quinta-feira, 5 de novembro de 2015

O que você está esperando?

Minha mãe sempre me disse que paciência é uma virtude. “Virtude”, do latim “virtus”, traduz-se como uma disposição estável de praticar o bem, e “Paciência”, do popular “não tenho”, como a característica de manter um controle emocional equilibrado. Mas apesar de todas as definições, das origens latino-americanas e dos artigos em constante edição da Wikipédia, nada mudará o fato de que eu não sei esperar. Por nada.

Existem dois tipos de pessoas: as que esperam, e as que fazem esperar. Minha tragédia é a pontualidade. A devoção por datas e horas marcados, e de ser irrevogavelmente escravizado por elas e, convenhamos, talvez isso venha mesmo da disciplina que minha mãe sempre fez questão de impor. Mesmo que quando criança, enxergasse o tempo e o espaço de uma maneira muito mais relativa. O ponteiro do meu relógio biológico tinha seu eixo na minha preguiça – independente das conseqüências. Minha mãe saía para trabalhar e me deixava algumas tarefas a serem feitas até a hora em que ela voltasse para casa. E como toda boa criança ruim, eu as fazia às pressas no último segundo. É o instinto que a gente também carrega acidentalmente para a vida acadêmica, caso você também seja desses. Como identificar? Bom, olhe a sua volta. Se houver algum livro, apostila ou anotação ao seu redor referente a um trabalho que deve ser entregue na sua primeira aula amanhã, você é um dos meus. Seja bem vindo e não tenha pressa. Nossa condição é crônica e, ironicamente, atemporal.

E é no espírito de desrespeito com pretéritos passados que a relatividade se vinga de nós com o mesmo amargo que nós causamos nos outros. E vez por outras quem faz esperar leva um chá de cadeiras que servirá apenas para desgostos momentâneos, jamais aprendizados eternos. E talvez seja por isso que logo hoje, mesmo sendo mais atencioso com meu tempo e os dos outros, é que eu me sinta tão desconfortável quando percebo que estou à mercê da disposição alheia. A criança de ontem que sempre deixava o dever de casa para a última hora é o adulto de hoje que não suporta esperar cinco minutos por uma resposta no WhatsApp. O maior inimigo do homem é o próprio tempo que ele desperdiça. Só demora um pouco para que as pendências nos alcancem.

Eu percebo o tempo de uma maneira diferente hoje, e talvez o segredo esteja na maturidade que eventualmente vem com ele. O tempo não perdoa e você definitivamente irá repor aos outros pelos fôlegos que desgastou deles em outrora, mas a gente se acostuma com as esperas. Seja por que não há escapatória delas a não ser atravessando-as, ou quem sabe porque há algo a ser aprendido com elas. É daí que surgem os contos e teorias sobre o lugar e a hora certos para tudo nesta vida. E após recém completar 24 anos, eu tenho tratado o meu tempo como ele realmente merece: como uma preciosidade passageira. E ao julgar por tudo que já consegui realizar em apenas uma semana neste novo ciclo de vida – um retiro espiritual, aulas de culinária, marcar aquele tratamento de canal que andei evitando por meses – eu me sinto mais otimista com relação ao que mais há por vir.

O tempo não pára e não volta. O único caminho é adiante. E talvez por isso seja tão complicado conhecer alguém novo. Alguém que não sabe por onde você já passou e o que já viveu por aí. Alguém que precisa que você se apresente e preencha algumas lacunas sobre quem você é e aonde quer chegar, para que ele ou ela decida se quer seguir com você ou não. E é algo que pode ser cansativo, recontar a sua história de novo e de novo até encontrar alguém que se interesse pelo seu destino e siga viagem com você, enquanto você descobre a história da outra pessoa durante o trajeto. Mas esta é a nossa diretriz por aqui, e apesar da impaciência e do cansaço tomarem conta de nós às vezes, não podemos nos deixar sermos atrasados por elas. Eu sei que ainda sou muito jovem, mas nunca é cedo demais para aprender sobre o que é tempo bem gasto e o que é tempo perdido. E talvez eu fosse uma pessoa diferente hoje caso aquela criança de ontem tivesse sido mais organizada com todas aquelas tarefas de casa que deveriam ser feitas até as seis da tarde. Mas entre apanhar da mãe ontem e apanhar da vida hoje, melhor aceitar que aqui e agora seja exatamente aonde eu deveria estar.

Até porque, mesmo que não seja, só o tempo dirá.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Razões para acreditar


Existe um motivo pelo qual eu deliberadamente evito mencionar o nome de Deus em qualquer pedaço de rascunho que eu já escrevi por aí. E é tão simples quanto profundo: existem mais coisas entre o céu e a terra do que eu ousaria comentar de uma maneira tão vil. Algumas coisas são preciosas demais para serem definidas. E alguns nomes são sagrados demais para serem comentados em vão. Pelo menos é assim que eu enxergo as minhas crônicas. Crônicas que, pensando bem, nada mais são realmente do que depoimentos. E digo isto hoje porque depois de um depoimento em especial, tudo mudou.

Eu, como qualquer outra pessoa que também possa imaginar, sou alguém que sempre precisou de esperança. Fosse nos momentos bons ou ruins, esperança é algo que nos move o tempo todo. É o que nos tira da cama pela manhã e que nos ajuda a pegar no sono à noite. Porque apesar da cabeça já estar apoiada em um confortável travesseiro, às vezes o que se passa dentro dela está longe de ser reconfortante. As preocupações, as inseguranças, os medos e tudo mais que possa nos afastar de ter um momento de paz parecem ganhar suas forças à noite. Há quem diga que seja coincidência, mas eu aprendi que isto não existe.

Existe um plano. De alguém muito especial que nem sempre a gente se lembra de agradecer. Para falar a verdade, é alguém que muitas vezes eu parei para considerar sinceramente se estava mesmo por aí ou não. Mas Ele está e muito; só não aonde possamos vê-lo. Tudo nesta vida é providência, mas nem tudo é visível. São as pequenas coisas, os detalhes minuciosos, os enigmas do dia-a-dia que parecem insignificantes por não conseguirmos decifrá-los na hora em que passam por nós. Sempre existe algo a mais neles. O que, por sua vez, me fez reconsiderar a minha velha teoria sobre a minha vida sempre ter sido regida por ironias do destino e uma necessidade quase visceral de enxergar metáforas por todas as partes – e de tentar interpretar o que elas querem mesmo dizer. Metáforas que, do latim, talvez signifiquem mesmo parábolas. Histórias que Ele sempre contou aos seus discípulos, porque estes precisavam encontrar a verdade por si próprios em vês de serem empurrados ao caminho certo. Ele sempre soube a resposta – que Ele, inclusive, é a resposta – mas é preciso perseverar para descobrir isto. Felizmente ou infelizmente, isto não é para todos. E por muito tempo também não foi para mim.

Desde quando consigo me lembrar, de que me conheço por gente e de que me atrevo a colocar-me diante de mim mesmo para tentar decifrar o que as coisas que acontecem comigo querem mesmo dizer, eu me senti quebrado. No sentido de que nunca consegui encontrar as respostas, nem mesmo o caminho que pudesse sentir que fosse o meu a ser trilhado. O lugar certo e a hora certa pareciam sempre estar a um amanhã de distância que nunca chegava a conhecer. Mas há um plano: o problema está em achar que este plano é nosso.

Quando eu paro pra pensar sobre isto hoje, eu consigo perceber tão claramente quantos sinais já passaram por mim. Alguns ainda pude compreender e os segui adiante, enquanto outros optei por ignorar por pensar que estivessem destinados a outra pessoa. Como alguém que acena para nós na rua e a gente pensa que é pra gente, depois tenta disfarçar quando percebe que era para o cara do lado. Tem sido uma vida inteira disso. Mas eu sempre estive sendo movido por algo. Por Alguém que sempre soube o que estava fazendo, mas que antes de que qualquer coisa pudesse acontecer, precisava que eu percebesse isto também. O que explica perfeitamente os momentos que considerei como desvios de percurso.

Como eu disse em meu testemunho – que posso considerar como o divisor de águas na minha vida entre um mundo antigo e o novo – eu demorei muito para chegar até aqui. Em parte porque não sabia para onde queria ir. Também porque não queria muito saber, nem por quanto tempo eu continuaria vivendo assim. Sentir-se quebrado significa que não há nada a perder e que tudo é possível, até o ponto em que senti a minha esperança acabar. Foi o que mexeu comigo. E me fez pensar que havia uma vida aqui que não estava sendo aproveitada conforme foi abençoada para ser.

Eu não queria mais ser quebrado. E quando eu menos esperava, gostaria de dizer que eu o encontrei. Mas não. Ele me trouxe de volta. Na hora e no lugar certos, conforme a Sua vontade.

É claro que eu ainda cometerei erros. Que haverão momentos de medo e dúvida. De solidão e de fraqueza. Eu nunca quis me considerar muito humano com os outros, muito menos comigo mesmo. Pela mesma fraqueza que eu sempre evitei admitir que possuo. Mas nós somos humanos no final das contas. Felizmente a fraqueza não é o que nos define. O amor nos define. O Seu amor.

Eu não quero parecer hipócrita em escrever estas coisas, depois de tantos anos evitando e renegando algo que parecia inexistente. Só que nada mais pode explicar tudo o que vivi e que me trouxe até aqui, são e salvo. Era um plano. Apenas não era meu.

Por mais que eu pense que demorou muito para que eu chegasse até aqui, Ele sabia que levei o tempo que precisou. Enfim, com alegria e gratidão, eu me sinto curado. Ainda sou eu: falando coisas impróprias em momentos inoportunos, cometendo erros que já cometi antes, sentindo frustrações, raiva, angústia e tristeza que não deveriam me pertencer. Mas eu me sinto diferente. Desta vez quando eu penso que nós ficaremos bem, no fundo do meu coração eu acredito.

Eu cheguei. Por Deus, eu cheguei. Obrigado.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

O amor da sua vida curtiu sua foto


Houve um tempo em que o flerte costumava ser artístico. Algo respeitoso, singelo, carinhoso. Um começo poético e inocente para se contar às crianças, anos depois, quando estas perguntassem como os pais se conheceram. Mas os tempos mudaram desde o fim da Renascença e a ascensão da Revolução Sexual, e alguns valores foram perdidos entre uma mudança e outra. Outros foram realocados, mas nunca mais soaram como outrora. E digo isso com pesada poesia porque, ultimamente, não há mais nada de romântico em flertes. E se, hipoteticamente, meus filhos inquietos insistirem em saber como eu conheci a mãe deles, é melhor ter uma história melhor para contar do que, digamos, algo do tipo: “Papai encontrou Mamãe no Tinder. Mas ela não era muito de puxar papo...

Há quem diga que relacionamentos são jogos de poder. E ao contrário do que já acreditei um dia, isto me parece bem mais plausível agora. A única coisa que ainda não consigo compreender ao certo são as regras. Se é que elas existem. Mas se relacionamentos estiverem mesmo baseados em jogos, ganha aquele que, discretamente, jamais demonstrar que está jogando. Achou confuso? É bem mais simples na prática.

Situação #1: O Amor Da Sua Vida (até então) posta uma nova foto no Facebook. Enquanto você está viajando aleatoriamente em sua linha do tempo, encontra a foto dela – linda, perfeita, incrível e, surpreendentemente, ainda intocada por todos os seus outros fãs. Atualizada há cerca de cinco minutos, próxima de você, ainda não há “curtidas” para esta foto. Você:

a) Decide ser o primeiro a “curtir”, inocentemente.
b) Decide esperar para que outra pessoa seja a primeira a “curtir”, já que ela obviamente sabe que você gosta dela e “curtir” imediatamente sua foto demonstraria certo desespero da sua parte.
c) Deixa a foto passar batido por você e volta ao que estava fazendo – mesmo que não estivesse fazendo nada. Aliás, decide até arrumar o que fazer.
d) Salva a foto em uma pasta obscura do seu disco rígido (provavelmente nomeada apenas como “Nova Pasta” para evitar suspeitas) e opta por fazer da foto do Amor Da Sua Vida o seu novo papel de parede do Desktop. Caso a foto não fique muito distorcida, providencia um pen-drive para levar a foto a uma gráfica para encomendar uma dúzia de camisetas com a foto dela para usar quando encontrá-la “acidentalmente” ao rondar a casa dela até o momento em que ela precise sair para sua aula de pilates toda terça-feira às quatro e quinze da tarde.

Particularmente, eu não vivo à mercê das minhas inseguranças. Pelo menos não o tempo todo. Mas já vivi algumas situações interessantes em que algo deste tipo demonstrou um interesse exacerbado da minha parte perante alguém – assim como já descobri interesses alheios em mim através de uma cuidadosa análise estatística de “curtidas” e comentários em minhas postagens mais recentes, voltando até os primórdios de 2011 onde a última moda em flertes resumia-se em “cutucar” alguém. E eu acho engraçado o quanto isto parece bobagem quando tento estipular uma espécie de fundamentação teórica acerca das técnicas e jogos de sedução da contemporaneidade, quando a verdade é única e atemporal: não existem jogos, nem artimanhas, nem esquemas, nem estatísticas, nem nada em se tratando de relacionamentos que indiquem quem está mais afim de quem ou algo parecido.

Nenhum de nós sabe o que está fazendo. E se achar que sabe, está blefando.

Mas nós insistimos com os joguinhos, os olhares, as conversas ensaiadas no espelho antes de encontrar o Amor Da Sua Vida no corredor da faculdade, porque a sensação de poder é o mais próximo que temos de nos sentirmos seguros sobre nós mesmos. Porque demonstrar interesse em alguém é e talvez sempre será o momento mais vulnerável que podemos vivenciar. Como andar na corda bamba sem uma rede de proteção lá embaixo, precisamente posicionada para nos reconfortar caso a recíproca nunca chegue e sejamos forçados a pular para evitar o discurso do “vejo-você-só-como-um-amigo”.


Os constrangimentos também adquiriram sua versão online: é só tirar o “visualizado por último” do WhatsApp e tomar cuidado para não ligar para a pessoa sem querer enquanto estiver babando na foto ampliada do perfil dela. Ah, a humanidade.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

A promessa

Eu tenho uma meta. E ao contrário dos meus outros objetivos mais egocêntricos, este é exclusivamente sobre você. E é bem simples na verdade. Você não pode crescer e ficar igual a mim. De nada.

O que eu quero dizer, realmente, talvez tenha mais a ver com aquela tal maturidade que finalmente me alcançou com o passar do tempo. Por mais que eu mesmo tenha tentado fugir disto por anos. Mas o inevitável aconteceu. Sou algo mais próximo de um adulto emocionalmente maduro do que eu pensava que seria um dia. O que não necessariamente faz de mim um bom exemplo a ser seguido. Mas é o que você tem e, sejamos sinceros, eu poderia ser bem pior.

O que me leva ao que eu vejo em você; não a menina com quem agora eu brigo porque nunca, jamais, em toda a sua pequena existência, lembra de não deixar o tapete no chão do banheiro. Ou de encher as garrafinhas de água – e de não criar uma unidade abandonada de reciclagem com elas no seu quarto. Ou de tirar o lixo toda vez que a tampa não estiver mais fechando. Ou de... Enfim, você entendeu onde quero chegar com isto.

O que eu vejo em você é uma promessa. Da adulta que está por vir. Da mulher que você será. Da profissional, estudante, ridiculamente culta e horrivelmente invejável que você está a caminho de se tornar. E é por isso que eu brigo, grito, implico, faço caretas, comentários sarcásticos e talvez até desnecessários, toda vez que vejo você dar algum passo em falso ou ouço você dizer algo sem pensar. Porque imprudência, instabilidade e irracionalidade são marcas registradas minhas há bem mais tempo do que poderiam ser suas. Então deixe a impulsividade para mim, por favor, e continue se preparando para ganhar a vida lá fora.

Porque a promessa que eu vejo em você é importante demais para ser desperdiçada. Você está prestes a conhecer um mundo muito maior do que imaginou que pudesse existir, e eu quero estar do seu lado nem que seja ao menos para te orientar sobre o que não fazer. O que basicamente seria, bom, quase tudo que eu já fiz até hoje. Você pode fazer melhor. Não. Você irá fazer melhor. Porque você, com seus livros, sua inteligência, sua criatividade, sua essência única e sua capacidade absurdamente impecável, me deixa orgulhoso em tudo que faz. Até mesmo quando faz com preguiça e quanto a isso eu não posso te culpar. Você tem a quem puxar em matéria de procrastinação. Muito prazer.

Enfim, quando eu digo que certas coisas precisam ser comemoradas, é porque o pouco que eu já sei da vida me basta para te dar certeza de que esses momentos não voltam. Independente de como as coisas estejam agora, você sabe que felizmente o nosso mundinho não está tão ruim assim. E que você não está sozinha, até mesmo quando não quer conversar. Fique brava comigo. Entre em um coma induzido por seriados comigo. Conte comigo. Porque agora eu estou aqui, perto de você, para ajudar e protegê-la sempre que você se sentir farta ou perdida. E me escute quando eu digo que hoje, o seu dia, não é uma terça-feira qualquer. É o dia em que, anos atrás, nossa família teve uma grande vitória quando você chegou até nós. Isto merece comemoração. Ou, se preferir, apenas um brinde em especial.

À você, minha irmãzinha. Com quem eu sempre irei brigar, e também com quem eu conto, para que se torne cada vez melhor. Este é o meu papel como irmão mais velho, o mal exemplo, o que aprendeu muito da vida até agora do jeito mais difícil. Com você será diferente, eu tenho certeza. Pra começar, você tem o bom hábito de ler as instruções e as regras antes de começar qualquer coisa.

Mundo real: 0 x Vitória: 1.

domingo, 18 de outubro de 2015

Não há ninguém perto de você


Eu conheci alguém.

Não comentei com ninguém, porque parecia que não ia dar em nada. Foi só uma conversa, num dia desses. Ela me disse “Oi” e eu respondi. Nos falamos por um tempo, e eu pensei que ia ficar naquilo mesmo. Afinal, já vi tantos “Oi”s passarem por mim com promessas de terem algo mais a dizer, sem nunca mais ouvir nada, que já não me comovo tanto com apresentações. Depois de um tempo você até decora um pequeno parágrafo para apresentar-se a outra pessoa, para agilizar o processo. Mas, daí, no dia seguinte, acabamos conversando de novo. E sabe aquelas conversas que duram horas, mas que você nem vê passarem? E por mais que vocês falem, parece que o assunto nunca acaba. E quanto mais você descobre sobre a pessoa, mais intrigante ainda ela fica. Você procura saber mais e mais.. E quando vê lá se foram mais algumas horas.

No dia seguinte eu acordei com um “bom dia” dela. Assim, do nada. Não estava esperando e não respondi por um tempo. Não queria que se tornasse algo daquele tipo. Do tipo que se acorrenta às mensagens de “bom dia” e “boa noite”, e qualquer outra coisa que aconteça no decorrer do dia estará proporcionalmente nivelado com aquele símbolo de mensagem nova pela manhã, e com aquele último som do celular no criado mudo à noite. Avisando que ela já estava indo deitar, mas que, antes disso, pensou em mim. Logo eu, que tenho uma fraqueza por nostalgia, não resisto quando alguém diz que se lembrou de mim.

Aí ela disse que queria me ver. Fiquei um pouco nervoso com aquilo. Não. Mentira. Fiquei muito ansioso com aquilo. Porque a gente vê tanta coisa incerta por aí. Tanta discórdia, tanta bagunça. Mas às vezes no meio do caos, aparece uma saída. E em relacionamentos, é comum acreditar que só vingam mesmo aqueles que estão livres de qualquer expectativa. Os que começam de uma hora para outra, continuam sem aviso ou direção, e que quando a gente finalmente pára pra ver, já se passaram semanas, meses, anos. Vidas em lados opostos que de repente se esbarraram e passaram a evoluir em conjunto. Com um “oi”, seguido de um “bom dia”, até finalmente um “estava pensando em você!”. E agora a gente vai se encontrar... Uau.

***

Caso você nunca tenha relatado algo similar para algum amigo seu em segredo dos seus outros amigos em comum, fosse por vergonha ou desesperança, meus parabéns. Você faz parte de uma raça mais desenvolvida emocionalmente que possui uma compreensão mais sincera e realista dos relacionamentos humanos, independente de atualmente fazer parte de um ou não. Ou talvez você só não tenha espaço de armazenamento suficiente para aplicativos supérfluos no seu telefone, o que também é perdoável. Agora, meu amigo, se você possui a última atualização do Tinder instalada no seu iQualquerCoisa, então chegue mais perto. Vai ficar tudo bem.

Não, eu não conheci ninguém. Na verdade até já conheci algumas pessoas, sim. Mas ao contrário dos anúncios que eu já vi por aí, do tipo “encontrei-o-amor-da-minha-vida-em-uma-rede-social!”, meus amores foram tão eternos e estáveis quanto um sinal de Wi-Fi. Que fique registrado: eu acredito sim que vários casais já se encontraram nos Tinders, Badoos e Pares Perfeitos da vida virtual. E renego todo e qualquer julgamento que possa ter sobre isso. Porque, convenhamos, eu só não tenho a última versão do Tinder instalada porque meu armazenamento não permite. Mas isto não faz de mim nem melhor, nem pior do que ninguém. Apenas humano.

A gente brinca muito sobre isso. Eu mesmo poderia descrever abaixo uma série de contos das minhas próprias desventuras na terra dos relacionamentos imaginários em suas versões para Android. Mas ao contrário do humor – que eu jamais vou negar que existe nessas coisas – eu consigo enxergar o porquê de existirem tantos canais para tentativas de relacionamentos entre pessoas. E é o mesmo motivo que te irrita quando o próprio Tinder parece desistir de você ao mostrar aquela mensagem:

“Não há ninguém perto de você.”

Eu sei disso, Tinder! Por que acha que estou aqui, no fim do meu dia, já deitado e tentando pegar no sono, insistindo em deslizar meu dedo para esquerda e para a direita nas fotos que aparecem em você?! Agora pare de me humilhar ainda mais e carregue logo mais perfis para que eu encontre logo o amor da minha vida. Ou será que vou ter que reiniciar o modem de novo?!

Talvez no fundo eu ainda seja um otimista sobre amor e relacionamentos. Por mais que eu não tenha a menor noção de como essas coisas realmente funcionam. Mas o que leva as pessoas a fazerem o download desses aplicativos, ou a preencherem questionários virtuais sobre quem são e o que procuram, ou a marcarem encontros com pessoas sobre as quais só possuem pequenas notas e pistas de quem são, é porque elas estão tentando se conectar com alguém. Porque não há ninguém por perto e às vezes seria bom ter. Porque parece tão ruim admitir isso?

Eu admito já ter ultrapassado a minha cota de primeiras conversas, relacionamentos imaginários e franquias de internet no celular ao conectar o Tinder em um lugar onde não há Wi-Fi. Eu admito que já estive e muito à procura de alguém, mesmo que fosse só para trocar algumas idéias, ou quem sabe até marcar um encontro. Um jantar, um cinema, um drinque. São necessidades humanas que nós mesmos reprimimos porque parecem indecentes. Sentir-se só, no fim do dia, já com as luzes apagadas e com o resto do mundo offline até a manhã seguinte... Seria bom ter alguém para conversar. Alguém novo. Alguém por perto. É por isso que a gente continua tentando. Nem que seja para ter alguma história para contar depois.

Não, eu não encontrei o amor da minha vida no Tinder, nem em qualquer outra rede social. Mas as mulheres que conheci – e as que não conheci propriamente, também – ainda me inspiram a continuar tentando. E talvez esta seja mesmo a graça: a procura. Porque amor, amor mesmo, não pode ser algo que seja possível perder para sempre caso a nossa internet se desconecte sem querer antes de que eu possa lhe oferecer um coraçãozinho verde. Acho que é algo mais profundo que isto.