parte da sobra da pizza de ontem.
- Outro exemplo clássico de como algumas coisas simplesmente não sabem ser felizes e ficam procurando problemas. Veja bem, imagina comigo...

***

   Dia desses a Joyce comprou uma jarra nova de tereré para deixar as nossas tardes e noites na sacada mais felizes. E durante os primeiros instantes de vida inanimada dela dentro da nossa casa ela nos deixou mesmo muito felizes. Mas como é de praxe da tragédia do mundo, nós massacramos a jarra com a nossa existência medíocre e desajeitada ao tirar a tampa para enchê-la pela primeira vez, e tivemos a infeliz frustração de jamais conseguirmos alinhar a tampa na jarra igual como ela estava antes.

- Cara, como pode a gente ter tanto azar?
- Não é azar, Joyce, é a história da minha vida se repetindo.
- Mas o que?!
- Claro. Minha vida é tão torta quanto essa jarra. Minha felicidade é tão desalinhada quanto essa tampa. Marque minhas palavras: se um dia eu conseguir alinhar a tampa dessa jarra de novo, será o dia em que eu finalmente atingirei a felicidade plena.
- Eu ia sugerir comprar uma jarra nova, mas tudo bem. Você e suas metáforas...

   Até a presente data eu ainda não consegui alinhar aquela maldita tampa, mas tudo bem. Mais refrescante do que o tereré em uma tarde ensolarada de Domingo, é a esperança que eu sinto ao prepará-lo antes de tentar fechar a tampa da jarra mais uma vez.

   Se isso não é pensamento positivo, então eu não sei o que é.

terça-feira, 15 de março de 2016

À procura da estabilidade


Talvez seja porque eu peguei essa mania do meu pai, que tem o espírito de administrador desde que eu o conheço por gente e não só por progenitor. Eu me lembro bem daqueles rituais burocráticos a cada fim de mês, pouco antes de fechar a loja e apagar todas as luzes, quando ele se colocava a postos para imprimir bobinas inteiras de relatórios antes de conceder aquele determinado mês encerrado, e para dar início a um novo período de vendas. E eu me lembro de sofrer, lentamente e dolorosamente, durante esse ritual. Porque nunca realmente parei para pensar no porquê de todo aquele cuidado ou daqueles relatórios. Até que eventualmente, ao longo de um novo mês, ele dava um jeito de me contar que estávamos crescendo. Em porcentual, é claro. Porque a curva de evolução da minha maturidade emocional sempre parecerá equivalente aos batimentos cardíacos de um sujeito em coma: constante, porém arrítmico.

E é sobre isso que eu estava pensando hoje. Sobre como aquele nosso ritual a cada fim de mês já não existe mais, mas que isso não necessariamente me impede de tirar um extrato mental do crescimento em percentual que a minha vida tem demonstrado. Porque exatamente um ano atrás, eu estava reclamando sobre o quanto eu não havia planejando a minha vida até o dia seguinte à minha formatura. Eu simplesmente não sabia o que iria acontecer ou o que seria de mim, e o quanto eu senti mais frustração por mim mesmo do que medo pelo futuro. Eu deveria ter alguma carta escondida na manga... Ou algum plano B... Não deveria?

Meu pai provavelmente teria. O que só acrescenta ironia às minhas estatísticas.

***

Pensando sobre os altos e baixos que eu já tive neste ano que eu mal conheço, mas já considero “pacas”, eu percebo o quanto fazer planos é invariavelmente infame. Do que adiantou construir castelos em sonhos, se eles acabaram mudando de endereço? De que serviu imaginar o que eu faria em determinadas situações, se eu me pego agindo mais maleável a mudanças do que eu sequer considerei que seria capaz um dia? Talvez esse seja o segredo das vendas, bem como o da vida em si: pare de imaginar que as coisas serão do jeito que você imaginou que elas seriam.
Porque os relatórios do meu pai, embora feitos de maneira minuciosa, sempre continham suas sequelas de estornos e margens de erro. E com a minha vida não tem sido diferente.

Tudo o que o meu pai queria era estudar aqueles relatórios e descobrir que as coisas estavam melhorando. Que a sua procura por estabilidade estava cada vez mais perto de acabar, para que ele finalmente pudesse relaxar e deixar de lado seus percentuais de vendas e sua calculadora científica que, por sinal, eu jamais aprendi como funciona. Mas não foi assim que a nossa vida se desenrolou. Pelo contrário; talvez a nossa felicidade estivesse escondida nas pequenas anotações de rodapé de todos aqueles extratos. Porque nem a loja nem os relatórios mensais existem mais, mas nós continuamos aqui. Vivendo, aprendendo, crescendo e multiplicando nossos ganhos.

E então eu percebi que a minha procura por estabilidade ainda não está nem sequer perto de terminar, e o quanto isso é algo realmente bom. Porque eu nunca precisei depender de relatórios para saber o quanto eu estava crescendo, e o quanto a minha felicidade sinceramente depende das margens de erro das escolhas que eu faço. Foi assim que eu cheguei até aqui. E é assim que eu sigo em frente.

Minha economia pessoal só pode começar a mudar se eu projetar um futuro melhor. É pra isto que servem esses relatórios literários aqui.

segunda-feira, 14 de março de 2016

A merda no ventilador


*Escrito em 02 de Julho de 2014.

De todas as dificuldades, talvez o nosso medo de viver seja a mais difícil de superar. Afinal, a vida é o que acontece enquanto você tenta compor um plano B, e o que poderia ser mais assustador do que acabar sendo o arquiteto  acidental do seu próprio desastre? E de se tornar o encarregado pela obra de reconstruir tudo de novo? Mas é isso que a gente faz, dia após dia, quando sai de casa para trabalhar, ou para estudar, ou para tentar fazer qualquer coisa na verdade. E se daqui em diante nada mais do que eu disser fizer sentido, que sejam lembradas apenas essas duas palavras: “talvez” e “tentar”.

Somos seres humanos complicados, complexados, neuróticos e atarefados cuja única certeza na vida é de que todos esses dias curtos, esse frio intenso, e essa procrastinação para lavar a louça na pia vão acabar mais cedo ou mais tarde. E aí vivemos com um “talvez” na base de todas as coisas, e um “tentar” que só vai depender da gente para sustentá-las. Talvez eu seja bem sucedido quando esta faculdade acabar, mas pra isso eu vou ter que tentar encontrar outro caminho para seguir. Talvez eu consiga um emprego que eu ame, mas para isso eu preciso tentar bater em todas as portas que eu puder até que uma se abra e me deixe satisfaça com o que eu encontrar. Talvez eu descubra o amor em você, mas para isso eu preciso tentar deixar você fazer parte de mim.

Agora que um bom tempo já se passou, como um quebra-cabeças cuja imagem finalmente começa a fazer sentido, eu acho que entendo um pouco do porquê de tantas coisas terem acontecido. E apesar da sensação de que tem sido um fim do mundo após o outro, é assim que se descobre o que realmente é ser resiliente e, de quebra, o que você realmente precisa ao contrário do que você acha que quer. E este tem sido um grande problema para mim: desde a concepção ilusória que eu tinha da vida que eu achava que deveria ter, até a realidade aparentemente ingrata em que eu vivo. Completa com a sua coleção de limitações e incoerências. Parece uma bobagem bem fácil de aprender, caso não fosse tão irônica. Mas às vezes por mais que a resposta para o presente esteja na ponta do seu nariz, você nunca irá enxergá-la se continuar forçando suas vistas para tentar enxergar o futuro. Felizmente ou infelizmente, tenho um currículo rico em experiência com ironias.
Você precisa conhecer pessoas ruins, lugares chatos e coisas infames, para saber reconhecer amigos insubstituíveis, lugares inesquecíveis e coisas raras. Você precisa passar pela chuva para ver o arco-íris. Você precisa passar pelo ruim para saber sentir o que é bom. E às vezes na vida, você precisa deixar a merda atingir o ventilador e acabar com tudo ao seu redor, para descobrir o que realmente é importante nesta vida, e o que você realmente precisa nela. É assim que prioridades mudam, as companhias vazias se perdem, os cenários se tornam mais seletos, e a gente percebe que por mais que ainda reflita a mesma cara no espelho, nós definitivamente não somos mais como antes. A gente se destrói para se recompor, porque é isso que a vida exige de nós. Talvez uma pessoa que sai de casa sem ter um plano B guardado no bolso tenha mais chances de se perder do que alguém que dá dois passos para trás antes de tentar seguir em frente de novo. E foi aí que eu finalmente comecei a entender o porquê da surra que a vida estava me dando.

Só que tudo isso começa com o medo que a gente tem de quem se é e da vida que a gente tem. Das limitações que nos cercam, e de que nem sempre todas as possibilidades do mundo estarão ao nosso alcance. Que nós só temos dois braços que são pequenos demais para abraçar o mundo, mas que são perfeitamente aconchegantes para acolher outra pessoa que nos aceite. O medo atrofia a vida, impede o crescimento, e pode até anular um coração quando este não está disposto a sentir um pouco de frio antes da primavera. Porque uma hora dessas a merda vai atingir o ventilador, e vai fazer parecer que a vida não tem mais jeito. E aí você pode escolher entre sentar no meio-fio da calçada e chorar, ou aceitar que as coisas talvez não estejam do jeito que você queria, mas que nada te impede de tentar algo diferente.

Aí você me pergunta se eu quero tentar. Talvez eu não tenha a resposta que você esperava ouvir, mas o que eu te digo é isso: sim, eu quero. Talvez eu não seja o cara que você quer, mas eu quero tentar provar que posso ser o que você precisa. Tudo o que você precisa fazer é jogar o seu medo fora e segurar a minha mão. Se a vida nos falhar, e der merda por todos os lados, eu te ajudo a limpar. Eu não tenho muito o que chamar de vida, mas o pouco que eu vi me permite dizer que nada do que aconteceu foi o fim do mundo. E talvez as coisas fiquem um pouco mais fáceis se a gente tentar seguir em frente juntos.

Eu também tenho medo de tentar, mas talvez a gente consiga.