terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

A lei do desapego


*Postado originalmente em 20/01/2014, mas a lei ainda é vigente.

Nós vivemos em uma era de coisas. De querer cada vez mais coisas. De gostar de pessoas por causa de coisas. De tentar usar coisas para ocupar o vazio deixado por outras coisas. Por outras coisas de outras pessoas, que acabaram indo embora por causa de, bom, outras “outras coisas”. E quando isso acontece, o valor que associamos a essas coisas aumenta porque passamos para elas tudo aquilo que aquelas pessoas significavam, mas que agora não estão mais aqui para matarem a nossa saudade. Só o que sobraram foram as coisas, que de certo modo se transformam numa espécie de tesouro deixado para trás por elas. Tesouros que não conseguimos jogar fora, nos auto-censurando ao sequer pensar nisso pois, afinal, o que fulana iria pensar de mim se me visse jogando isto fora? É como se eu estivesse jogando fora o resto de esperança que ainda tenho em nós. Engraçado como nos livramos tão facilmente das pessoas, enquanto as coisas que ficam – as coisas que realmente podem ser jogadas fora – permanecem por muito mais tempo. Jogadas em cantos obscuros da casa e do nosso coração, mas que fingimos não ver porque – por algum motivo – ainda não estamos prontos para lidar com isso.  Como se coisas precisassem ser tão complicadas assim.

Baseado nesse espírito assombrador de ex-pessoas e as coisas que deixaram para trás, foi criada a lei do desapego. Desenvolvida em meados do século XXI por jovens que recém venceram o desânimo de voltar a viver – e reaprenderam a envolverem-se com, bom, coisas novas – e decidiram levar a famosa faxina de primavera a um novo patamar: o pessoal. Vão-se as velharias, ficam as novidades. Vão-se as amarguras, ficam os sorrisos. Toda vez que a minha mãe vinha para Cascavel e se hospedava na minha casa – e tomava posse do meu quarto porque a cama era melhor e, bom, porque aparentemente ela ainda tem essa autoridade, independente do endereço – ela fazia “A faxina”. A limpa de peças antigas do meu guarda-roupa que não servem para mais nada a não ser ocupar espaço, acumular ácaros e atrapalhar as peças de roupa dela que precisavam de cabides mais do que o meu museu de vestuários precisava de exposição. E como sempre tive que suportar a partilha de camisetas que tenho desde os tempos apocalípticos da pré-adolescência, calças que continham em si mais esperança de que eu ainda pudesse caber nelas do que uma real perspectiva dos meus novos e avantajados quadris de homem, e sapatos que... Ok, não havia nenhuma justificativa para continuar guardando aquele boot antigo com os cadarços estraçalhados a não ser pela preguiça de mexer naquele sapateiro. Bom, por preguiça e porque vi uma aranha se esconder ali alguns meses antes.

O que foi diferente naquela vez – e o que talvez aconteça bastante ao redor do mundo durante o fatídico primeiro dia de cada ano – foi que a partilha continuou, mesmo sem a minha mãe por perto gritando para reforçar meu desapego como um general ordena suas tropas a invadir o território inimigo sem piedade, e a se desfazer dos destroços dos outros combatentes sem dó. Ou então, foi apenas assim que eu me senti quando concordei em me desfazer de cinquenta tons de camisetas cinzas – que foram brancas um dia - que eu havia prometido a mim mesmo que continuaria usando nem que fosse só para dormir. Enfim, independente das ordens do sargento mãe, que já havia retornado à sua base em Londrina, havia sido dada a largada para o que viria ser o pequeno passo do aliviamento do meu guarda-roupa, porém um grande passo para a minha humanidade sufocada.

Quando menos percebi, junto aos tênis velhos e as camisetas rasgadas, também foram embora a dó desnecessária, a esperança infame e a piedade inútil que eu ainda segurava por pessoas. Pessoas que estavam de certo modo grudadas naquelas roupas, e sorrindo falsamente nos porta-retratos da minha estante, e sujando a já frágil santidade da linha do tempo do meu Facebook. O segundo passo da minha manifestação pessoal de revolta contra ser-contra o desapego veio de forma virtual, ao remover a opção “Desejo receber notificações dessa pessoa” em alguns perfis.

O que antes parecia algo tão mesquinho, tão idiota e tão teoricamente fraco de se fazer acabou me fortalecendo de maneiras que eu nem pensava que fossem possíveis. Eu não queria não ver aquilo porque era incômodo ou doloroso, mas porque eu finalmente havia atingido o estado espiritual de pura indiferença. A apoteose de um “foda-se” bem mandado junto ao zeitgeist de um bom desapego. Eu não quero saber da sua vida, porque suas atualizações mesquinhas, idiotas e fracas estão me atrapalhando a ver outras coisas de gente que realmente me importa. E coisas novas de gente que eu não conheço ainda, mas vai que...

Mas o ápice da minha marcha a favor do desapego veio mesmo com aquele guarda-chuva. Meses atrás quando eu era menos preocupado em ser inteligente e sensato, e mais preocupado em permanecer jovem e apaixonado, eu conheci alguém. Convenhamos que era alguém boa. Muito boa. Tão boa que até quis me dar amor em troca quando eu confessei que era isso que eu sentia por ela. E nós fomos felizes... Ah, como nós fomos felizes! Até não sermos mais. Até eu perceber que aquilo iria acabar mal, e até ela me fazer perceber que havia feito a escolha certa quando o seu “não” em resposta ao término se transformou rapidamente em mensagens menos amigáveis do tipo “você não significou nada pra mim mesmo” e “boa sorte para encontrar outra pessoa que te agüente!”. Ah, o amor...

Mas entre o nascimento e a missa de sétimo dia do nosso amor, houve um guarda-chuva. Um guarda-chuva que ela me fez comprar quando fomos surpreendidos por uma fria tempestade que nos empurrou para dentro de um supermercado enquanto esperávamos ela passar. E entre tentarmos aproveitar aquele tempo para passearmos e sermos bobos juntos, passamos por uma gôndola de guarda-chuvas. A maioria deles pretos básicos, e um preto com bolinhas brancas.
“Amor, compra esse!”
“Mas por que logo esse?”
“Porque é bonito!”
As coisas bobas que fazemos por um amor que está começando são diretamente proporcionais às atitudes drásticas que tomamos quando ele acaba. Acontece que mesmo depois do amor ter acabado e da ex ter desgastado toda a minha esperança de querer voltar a usar aquele guarda-chuva, aquilo continuou aqui, jogado em um canto da casa. E só era lembrado quando já era tarde demais e estava chovendo lá fora, e eu ficava entre engolir o orgulho e usá-lo, ou tentar usar meu orgulho pra não me molhar lá fora. Apesar de todas as coisas ridículas que eu já fiz nessa vida, eu não deixaria de usar um guarda-chuva só porque ele simboliza o irônico auge do nosso amor, e o souvenir assombrado que sobrou dele. E sim, eu sei o quanto dizer isso foi ridículo, e o quanto eu continuava a ser ridículo por não querer jogar aquele guarda-chuva fora. Até aquele dia.

Jogar o guarda-chuva fora não foi só jogar um guarda-chuva fora, igual se desfazer de roupas velhas não foi só se desfazer de roupas velhas e etc... Foi um grito de independência. Um ato de coragem e uma prova de desapego que serviu para ensinar a me desprender de tudo aquilo que estava empoeirado com saudade e jogado pelos cantos da minha casa, e que me fazia tropeçar em vês de seguir em frente e me concentrar em coisas mais importantes como, digamos, pessoas novas e ser feliz. É com isso que eu me importo agora, e você pode fazer parte disso ou não, mas coisas não importam mais pra mim. Apenas ações importam. Companhia importa. Sinceridade importa. Amor importa. Minha casa não é um mausoléu e um coração não é lugar para acomodar teias de aranha. A faxina só está começando, mas já me sinto respirando bem melhor. A garganta não tranca mais com falsas promessas e sorrisos tortos. De agora em diante só felicidade cabe aqui.

Coisas velhas não acrescentam nada se eu quiser ter mesmo uma vida nova esse ano, começando por uma ida à Renner. Preciso de roupas novas.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

O medo


Uma mulher irá te perdoar por tentar, mas ela nunca te perdoará por não tentar”.

Eu não sei de onde o meu amigo tirou isso, e olha que eu fui atrás de pesquisar se tal sabedoria partiu do Winston Churchill ou do Mahatma Gandhi para pelo menos atribuir uma fonte à pérola. Mas foi o que me marcou durante a nossa última conversa, enquanto eu pontuava os prós e contras de chamar uma garota para sair. Não se fala muito sobre a insegurança masculina por aí e independente da corrente filosófica que reprime tal sentimento, é preciso falar mais sobre isso. E mesmo que não seja, eu preciso falar sobre isso. Porque eu tenho medo.

É. Medo. Sabe o medo? É o que acontece bem antes de uma relação ser definida por um “eu te amo” ou um “visualizado às 14:15”. O medo de perguntar: “Quer sair comigo?

Depois dos vinte, relacionamentos ainda mantém uma natureza livre e desimpedida, mas já com algumas atribuições e pré-requisitos antes de qualquer partida a dois começar a ser jogada. Você já conhece um pouco mais sobre si mesmo para dizer com propriedade do que gosta ou o que não gosta, e as possibilidades passam por critérios mais bem estabelecidos. Salvo, é claro, as vezes em que o medo é inibido por matérias mais potentes – como o álcool nos finais de semana, as datas comemorativas e o “foda-se, hoje eu faço o que eu quiser” que é, comprovadamente, atemporal e inato a qualquer jovem de 24 anos que esteja se sentindo com pouco juízo e menos ainda a perder.

Mesmo subtraindo as expectativas, as experiências passadas e a aversão natural a qualquer coisa nova, chamar uma garota para sair sempre será um dos atos mais desafiadores na vida de um homem. Há estatísticas – abstratas, porém verdadeiras – que comprovam que isso só fica atrás da ressaca moral sofrida por mensagens enviadas na noite anterior sob o efeito de dezesseis chopes para sua lista inteira de contatos ou esquecer de responder seis chamadas perdidas da sua mãe. Coisas que, aos vinte, deixam de serem simples e passam a ser verdadeiros campos minados que devem ser trilhados com cuidado e meditação. Na verdade qualquer bebida alcoólica deveria conter uma bula similar a remédios que prescrevem evitar o uso de equipamentos pesados, especialmente alertando sobre os usos do celular ou dizer “eu te amo” após seu uso.

Querendo ou não, chamar uma garota para sair sempre será o prólogo de alguma coisa. Um amor para recordar, um contato a ser evitado futuramente na agenda do celular, ou um eco do movimento modernista sobre “a vida inteira que poderia ter sido e que não foi”. Como escritor em treinamento, minha propensão é de sempre traduzir qualquer aspecto da minha vida para a literatura, nem que seja para dar um ar um pouco mais romancista a uma relação que teve tudo menos isso. Mas seja lá qual for o seu contexto, não me diga que a insegurança não te alcança a cada vez em que alguém novo inicia uma nova conversa com você, em que ainda não há um histórico para se amparar.

Porque hoje em dia tudo é criptografado, digitalizado e armazenado, para você nunca se esquecer de que o passado não é só uma sentença, mas um cabeçalho no qual você se apóia para tentar decidir se arrisca um novo “oi” ou se espera porque “é a vez dela” de tentar se arriscar em você.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

O coração de rodoviária


   Eu sou uma constante. Pelo menos é assim que eu me sinto. Mas calma, eu vou explicar. Tudo começou há alguns dias... Não, mentira. Tudo começou há alguns meses... Não, droga.

   Anos? Invernos? Eclipses? Ok, eu desisto. Eu não lembro como começou, mas seja lá quando tenha sido, definitivamente foi um catalisador temporário cujo fim iminente eventualmente encontrou o seu destino rarefeito. Porque as coisas que passam por mim invariavelmente acabam. Os lugares fecham ou se tornam inacessíveis, bem como as pessoas que eu encontro neles. Já escreveram sobre como o café esfria e o sol se põe, dentre outras tantas metáforas criativas para ilustrar todas as 150 maneiras de como o amor acaba. E sobre como ele acaba porque alguém decide ir embora. Bom, se algum dia houve um momento propício para escrever sobre coisas que acabam e pessoas que vão embora, este é o meu. Então, Igor, pare, pense e sinta bem o que você quer escrever, porque outras pessoas vão ler isso e talvez até se identifiquem. Talvez não ao ponto de gostarem das linhas que irão encontrar, e definitivamente não ao ponto de sentirem saudade o bastante para voltar, mas são sentimentos esparramados que serão juntados do chão e colocados em uma moldura virtual para futura admiração e arrependimento. Então pare, pense e sinta bem mesmo.

   E o que eu sinto? Bom... Ao contrário das metáforas cansadas sobre corações partidos, morangos mofados e vidas secas, eu me sinto carregando um enorme e frustrante coração de rodoviária. Completo com todos os embarques e desembarques que as pessoas da minha vida já fizeram ao chegarem até mim de algum lugar, algum lar longínquo, alguma outra desilusão amorosa, até decidirem seguir em frente e partirem rumo a sua próxima aventura. Particularmente, eu sempre detestei ter que me despedir de alguém através da janela de um ônibus. Para mim era sempre o fim. Mas essa é a ironia do fim, porque assim como eu sempre me sentia partido a cada partida, não era preciso que o ônibus percorresse cem quilômetros de lágrimas até que eu finalmente me acalmasse e caísse no sono. Porque esses fins, essas despedidas, nunca são realmente o fim definitivo. São como intervalos, entre uma aventura e outra. Uma vida e outra. Mas não é essa sensação de desbravamento e esperança que me faz sentar, sentir e escrever essas coisas. É a sensação de quem fica para fora do ônibus, acenando tristemente enquanto ele deixa a rodoviária e uma vida toda para trás. Eu costumava escrever muito sobre seguir em frente, despedidas e tudo mais, porque era fácil para mim. Certa vez fui eu quem me despedi. Agora a vida é outra; é a vida de quem fica, e de quem sinceramente não sabe bem o que fazer com isso. O lado ruim das constantes é que elas não possuem outra direção, muito menos um espelho retrovisor. E por mais que outras pessoas sempre pudessem contar comigo, isso nunca se mostrou muito recíproco. Tudo acaba.

   E talvez seja o denominador em comum sobre todas essas coisas que realmente me incomode: tudo acaba, mas não por escolha minha. E aceitar que a vida é composta por ciclos, interlúdios e aventuras passageiras parece mais vazio do que inspirador. Eu queria que algo além de mim fosse constante. Queria que as pessoas ficassem. Ou então, queria que partissem e me levassem com elas. O que me deixa com um enorme ponto de interrogação; se tudo acabou, tudo pode começar. Mas o que começar? Como começar? Onde começar? E com quem?

   Ter todas as possibilidades do mundo nas mãos parece desesperador. Eu posso ir embora também, claro. Para onde eu quiser. Posso voltar para casa. Posso estudar em outro lugar. Posso estudar fora do país. Posso abandonar tudo e fugir para uma cidade com praia. E, claro, eu posso continuar aqui. Coisa que constantes fazem como ninguém; elas se mantém. Mas até que ponto movimentos uniformes de vida continuam sendo sinônimo de resiliência? A estrada para a felicidade não é feita de curvas e desvios? Ou é preciso sempre seguir em frente, não importa o que aconteça, sem parar para dar carona pra ninguém? Por outro lado, é bom me sentir com tempo livre o bastante para questionar essas coisas de novo. Me faz lembrar de todo início de ano, sempre com os meus níveis de expectativa lá no espaço, e dos trancos e barrancos aos quais ele me joga até que eu entenda que a vida não vai ser do jeito que eu esperava que ela iria ser. Não, senhor. Ela vai ser do melhor jeito que eu puder levá-la conforme os obstáculos do caminho. Só que agora não se trata mais de obstáculos, mas do percurso. E enquanto todos vão embora, eu sou aquele cara que vislumbra permanentemente os guichês de empresas de ônibus, sem conseguir decidir para onde quer ir, ou se deve ficar onde está.

   Talvez eu devesse continuar por aqui por mais um tempo. Só até que algo aconteça. Porque alguma coisa sempre acontece. Algo sempre muda. É a benção e a fatalidade da vida. A vida que, por enquanto, pode ser o que eu quiser que ela seja, para onde quer que eu vá.

***

   Ironicamente, nunca me passou pela cabeça o fato de que talvez eu simplesmente não pudesse ir com você. Que você simplesmente não pudesse me levar. Que você precisava ir sozinha. Essa é a tragédia das despedidas. Só nunca saberei dizer ao certo o que dói mais: ser aquele que evita olhar pela janela para dar um último adeus, ou aquele que fica sozinho na plataforma com o coração partido.

   Seja como for: boa viagem.

*Postado originalmente em 23/11/2014.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O direito de ir e "devir"


   Eu acho que perdi o meu “devir”. Não, eu não escrevi errado – tanto é que o Word nem quis me corrigir automaticamente, diferente de quando escrevo meu sobrenome, Moresca, e ele insiste em querer corrigir para “Marisco”, mas tudo bem. A questão é que eu acho que perdi o meu “devir”. O que é “devir”, você me pergunta? Bom, mesmo que não tenha perguntado eu vou explicar. E mesmo que você já saiba o que é, vai continuar lendo mesmo assim. Porque nunca se sabe quando eu terminarei minha aparentemente breve explicação sobre este fenômeno da filosofia, sem que antes eu acidentalmente me perca um pouco na minha própria filosofia distorcida de vida, e suas respectivas ramificações dentro das entranhas da sociedade atual. Hum... Não, desta vez não. Ainda está cedo, só tomei uma xícara de café, e não me sinto tão aloprado e inspirado ainda. Sabe por que? Porque eu acho que perdi o meu “devir”.

   “Devir” é como o caminho para a felicidade; é uma instância filosófica que representa um processo de transformação do ser, de um estado simples e básico para uma matéria mais complexa e significativa. Igual, digamos assim, como um garoto de 17 anos que se muda para outra cidade sem conhecer nada nem ninguém, e apanha insensatamente do mundo real até que este passe a ter forma para viver nesta terra estranha de pessoas relativamente maduras, responsáveis e, até onde eu consigo perceber, melancólicas. Digam o que quiserem, contestem mentalmente tudo o que eu escrevo igual eu paranoicamente sempre imagino que vocês fazem, mas nada me tira da cabeça o paradigma de que, a medida em que nos tornamos mais adultos, também nos tornamos irremediavelmente mais trágicos. Seja pelas vontades que precisam ser postas em espera para que o que precisa ser feito tenha prioridade, ou pelos sonhos que precisam ser guardados no bolso para que a gente não tropece na realidade sem querer a caminho do trabalho, ou pelo amor que a cada vez mais se torna mais um detalhe e menos um foco de vida. Porque dá trabalho, é complicado e custa caro. E quanto a estes quesitos, já nos basta ter que correr para pegar o ônibus para o trabalho, bater um cartão-ponto no horário e economizar para conseguir pagar o aluguel e passar no mercado antes de voltar para casa. Todo dia, das 9 às 17h, exceto Domingos e feriados. Ou não, dependendo de quantos meses de aluguel estiverem atrasados.

   Quando digo que o “devir” representa um caminho para a felicidade, é porque quando se vivencia tal fenômeno, você já não enxerga mais suas tarefas diárias como trabalhosas, complicadas, difíceis ou melancólicas. Pelo contrário, você nem percebe o tempo passar enquanto está tentando equilibrá-las no ar, porque este malabarismo que a gente costuma fazer com a vida deixa de dar medo e passa a ser divertido de novo. Igual quando se era criança e um dia era pouco, era curto, para todas as brincadeiras que a gente sentia vontade. E quando digo que acho que perdi o meu “devir”, talvez queira mesmo dizer: acho que eu me perdi do caminho da felicidade. E antes que você pense alguma injúria ao meu respeito, desta vez eu já admiti de cara o quanto isto é melodramático.

   Eu me recuso a acreditar que só eu já me senti assim. Como se os dias estivessem curtos e esquizofrênicos. Para mim, que adoro uma rotina, esta falta de estabilidade tem sido deveras desafiadora. Só não desisto porque, mais do que divagar sobre melancolia, eu também adoro um desafio. Não necessariamente significa que eu seja bom em superá-los, mas em tempos como este de frio e vento que destrói todos os guarda-chuvas que eu tento comprar (seis, desde 2009, e a contagem continua), tentar superar desafios me parece um esporte muito bom para se praticar dentro de casa. E porque qualquer coisa é melhor do que fazer academia. Qualquer coisa.

   Mas o que eu quero dizer com tudo isto, é que eu sinto muita, mas muita falta daquela sensação tediosa de rotina. E agora eu sei que tem gente que lê a palavra “rotina” e tem calafrios; pude senti-los daqui. Mas a rotina a qual me refiro não é aquela declaração de morte cerebral que algumas pessoas assinam, e em seguida passam o resto da vida em um círculo vicioso de repertórios limitados e reações em cadeia de angústia mental que eventualmente causam com que a pessoa entre em um supermercado, se esqueça do que tinha que comprar, e acabe atirando em todo mundo.

   Eu me refiro àquela rotina mais sossegada, resultado de uma vida mais estável, igual a que eu costumava ter há alguns meses, antes de ter dito “desafio aceito!” muito alto e de ter comprado uma baita briga com a vida, que transformou o meu caminho para a felicidade em uma pista olímpica de obstáculos. E é isto que esses textos tem sido; sou eu, sinalizando mais uma vez, que “Ei, eu caí! De novo! Mas já vou levantar... Só mais cinco minutos...”. Só que isto me fez refletir sobre o verdadeiro significado do “devir”, e se ele deve ser mais uma conquista do que um direito. Só se sente a felicidade depois de cair, levantar e descobrir que é possível continuar seguindo em frente mesmo com o joelho ralado e um corte na testa – a princípio. Efeitos que só podem ser produzidos por aquela pista de obstáculos, patrocinados pela melancolia, que sempre tende a acompanhar os níveis de maturidade que a gente atinge ao longo da vida. Então, se eu estou me sentindo todo quebrado e machucado, mas ao mesmo tempo percebo o porque disto, e nem por isso desisto de continuar tentando ou de passar no mercado depois do trabalho para comprar mais leite antes de voltar para casa, isto significa que eu estive no caminho certo esse tempo todo?
  
   Há quem diga também que o “devir”, ao mesmo tempo em que representa um caminho, também contempla aquela sensação de cruzar a linha de chegada, olhar para trás e dizer distraidamente, “o percurso já acabou?!”. É a sensação de vitória, de conquista, depois de superar tantos desafios, e desviar de tantos obstáculos, e apesar de estar todo ralado e machucado, ainda ser capaz de passar no mercado depois do trabalho e voltar para casa com o leite e o sentimento de dever cumprido. Então, no fim, o “devir” acaba sendo mais uma consequência do modo como você percorre os caminhos que a vida te dá. Às vezes é divertido trilhá-los, às vezes nem tanto. Mas no fim do dia, toda vez que você estiver de volta em sua cama, enrolado na coberta e pelo silêncio do seu quarto, e imaginar “Que dia...”, esta é a prova de que você está mesmo no caminho certo, Igor. Todo mundo tem o direito de ir e “devir”, mas nem todo mundo se compromete a tomar uma direção. Bem ou mal, eu ando me mexendo. Sentir-se sem rumo às vezes faz parte, eu acho.

*Postado originalmente em 03/06/2014.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O modo aleatório


Eu queria ser uma pessoa melhor. Até aí talvez seja um sonho que todos nós temos em comum, mas veja bem: mesmo nos dias menos bem sucedidos em que eu sei que não dei o meu melhor, ofendi alguém aqui e ali, perdi a paciência mais vezes do que prometi que faria (pelo menos em Janeiro), ou até quando não me infantilizo por completo e exijo que o universo me faça o favor de se responsabilizar por não dar um jeito de apagar os erros que eu fiz, eu ainda consigo dormir tranquilamente à noite. Bom, exceto pelo calor, claro. Talvez Foz do Iguaçu seja mesmo abençoada por seu complexo turístico, mas seu ecossistema tropical impiedoso seja o preço que a gente paga por morar tão perto de uma das maravilhas do mundo. Enfim, o que eu estava dizendo? Ah, sim. Eu queria ser uma pessoa melhor, mas só nas questões mais introspectivas mesmo. Deve haver uma linha tênue entre a criatividade e o egocentrismo cuja qual eu provavelmente cruzo mais vezes do que deveria a cada vez que me ponho a decifrar os mistérios e incertezas da vida ao meu redor a medida em que pequenas ironias do dia a dia surgem no meu caminho. E eu sei que existe muita coisa errada por aí – a criminalidade, o buraco na camada de ozônio, a crise econômica mundial – e é por isso que eu sinceramente penso em ser uma pessoa melhor. Mas só no quesito de ter pensamentos introspectivos e linhas de raciocínio mais curtas. Porque o que eu quero dizer não começou com nenhuma grande crise mundial.

Começou com o meu iPod que estragou. Acredita nisso?!

***

Já vai para sete anos que comprei um iPod semi-novo que até hoje nunca soube aproveitar bem todas as funções que ele dispõe. Mas isso não me impediu de cometer os erros que todo mundo comete ao ser imprudente com aparelhos eletrônicos. Como acreditar fielmente que nada vai acontecer com ele apesar de todas vezes em que peguei chuva com ele no bolso, ou sempre que o derrubo no chão sem querer, ou desconto meus problemas pessoais no seu teclado touch e pouco a pouco vou desgastando a funcionalidade (e talvez até a paciência) seu microchip. Mas apear de mim, ele durou por anos mesmo com uma mancha preta na tela (resultado daquela vez em que o derrubei no chão da academia) e desgaste do botão para mudar de música - porque apesar de serem as minhas playlists pessoais, parece que no mundo lá fora nenhuma trilha se encaixa. E vou até deixar passar essa pequena metáfora sobre a condição humana referente a insegurança em padrões culturais ditatoriais , porque eu juro que pensei em algo maior do que isso. Bom, “maior” com base nos padrões que já estabeleci aqui. Talvez não irá mudar a sua vida mas se você leu até aqui, houve um momento em que eu já o fiz e ganhei parte da sua confiança no que compartilho aqui. Porque apesar de não parecer, eu me preocupo com o mundo ao meu redor e o meu impacto sobre ele...

Só que dessa vez fiquei mais preocupado com a tela do iPod que simplesmente ficou branca. Acredita nisso?!

***

É sempre decepcionante quando algo no seu dia dá errado. Claro que existem níveis extremamente diferentes nessa pirâmide, e até agora eu não escrevi sobre nada realmente grave que te convença de que isso é um problema sério – porque, bom, não é. Mas você há de concordar comigo que tem dias que você só vence a maratona de sair cedo de casa para ir trabalhar, sem esquecer dos compromissos paralelos que você precisa dar conta ainda em horário comercial – a consulta no dentista, a mensalidade da faculdade, as sete ligações não atendidas da sua mãe que está no centro e que te avisou que só ia te dar um toque para você retornar pra ela porque quem está interessado em ter aquele boleto pago é você e ela só fez o favor de ir ao banco pra pagar, já que você é um irresponsável que deixou ele vencer e agora a lotérica não aceita mais... Enfim, tem dias que você só passa por tudo isso sem ser preso por homicídio culposo com uma trilha sonora para te acordar pela manhã e para te acalmar quando volta para casa.

Quando a tela do iPod desistiu de mim, um único pensamento me veio em mente: “que saco agora ter que ir pra lá e pra cá sem ouvir música”. Até eu decidir tentar sair com meus fones de ouvido mesmo assim, porque mesmo sem a tela ele ainda estava funcionando; eu só não podia mais escolher o que queria ouvir. Ainda era possível usar o teclado até a opção “modo aleatório” e deixar que ele tocasse o que seu microchip bem entendesse. E foi aí que eu entendi...

A vida é aleatória. A gente tem a mania incessante de fazer planos e circular datas no calendário, e de achar que quando algo sai como planejado é porque “ainda bem que sou uma pessoa organizada.” Talvez você seja, mas é mais fácil estar incluso nas margens de erro do que nas metas projetadas quando o assunto é vida. Pessoas vem e vão, oportunidades falham, sonhos mudam e coisas quebram. E isso é só uma noção básica sobre o mundo ao meu redor, porque se entrar em todos os detalhes minuciosos, nenhum de nós jamais dormiria de novo. Pode parecer errado, mas sobrevivência às vezes depende de um pouco de egoísmo. Neste caso, de supervalorizar os próprios problemas em comparação com os dos outros. O que faz de nós “pessoas melhores” invariavelmente é nunca se esquecer de que existe um contexto muito maior do que nós e as músicas que ficamos esperando que toque no caminho de volta para casa, para fechar um dia difícil com um pouco de louvor.

Nem sempre a gente se lembra de que a vida mesmo toca a música que ela quiser. Ou você dança conforme o ritmo, ou ponto final. Quanto a isso não há alternativa ou assistência técnica que resolva. Mudanças são inevitáveis, mas parecem mais fáceis de serem aceitas quando a iniciativa parte da gente. Quando trocar de música nos é permitido, mas geralmente não é. E é aí que nascem as frustrações, o estresse e as crises existenciais. A vida nunca será do jeito que você quer que ela seja. Quanto mais cedo você parar de acreditar que poderá ser, ficará bem mais fácil se adaptar a outros ritmos.

Acredite nisso.