quinta-feira, 12 de maio de 2016

O sonho impossível


O mundo não é mais um lugar romântico. Algumas pessoas, no entanto, ainda são, e a elas cabe uma promessa: não deixe o mundo vencer.

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Depois de ler incontáveis romances, um homem aparentemente comum decide trazer de volta o cavalheirismo e reviver o sonho de um mundo justo e correto, duelando contra inimigos tiranos e salvando todos aqueles que se encontrem em apuros, acreditando que sua bravura será reconhecida e recompensada por aquela que ele considera como a mulher da sua vida. Esta é a trama do épico “Dom Quixote”. E o que me assusta não é conhecê-la tão vividamente sem sequer ter lido o livro, mas já ter passado alguns anos tentando recriá-la na minha própria vida.

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A adolescência é uma selva. Uma luta por sobrevivência constante – ou pelo menos é assim que a gente se sente, entre mãos tremulas durante apresentações de trabalhos, potes de cremes para espinha que parecem tão funcionar magicamente da noite para o dia como nós precisávamos que funcionassem, e fantasias remotas com a garota mais linda da sala com quem nós absolutamente nunca realmente teríamos uma chance – então pra quê tentar? E é nesse contexto em que traços marcantes da nossa futura personalidade adulta começam a ser desenhados. Traços definitivos que ecoaram pelo resto da nossa eventual maturidade, sejam eles originados por traumas do que fizemos, ou por arrependimentos do que poderíamos ter feito. Tanto um quanto o outro podem ser justificados pela nossa própria natureza, invariavelmente despreparada para responder às exigências do mundo real na maioria das vezes.

O problema é o seguinte: mais cedo ou mais tarde, todos nós crescemos. O próprio tempo nos empurra pra frente a cada dia. Os tremores se acalmam e as espinhas secam, mas os sonhos... Bom. Alguns sonhos permanecem. E ao contrário das roupas e calçados, nem sempre é evidente quando alguns sonhos já não nos servem mais. O que me leva a admitir algo que há anos vem sendo esquivado ou desconversado por mim mesmo, entre posts sobre louça suja e as lamúrias da existência.

Meu nome é Igor e eu ainda sonho com a mulher da minha vida.

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Eu me lembro de ter 14 anos e passar dias e noites escrevendo sobre amor. Um amor, ainda que na sua forma bruta e contraditoriamente mais pura, que eu considerava existir na forma da Dulcinéia – a garota mais linda da primeira série do colegial. E por muito tempo eu tentava conquistar a Dulcinéia com as minhas façanhas literárias, declarando sempre que era ela a minha musa inspiradora, e que não haveriam obstáculos que não poderiam ser conquistados caso ela me concedesse uma chance de provar que eu poderia ser o seu cavaleiro. Vale ressaltar aqui também que não há muita diferença entre o colegial e a Idade Média – em escala emocional, é claro.

Mas independente dos meus apelos e dos gigantes que eu estava disposto a enfrentar para ficar com ela – desde a minha mãe, que sempre achou que “aquela menina não é boa o bastante para você”, os meus amigos que tentavam me lembrar de que ela tinha outros pretendentes bem mais bravos e belos, até as amigas dela que tentavam me consolar ao confessar as palavras que Dulcinéia havia repassado a elas: “Ela não vê você de uma maneira romântica...

Era inconsolável e irremediável o quanto eu não queria desistir. Ou o quanto eu sentia que não podia desistir. O que me levava a escrever inúmeras cartas de amor, e a traçar a épica jornada que parecia haver entre a minha casa e a dela, para que eu pudesse entregar tal mensagem diretamente ao seu castelo, e rezar para que os meus apelos fossem aceitos. Para que a sua misericórdia fosse tão majestosa quanto a sua beleza. Um apelo que, por fim, nunca foi aceito.

Anos depois, eu me mudei para um novo condado e aos poucos deixei de receber notícias sobre Dulcinéia. Meu amor por ela, no entanto, parecia só aumentar com a distância. A saudade é o combustível mais potente que existe para inflamar chamas que, vez por outra, causariam menos estragos se fossem apagadas de uma vez.

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Tudo isso parecia muito épico e grandioso para mim, dez anos atrás. A verdade é que durante todo o colegial eu fui apaixonado por uma garota da minha sala, e que partiu meu coração ao dizer que só me via como um amigo. Hoje, até onde eu sei, ela está casada, tem um filho, e está bem feliz ainda na mesma cidade em que nos conhecemos. Seu nome não era Dulcinéia; este é o nome que Miguel de Cervantes usa em sua obra, “Dom Quixote”, para construir a imagem do amor inatingível que motiva o seu protagonista a uma busca incansável por ela através de duelos contra o que ele considera ser gigantes inimigos, mas que não passavam de alucinações criadas de imagens distorcidas de moinhos de vento.

E no final da história que serviu de base para os anos formativos da minha imaturidade e minha literatura, também não poderia haver uma metáfora melhor para ilustrar o que eu preciso fazer agora. Não existem amores inatingíveis ou gigantes que nos impedem de alcançá-las; apenas pessoas ordinárias e moinhos de vento. Assim como dizia o nome da canção que Dom Quixote dedicava à sua Dulcinéia, é preciso finalmente admitir o inevitável: mais cedo ou mais tarde, todos nós precisamos crescer – até mesmo emocionalmente. E alguns sonhos, infelizmente, são mesmo impossíveis.

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O mundo não é mais um lugar romântico. Algumas pessoas, no entanto, aprendem a se adaptar a ele. E talvez na saudade de um sonho, ainda perdure uma promessa.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

O amor nos tempos da gripe

A troca das estações sempre traz junto consigo seus efeitos colaterais microscópicos. E eu sei que já faz algumas semanas que os noticiários vêm cobrindo os mutirões em prol da época de vacinas, para prevenir que fiquemos todos à mercê da H1N1 que toma conta do ar rarefeito. Mas nenhum aviso ou estatística se compara a minha teimosia de tentar sobreviver ao outono/inverno sem precisar esperar em uma fila quilométrica para tomar uma vacina que, segundo o folclore do senso comum, nem previne tantos vírus quanto é noticiado. Claro que a veracidade disso não importa agora; é tarde demais para mim. Já faz algumas semanas que sofro as conseqüências de mais um ciclo de gripe. E eu não me importaria de apreciar a ironia disto, se não estivesse tão ocupado tentando respirar. Sabe; para permanecer vivo. Ainda há tantas ironias a serem sofridas pela frente.

Tosse, coriza, dores de cabeça. Os sintomas habituais da gripe podem ser combatidos com fármacos e cappuccinos, mas nada pode realmente combater os efeitos colaterais dela: a falta de vontade de sair da cama, a insuficiência temperamental, a inveja de quem não precisa evitar tomar nada gelado. E o repouso é fundamental; pegue leve na rotina e não se deixe levar por estresses infames. Coisa que seria muito fácil se, né, eu não fosse do jeito que eu sou. Intrinsecamente incapaz de evitar a fadiga.

Por conhecer minha própria biologia há algum tempo, em se tratando de ciclos de gripe, imaginei que desta vez não seria diferente: começaria com os olhos lacrimejando com facilidade, somado ao combo da rinite + alergia por usar as blusas que permaneceram guardadas na gaveta do guarda-roupa desde o inverno passado. Logo teriam algumas dores de cabeça, espirros constantes, garganta arranhada, tudo culminando em um dia especialmente enfermo cujo qual eu passaria na cama, alucinando com a volta da minha saúde e o sentido da vida. O problema foi que desta vez o ciclo se quebrou, e não de uma maneira que a minha psicologia comportamental gostaria de contemplar. Em vez de uma recuperação mais rápida, os dias enfermos se multiplicaram. Tudo graças a um fator irremediável por qualquer farmácia: o emocional.

Antes, um breve conceito: sintomas psicossomáticos são aqueles que surgem a partir de problemas emocionais que são refletidos diretamente no corpo. Logo, quando você não está se sentindo bem por alguma razão emotiva, seu corpo traduzirá isto como uma dor de cabeça, um mal estar estomacal ou – como é de praxe durante esta estação – um ciclo de gripe aparentemente inabalável. Não há nada menos aconselhável para alguém doente do que um relacionamento mal resolvido. É a incubadora mais potente para estender a permanência de um vírus em um corpo já vulnerável. O que poderia ser mais perigoso do que um coração aberto?

Eu admito que tenho os meus vícios – uma cervejinha a mais aqui, um cigarro de vez em quando, e um relacionamento inatingível para acompanhar os meus instintos de auto-destruição, coisa que a psicologia também dita que é inerente a cada um de nós. Nossas manias de fazer mal a nós mesmos – seja esquecendo de tomar um remédio no horário certo ou revisitando o perfil daquela ex no Facebook – são diretamente proporcionais aos nossos instintos de sobrevivência. Não é o sistema mais funcional que existe, mas é a única psique que nós temos e, com ela, a sua eterna missão: manter um equilíbrio emocional em cheque, ou morrer tentando.

Apesar de toda a biologia e psicologia envolvida, eu percebi o quanto eu arrisco demais a minha saúde por amor a causas e pessoas perdidas. E o quanto talvez valeria mais a pena tomar cuidado com quem eu permito que se aproxime do meu coração, para não deixá-lo exposto a viroses e pessoas infecciosas. Talvez eu esteja exagerando, mas há uma verdade biológica inquestionável aqui: seu corpo sempre irá combater partículas que considerar suspeitas ou malignas. Por que então resistimos em fazer uso deste mesmo conceito sobre as pessoas com quem nos envolvemos?

Quanto a mim é fácil responder: meu nome é Igor e sou um viciado em amor.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

A noite


Pôr do sol. Tire os sapatos. Suspire fundo.

O dia acabou. Prepare um drinque. Coloque um som. Encontre um lugar confortável. O som ambiente. A ausência da luz. Acenda um cigarro. Uma faísca para perfurar a escuridão. Observe a vista da sacada do apartamento. A primeira estrela surge no céu. As outras logo a seguirão.

Que tipo de dia foi hoje?

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O que está acontecendo comigo? Quando foi que os dias se tornaram tão longos? Mas esta vida é tão curta! Prepare outro drinque. Tome outro suspiro. Relembre como tudo começou. Como chegou até aqui. Amanhã é outro dia...

Outra coisa? Outra vida.

De onde veio aquela estrela? Para onde ela vai? Para onde você vai? Por que a música parou? Acabou o CD. Mais uma vez.

Um dia você também vai parar. Haverá outra vez? Não sei dizer. Não pense nisso. Não pense em nada. Por que não fecha os olhos? O amanhã não pode esperar?

Por onde você anda, meu bem?

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Chega disso tudo. Não toque nessa garrafa. Não acenda outro cigarro. Não olhe para cima. Há algo no céu? Está tudo escuro. Quer dizer, estava.

Há algo no horizonte. Algo que já vi antes. Não estou preparado para isso. Mas não depende de você. E as olheiras serão sua herança.

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Nascer do sol. Coloque os sapatos. Suspire fundo. Não existe mais amanhã.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

O verdadeiro eu


Você é o que escreve. Não é a toa que ultimamente ando vivendo com base em edições e republicações de devaneios passados. Este é o inegável reflexo de alguém que anda demasiadamente fixado na estrada que ficou para trás, em vez de se concentrar no que pode estar adiante. Parecia mais fácil procurar uma emoção familiar ao que estivesse sentindo em um catálogo pronto, do que colocar-me na posição mais vulnerável de todas: a da originalidade do presente, e quaisquer sentimentos que estivessem implicados nisto. A verdade é que eu não queria escrever exatamente porque não queria dizer em voz alta o que estava sentindo. Não por não saber como descrever o que está acontecendo; exatamente o contrário. É por reconhecer muito bem o que é isto. Algo que eu prometi a mim mesmo que não sentiria mais.

Eu me sinto sozinho.

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Durante os primeiros meses em Foz do Iguaçu, tudo o que eu conseguia pensar era: “O que será que vou conseguir fazer aqui?” Havia projetos, idéias, expectativas. Esperança. Uma noção vaga em questão de detalhes em específico, mas rica em palavras-chave e perspectiva de que, assim como David Bowie indagava se existiria vida em Marte, haveria sim uma vida em Foz do Iguaçu para mim. E depois de esperar, assistir séries para me distrair, aprender a cozinhar, correr alucinadamente por aí até, enfim, começar uma nova faculdade que levaria até o sonho que pensava ter abandonado anos atrás, mas que ainda vivia em mim e agora estava prestes a começar a se realizar, eu consegui. Existe vida em Foz do Iguaçu afinal de contas. Qual o problema então, Igor? Não é isso que você queria?

Era sim. Mas faltou algo... Aliás, faltou alguém.

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Eu tenho um histórico na vida. Longo, distorcido e bem longe de ser memorável. Mas é o que eu tenho para relatar quando meu inventário é obrigado a ser revelado. Seja em entrevistas de emprego ou tentativas de me relacionar com alguém. A essência é a mesma: todos querem saber por onde e por quem você já passou, e do que você é ou já foi capaz de fazer, para considerar se lhe dão ou não uma chance. Meu problema tem sido em conseguir uma oportunidade. Uma tentativa de demonstrar todo o potencial que ainda guardado aqui, empoeirado e definhando, enquanto poderia estar por aí tomando mais sol e reclamando com mais causas do que mero ócio. Mas isto não me incomodava tanto antes. O problema no começo estava em me sentir como se não fosse ninguém aqui. Ou então, alguém que não possuía uma definição curta e direta para quando fosse abordado por seja lá quem fosse que se interessasse em perguntar: “O que você veio fazer aqui?” Algo que era sempre respondido com um projeto futuro, automaticamente seguido por uma enorme frustração passada.

O problema foi que hoje, ao andar pelas ruas da cidade, entre um pequeno afazer e outro, eu pensei pela primeira vez: “O que estou fazendo aqui realmente?

A resposta estava guardada em mim já faz algum tempo, mas era melhor se permanecesse latente. Escondida entre as linhas de alguma republicação antiga, acompanhada por uma trilha sonora mais recente, e uma fala aparentemente despreocupada do tipo: “Achei que combinava. Não quer dizer necessariamente que eu esteja me sentindo assim hoje”. E negar que estava me sentindo assim não foi apenas mais um sintoma; foi o fator determinante.

Não se trata mais do que eu vim fazer aqui, mas com quem eu não ando compartilhando tudo isso.

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Talvez eu não queira um relacionamento. Na verdade eu sei que não quero um. São complicados, enrolados, consumidores, dramáticos, estressantes e enfadonhos. Isto sem considerar o quanto eu tenho pavor de depender de outras pessoas – até mesmo emocionalmente. Mas é este o ponto em que chegamos; a carência e o medo escondidos por trás da aparência de auto-suficiência e da ironia. E já passou da hora de compartilhar isso com quem se interessar em passar os olhos por isso, porque talvez admitir que eu sinta falta de “alguém” seja a verdadeira demasia. Talvez, na melhor das hipóteses, eu só precise mesmo de um amigo gordo para me fazer companhia no final do dia, entre rodadas de cerveja, para que me escute mesmo quando eu realmente não quero dizer nada.

E é por isto que eu ainda tenho minhas dúvidas sobre o que realmente estou fazendo aqui. Ênfase no “real”. Enquanto eu não der à cidade e a todos que eu acabe por encontrar nela uma chance de verdade para que conheçam o verdadeiro eu, não haverá metáfora, ironia ou marco turístico que me satisfaça por aqui.

Este sou eu, tentando. Só o que me resta agora é enfrentar o meu maior medo: descobrir se será recíproco.

domingo, 1 de maio de 2016

24 ½


É tudo uma questão de perspectiva. O problema, se você for como eu e só sabe viver em extremos, é que perspectiva é um daqueles benefícios sobre os quais você abre mão em nome de uma tranqüilidade que na verdade nem é tão tranquila assim. Confuso, não? Bom, é nisso que dá viver sem uma perspectiva decente. E são coisas assim que vem tomando o meu tempo enquanto eu permaneço no meu estado de imobilidade literária, sem saber mais como ir pra lá ou pra cá em uma sentença, e sem ao menos sentir vontade de me arriscar no rascunho de um parágrafo. Só não penso que isso chegue a ser uma metáfora exata para o resto da minha vida desta vez, porque anda muito frio lá fora para praticar qualquer exercício. Mesmo que esse exercício seja teórico.

Mas eu acredito que a falta de textos novos que contemplem meu atual estado de espírito esteja atrelada sim a outras questões. Se a formalidade está em demasia, é só porque estou me sentindo enferrujado. E você nunca estará errado ao se portar formalmente demais. O verdadeiro caos nasce do coloquialismo. Talvez, inclusive, o mesmo coloquialismo que provém da intimidade que somente alguns sobreviventes encontram em mim, entre um extremo e outro. Junto à minha mania de transcrever filosofias infames, também perdi o tato por procurar as pessoas. Quaisquer pessoas. Independente de intimidade, agenda ou temperatura. E eu ainda não sei exatamente o porquê disto...

O melhor jeito de retomar a prática é colocando algumas verdades para fora. Se será necessário um desabafo para me trazer de volta – e na falta de um amigo gordo para me acompanhar ao bar mais próximo da minha casa para escutar as minhas lamúrias entre rodadas de cerveja barata – que um desabafo então tome conta desta assustadora página em branco do Word. Talvez as grandes obras nasçam mesmo de desabafos e estagnações emocionais em busca de liberdade uma vez mais. Isso explicaria aquela vez em que Nietzche ficticiamente chorou, assim como toda a teoria sobre o inconsciente que Freud teceu e ninguém realmente percebeu que ele só havia tido um sonho ruim e precisava de um abraço.

Já passam dos nove meses desde a mudança para Foz do Iguaçu. Não é tempo o suficiente para comemorar um aniversário, mas o bastante para justificar que cessem imediatamente todos os instintos de sempre procurar olhar para trás antes de dar um passo adiante por aqui. Porque nenhum lugar por onde eu já tenha passado é como Foz do Iguaçu. E ninguém que eu já conheci por aqui realmente seja como qualquer outra pessoa que eu já tenha adicionada à minha lista de contatos do WhatsApp. Não necessariamente querendo dizer desta vez que Foz do Iguaçu seja dotada de uma mitologia única que eu ainda estou tentando descobrir – talvez ela seja. Só quer dizer que comparações e nostalgias, depois de um tempo, só impedem que qualquer coisa nova realmente tenha uma chance de ser vivida.

Sobre viver em família, não há nada de novo a comentar. É e sempre será um desafio. Uma arte cuja qual nem eu, nem você, nem ninguém realmente dominará um dia com maestria. As mesmas pessoas que te trazem para baixo são as mesmas que te levantam logo em seguida. Por mais infeliz que tenha sido o seu dia, família sempre estará esperando por você quando voltar para casa. Claro, cada um do seu jeito, com sua forma de carinho e oferecendo somente aquilo que poderem doar. E haverão dias em que reencontrar a família em casa não cause grandes emoções... Mas depois de um tempo, o que realmente provoca emoções sem fim em nós?

Sobre relacionamentos... Eu estou disposto. O que não significa automaticamente que um processo seletivo foi aberto. Só significa que ultimamente eu ando saindo mais, arriscando mais... Tentando de verdade. Pela primeira vez, quem sabe. E o que for pra ser, será. Só peço que entenda que quando não te procuro, não significa que não me importo ou não me lembro de ti. Só significa que enquanto eu não terminar de desenrolar este desabafo, seja em palavras ou na vida lá fora, não há como eu demonstrar algum tipo de iniciativa real. Eu poderia te cumprimentar e perguntar se está tudo bem, pelo simples impulso de que não nos falamos hoje nem ontem e eu preciso provar a você que não me esqueci de ti.

Acredite, meu bem, eu não me esqueci de ti.

Enfim, sobre mim. Um desastre emocional à procura de molduras no formato de braços abertos que saibam me acolher. E que saibam que não devem me soltar tão cedo, porque eu não terei a capacidade de procurar um apoio de novo tão cedo. É assim que eu me sinto: rarefeito. Talvez o próximo estágio do inefável seja mesmo o esvaziamento. Algo que não pode ser descrito, não pode realmente ser compreendido. E se não pode ser compreendido... Ele some. A literatura, quando usada para fins poéticos e não específicos, pode ser mesmo incrível. Só deixa um pouco a desejar quando alguém procura saber objetivamente como eu estou. “Bem”, eu acho. Isto é bom o bastante?

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Não haverá mais republicações por um tempo. Ando vivendo demais em minhas memórias – literariamente, ao menos. E se não puder viver literariamente assim como praticamente na vida lá fora, a campanha para me tornar um escritor deverá ser deixada de lado. E isto não é algo que eu desejo. Já sabemos, ao menos, que ainda há vida disposta aqui. Para tentar se tornar algo a mais e, quem sabe, para se entregar de verdade a outra alguém de novo.

Sinto muito se este tipo de desabafo ou filosofia te confunde. É difícil para mim também, ser claro quando não há muito ao que se amparar. Emocionalmente, pelo menos. Por ora. Mas eu farei um esforço, por mim, de tratar de colocar meus assuntos em dia. Estou cercado de post-its e rascunhos, apenas esperando para serem trazidos à vida. E para que me tragam à vida também. A melancolia de um escritor nada mais é do que uma depressão otimista. Aquela que procura ser algo a mais. Algo melhor. Eu ainda não sei dizer como estou me sentindo, mas é isto que procuro.

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Fim da inspiração. Por enquanto...