terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O lixo existencial


*Escrito em 26/01/2014.

Em conversas com algumas pessoas que se inspiraram com meus surtos de ócio criativo e queriam saber de mim como era escrever coisas tão sem sentido, mas ao mesmo tempo tão dolorosamente profundas e sinceras, eu disse que era como jogar o lixo fora.

- “Jogar o lixo fora?!”
- É!

Pensa comigo: Você vai no supermercado e compra um bolo, ok? Aí você chega em casa, arruma a mesa com todo o cuidado, coloca a cafeteira pra trabalhar, e muda o status do seu WhatsApp pra “Comendo bolo, oh yeah”. Então você senta na mesa, serve um café, corta uma fatia do bolo e imediatamente sobe aos céus do orgasmo estomacal. A primeira mordida te dá aquela expressão de “Esperei por você a vida inteira!”, coisa que algumas pessoas já não te provocam mais, só a comida mesmo. Aliás, acho que depois de algum tempo, a gente deixa de sentir amor com o coração e só sente paixão com o estômago, mas isso é assunto para outro amanhã.

Enfim...  As primeiras fatias daquele bolo foram deliciosas, saborosas, salivantes. Aí você guarda o resto daquele bolo na geladeira para comer mais algum outro dia, só que você se esqueceu de que essa semana era o prazo final para entregar aquele trabalho sobre o narcisismo segundo Freud, que tem reunião no trabalho a respeito das novas estratégias de divulgação dos projetos de assistência social da prefeitura, que você precisa retornar as três chamadas não atendidas da sua mãe que ficou preocupada com você ontem depois da sua consulta no dermatologista sobre aquela mancha estranha no seu pescoço, mais a chamada daquela garota que te chamou pra sair de novo justo enquanto você estava no telefone com a sua mãe e esqueceu de mandar mensagem perguntando como ela estava só pra não perder o contato, e que você ainda precisa passar no mercado a caminho de casa porque acabou o detergente para lavar aquela louça do jantar que você organizou com os amigos na sua casa anteontem, e que não lavou porque ainda tinha espaço na pia para renegar a louça do seu café de hoje de manhã.

Quer dizer, aonde você encaixa o resto daquele bolo nisso tudo? E o bolo não espera pela gente. Muito pelo contrário, ele se transforma em uma bomba relógio na sua geladeira que irá autodestruir sua deliciosa, saborosa, salivante consistência exatamente quando você se lembrar da existência dele de novo e abrir a porta da geladeira só para se deparar com seus restos mortais em decadência dentro daquele tuppaware da sua mãe – que você também se esqueceu de devolver e sempre dá uma desculpa quando ela liga cobrando, mas que agora vai ter que jogar fora e ser condenado pelo resto da vida por ser “irresponsável” com tudo que a mamãe te empresta.

Acontece, então, uma revolução dentro de você. Aquela calma que só o desespero dá, e que se multiplica e passa a tomar atitudes por você depois de borbulhar toda a raiva, ansiedade, angústia, tesão desperdiçado e tristeza por ter chego mais uma noite de sexta e, em vês de sair, você levanta a bandeira branca e decide ficar em casa porque não há balada no mundo que compense você deixar a sua cama para trocar de roupa, se meter no meio de uma multidão de pessoas bêbadas e música alta, e ainda se agarrar na esperança de que aquele dia ainda pode valer a pena. “Vai que eu conheço alguém...?”. Mas como até o presente momento nunca “Foi que...”, você desiste.

E aí você vai até a geladeira de madrugada para pegar uma garrafa d’água e reencontra aquele tuppaware, só que sem nenhuma lembrança do que há dentro dele. E então você o redescobre: o bolo delicioso, saboroso, saliente que você comprou mês passado, comeu três fatias, e deixou perdido no vórtex de esquecimento aleatório e caos transitório que compõe a sua vida. E às três e quinze da manhã da madrugada de domingo, você joga aquele bolo fora, tenta ressuscitar a tuppaware da sua mãe para evitar mais um sermão da montanha com o detergente que você milagrosamente se lembrou de comprar, e volta para a cama se sentindo ridiculamente vitorioso.

O que eu quero dizer com tudo isso? A vida é a vida mesmo; a minha tem dessas coisas de esquecer comida na geladeira porque passei a semana alternando entre reuniões de trabalho, filas de banco, mensagens de amigos ressentidos porque esqueci de respondê-los, consultas médicas a respeito do que sobrou da minha saúde precária, e telefonemas da minha mãe me xingando porque eu não tenho paciência com ela, até que ela mesma perde a paciência e desliga na minha cara. Se sua vida não for parecida com isso, certamente tem outros problemas que te fazem esquecer que a semana tem cinco dias que passam voando, que muita coisa ficou sem ser resolvida, e que aquele bolo continua guardado na sua geladeira, envelhecendo e apodrecendo como a nossa própria paz de espírito, que é testada pelo tempo a cada boleto bancário que a gente tem que reimprimir porque o boleto de verdade se perdeu pelo correio.

O sabor do bolo pode variar: pode ser aquele amor perdido que você ainda não superou, aquela paixão arrebatadora que te roubou noites de sono e tentou te sufocar durante a noite com um travesseiro de saudade, ou pode ser de raspas de chocolate mesmo. Agora imagine você jogando esse bolo no lixo, e jogando esse lixo fora da sua casa. Fora da sua vida. É, no mínimo, libertador. Por um milésimo de segundo, aquele lixo representa o fim da repressão de todas as dificuldades da sua vida, que parecem finalmente terem entrado em uma convergência milagrosa e que você, no trocar de uma sacola de lixo, conseguiu se desprender e recuperar aquela sua paz de espírito que você achou que tinha perdido, junto com as chaves do carro e aquele maldito boleto bancário que você teve que reimprimir.

Escrever para mim é isso. É tirar alguns minutos do caos que domina a minha vida para fazer uma limpa na geladeira e jogar pedaços de bolo fora. Porque eu como muito bolo – metaforicamente falando, por enquanto – mas nem sempre lido com as sobras de maneira muito direta ou saudável. E guardo os restos mortais bem no fundo da geladeira, para lidar com isso em qualquer outro dia que não seja hoje. É como bloquear aquela pessoa do Facebook porque você ainda não quer lidar com o fato de que vocês não andam mais de mãos dadas, não trocam mais mensagens de madrugada, nem se cumprimentam quando se encontram no estacionamento do shopping. Mas quando você tira o dia para limpar a geladeira, e lidar com o fim daquele relacionamento, ou chorar tudo que tem pra chorar por aquela pessoa que simplesmente não vai ser sua, você finalmente confronta o fato de que as sobras daquele bolo não são mais comestíveis, que nada daquilo ainda tem a algo a ver com você, e que o lugar daquilo é no lixo.

Claro, este blog não é um lixão e vocês não estão aqui chafurdando nos restos mortais da minha vida pessoal, amorosa ou ilusória. Este blog é uma obra verdadeiramente fictícia, cujo objetivo é me livrar de toda bagagem emocional que eu não quero mais carregar, e me emagrecer de todo rancor, insatisfação e dúvidas que costumam me inchar e me impedem de entrar nas minhas calças novas. Caso você se identifique com alguma coisa por aqui, e isto te inspire a mudar sua vida ou – digamos – limpar a sua geladeira, fico feliz por você. Estamos todos juntos neste mundo torto e incorrigível, esperando por dias mais felizes, pela vitória na copa do mundo, e por – digamos – pedaços de bolo que não nos decepcionem.

Enfim, é por isso que eu escrevo. Aceita mais um pedaço?

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Seis meses ou Desafio aceito


Se dissesse que ninguém sabe o que esse dia significa para mim, estaria mentindo. Por sorte ou por acaso ainda existe muita gente que acompanha os capítulos que escrevo por aqui. São as mesmas pessoas, inclusive, que me inspiram a continuar escrevendo. Bem como são as mesmas sem as quais provavelmente eu não estaria aqui agora. Mas antes que me perca em todo o sentimentalismo, e perca sua atenção também, espero que perdoe esta falta momentânea de sarcasmo e irreverência habituais que costumam preencher as linhas desta página. Porque hoje é um dia especial, afinal de contas. É o dia que eu esperei por muito, mas muito tempo. Não apenas meros seis meses.

Há quem encontra sua paixão na vida bem antes dos outros e faz parecer que esse tipo de coisa simplesmente não irá acontecer com mais ninguém. Porque é o tipo de paixão que te tira da cama de manhã e te motiva a continuar buscando, lutando, tentando tudo o que puder, porque é invariavelmente o que lhe dá motivo para existir. Psicologias à parte, todo mundo precisa desse tipo de paixão na vida. Alguns encontram em um amor para recordar, outros no conforto dos almoços de domingo com a família que nunca irá te abandonar, aconteça o que acontecer. Mas o tipo de paixão da qual estou tentando dizer é daquela que só quem já a alcançou irá realmente entender. É o tipo de paixão que algumas pessoas passam a maior parte da vida procurando. A paixão por fazer aquilo que você gosta, e de moldar a sua vida ao redor disto. Há quem diga que felicidade atrai felicidade, e que quando se é capaz de expressar a sua paixão – artisticamente, profissionalmente, emocionalmente – o universo também retribui. E até onde consigo me lembrar, minha paixão de verdade sempre foi além de relacionamentos – fossem eles reais, imaginários, platônicos ou até mesmo bem correspondidos. Minha paixão está exatamente nisso: nas palavras. E nos mundos que elas permitem construir ou até mesmo desconstruir. Em se tratando de justiça poética, o choro é sempre livre.

Nos últimos seis meses, desde que me mudei para Foz do Iguaçu com um caminhão de mudança cheio de móveis, roupas e tralhas – e um coração cheio de arrependimentos, mágoas e sonhos que ainda permiti manter – eu fiz tudo o que pude para me manter inteiro até que esse dia chegasse. E entre praticar corridas, aprender a cozinhar, vivenciar experiências novas, visitar marcos turísticos, questionar a natureza dos meus relacionamentos passados (e as maneiras como os novos se desenrolam ultimamente), fazer promessas que pudesse mesmo cumprir e, principalmente, depois de toda a saudade que eu senti e continuo sentindo até agora de todas as vidas que já tive antes disso, eu consigo perceber agora que aquela verdade que ainda carrego comigo continua fazendo jus às minhas expectativas. Muita coisa vai acontecer com você, mas não necessariamente fará sentido quando acontecer. Eventualmente, se você prestar um pouco de atenção, todas as peças do quebra-cabeça irão se encaixar e a figura que se mostrará diante dos seus olhos será totalmente diferente do que você imaginava que podia ser. No meu caso, enquanto eu esperava ansiosamente por esse dia – e acreditava que somente a partir deste dia é que a minha vida em Foz do Iguaçu realmente começaria – eu estive vivendo e muito esse tempo todo. Ah, e como eu vivi...

E agora aqui estamos. Seis meses depois, se levarmos em conta apenas os dias desde a mudança. Mas paixão, aquela de que estava falando para vocês, é algo que existe e perdura muito além do que um calendário pode contar. E desta vez eu gosto de pensar que já apanhei e aprendi o suficiente para fazer desta segunda chance, o primeiro passo da jornada que finalmente me levará aonde quero chegar. Claro que demorou para chegar até aqui – e muito. Especialmente porque eu ainda não sabia exatamente quem eu era e o que eu queria desta vida. Mas quando se começa a traçar algumas linhas na areia, as coisas vão se tornando mais claras. Quando se toma uma decisão e a apóia apesar do que os outros possam pensar, ou do medo que vem por abrir mão de todas as outras possibilidades do mundo, é aí que você começa a surgir. E a reconhecer o seu lugar, seu espaço e, enfim, quem você é.

Meu nome é Igor Costa Moresca e eu serei um escritor. Demorou muito para que eu pudesse voltar a esse momento – e eu sei disso porque, sete anos atrás, eu também escrevi sobre isso. Mas hoje é o primeiro dia de aula na faculdade de Jornalismo. E desta vez, como aprendi a fazer com todas as novas aventuras que me disponho a trilhar, eu irei até o fim.

Desafio aceito.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

O soneto da fidelidade


*Escrito em 27/01/2014.

Se eu tivesse que dizer de onde tirei a idéia de começar a escrever, teria que dizer que foi da minha mãe. De vez em quando nossa casa era tomada por um silêncio estranho, e digo estranho porque passei grande parte da infância sendo constantemente interrogado por ela aos gritos:

- Filhoooo, que tá fazendo?
- Nada, mãe...
- Tá muito quetooo!
- Sou quieto, mãe...
- Não é nãaaao! Vem aqui fazer companhia pra mamãeeee!

Sempre havia alguém gritando dentro de casa, mas num bom sentido, salvas as vezes em que já estávamos reunidos em algum cômodo, hipnotizados pela inércia da televisão. Por isso silêncios eram estranhos. Mas em vês de gritar “Mãeeee, que tá fazendooo?”,  eu optava por ir até a sala e investigar qual era o motivo daquela calmaria. Mamãe morreu? Não. Mamãe estava sentada à mesa, com um caderno de rascunho em mãos, escrevendo algo.

- O que é isso aí, mãe?
- É um dos poemas favoritos da mamãe, filho.
- Como se chama?
- "Soneto da Fidelidade" de Vinicius de Moraes. Você vai ouvir falar muito dele na escola.

Nota #1: quando me refiro à mamãe como "mamãe", é porque estou me colocando aqui no tempo dos meus 10 ou 11 anos. Eu não chamo mais mamãe assim... Só quando ela manda, é claro.

- Do que se trata esse poema, mamãe?
- É uma declaração de amor, filho. Uma das declarações de amor mais bem escritas que já se viu...

Minha mãe era fã do Vinicius; tanto que sabia de cor aquele poema, de cor e de coração. Este e outros poemas eram apenas parte da coletânea que ela havia reescrito naquele caderno. Inspirado por isso, tentei fazer o mesmo, nem que fosse só para descobrir se minha memória era boa o bastante para recordar de quatro estrofes consecutivas sem esquecer de nenhuma vírgula ou lamúria. Não era. E até hoje, permaneço com apenas as molduras do poema em minha mente distorcida - a primeira e a última linha - que, de alguma forma, faziam sentido para mim sem o corpo do texto.

“De tudo ao meu amor serei atento [...] mas que seja infinito enquanto dure."

Mal sabíamos, minha mãe e eu, que aquele momento viria a se tornar o marco zero de uma das características mais marcantes e questionáveis da minha personalidade futura: a atração por declarações de amor, e o desconhecimento do que acontece entre o começo e o fim de um relacionamento. Independente se estiver na forma de poemas ou pessoas.

Eu me sinto consideravelmente criativo em se tratando dos começos das histórias de amor que já vivi. Os ambientes inusitados, as personagens cativantes, o contexto irresistível. À primeira vista parece até que nada daquilo tem sentido quando colocado tudo junto e misturado, mas tinha. Foi assim com a Fulana, com a Ciclana, com a Beltrana e com a - digamos - Amélia. Mas como diria Saint-Exupéry, era tudo muito bonito, muito poético, mas sem muita utilidade. Porque assim como meus começos eram dignos de refilmagens de contos da Disney, meus fins eram igualmente épicos em matéria de tragicomédia. Trágico porque era o fim de um amor, mas cômico porque ainda se tratava de mim. E não importa aonde eu vá, o constrangimento, a ironia e - como se provou recentemente - acidentes estranhos envolvendo telhas voadoras sempre me seguirão. Logo não era surpresa pra ninguém que, quando meus romances terminassem (já não é mais uma questão de "se", mas de "quando" mesmo), podia-se ter certeza de que teria mais uma boa história pra contar na mesa do bar. Como quando a Fulana se mudou pra Florianópolis, a Ciclana voltou pro ex, a Beltrana acabou sendo louca, e a - digamos - Amélia decidiu que nosso amor sequer tinha existido.

Aconteceu que eu me lembrei de tudo isso - da mamãe, dos gritos em casa, do soneto da fidelidade, dos romances épicos propensos ao óbito literário - por causa da Amélia. Porque dia desses, já passados meses desde o funeral do nosso relacionamento, a Amélia resolveu reaparecer. Meses antes eu tentei uma reconciliação hipotética com a Amélia, e digo hipotética porque me agarro sagradamente no uso contínuo das palavras "se" e não "quando" durante nosso diálogo. “Se nós estivéssemos juntos”, ao contrário de “Quando nós estivermos juntos de novo” possui grande diferença nos argumentos quando for apresentar seu caso ao tribunal de apelações de relacionamentos fracassados. Ou quando for explicar aos seus amigos o que aconteceu depois que você chegou no bar estressado e jurando nunca mais amar de novo. Mas quando eu procurei a Amélia de novo, ela não quis saber de mim. E foi tão cruel e vingativa quanto uma mulher naturalmente sabe ser.

Nota #2: não entenda, sob nenhuma circunstância, que eu esteja em algum momento julgando a atitude impiedosa de Amélia. Dada a minha participação no enterro da nossa cumplicidade, achei a reação dela não só justificável como bastante nobre também. Mulheres ainda mais impiedosas não responderiam a nenhum apelo. Mulheres ainda mais impiedosas responderiam a isso com um fósforo, gasolina e um bom álibi para confirmar onde estavam quando o incêndio no meu apartamento começou.

Três meses depois, ali estava ela. Sua janela de conversação apareceu na minha tela com a mesma naturalidade que costumava aparecer durante todos os dias em que ainda gostávamos um do outro. E me disse um "Olá, Igor..." que era tudo, menos inofensivo.

Mesmo sem ter tanta experiência assim em se tratando de relacionamentos e suas respectivas regras de convivência, eu aprendi que em hipótese alguma é possível manter alguma espécie de vínculo saudável com uma ex-namorada. Não adianta vocês quererem se convencer de que são pessoas adultas, maduras e sensatas que participam ativamente da sociedade moderna do século XXI. Porque em algum momento as lembranças das mãos dadas, dos beijos trocados e das pernas descobertas pelo lençol irão te alcançar. Assim como as discussões infames, os discursos prontos e as dores de cabeça que o amor – ah, o amor! – um dia se virou contra você e te fez questionar se precisava mesmo passar por isso. Tudo faz parte do processo natural da vida, como já dita a própria física: dois corpos que decidiram se separar tendem a permanecer distantes. Namoros, compromissos e casamentos duram o tempo que você conseguir se esforçar para mantê-los. Separações, despedidas e divórcios são para sempre. Sem querer parecer horrivelmente cínico; é só uma observação de quem não viveu muito, mas viu muita coisa por aí capaz de me desmotivar a querer tentar entregar meu coração de bandeja para outra pessoa, assim, com a maior facilidade do mundo, sem ter medo de que ela o jogue no chão, atropele com o carro, chame amigos para fazerem manifestações populares em cima dele, e depois aponte e dê risada. Mas eu posso estar exagerando...

Só que quando a Amélia me chamou, todas as teorias, as lembranças ruins e até mesmo a própria realidade se tornaram irremediavelmente questionáveis. Um “Olá” depois de três meses? Um “Olá” aparentemente despretensioso depois de tanto tempo e tanta coisa? Um “Olá” depois de ter me dito “Nunca mais me procure, nem tivemos nada sério, vai cuidar da sua vida e me esqueça!” definitivamente queria dizer algo a mais.

- Olá, Amélia... Tudo bem?
- Tudo bem e com você?
- Tudo bem...
- Então... Eu só queria dizer que sinto muito pelo jeito que te tratei na nossa última conversa... Foi cruel da minha parte e me sinto mal por fazer isso com alguém. Saiba que só guardo lembranças boas do nosso tempo juntos agora, e espero que você encontre o seu amor logo...

Era uma noite de domingo de um fim de mês de férias. Era o ápice do tédio, do calor de Janeiro e da temporada de mariposas atraídas pela luz do quarto. Era o momento mais insosso para uma conversa desse tipo. Era tudo que eu jamais esperava ouvir, depois das últimas palavras que Amélia havia me dito três meses atrás. “E você pensou nisso por três meses, Amélia, ou sentiu meu perfume em alguém quando pegou seu ônibus de volta pra casa e repentinamente se lembrou de mim, de nós, e das coisas boas que compartilhamos antes de todo aquele asco, todo aquele drama? Todo aquele fim que, pelo visto, não tinha fim”, pensei.

Difícil dizer exatamente o que eu senti. Saudade, raiva, compaixão? Por ela? Por mim? Por nós? Eu não sei. Só o que sei foi que, naquele momento, minha memória imediatamente me levou de volta a imagem da mamãe reescrevendo aquele poema do Vinicius, sentada à mesa da sala, e as molduras que desde sempre remetiam a mim o prelúdio e o desfecho de uma história de amor. Pra ficar perfeito mesmo só faltava o interlúdio, o enredo, a história em si. O desenvolver desse amor que, mesmo depois de tanto tempo desde a primeira vez que li o poema e tentei reescrevê-lo, eu ainda não era capaz de produzir. Certamente sou capaz de grandes epílogos de paixões memoráveis, bem como a implosão dos mesmos sentimentos através de proporções homéricas. Mas eu, definitivamente, deveria ter me esforçado mais com o interlúdio...

“De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.”

O que me alivia de certa forma é saber que a Amélia vai ficar bem, apesar de mim. O que me enlouquece, por outro lado, é pensar que talvez eu me torne mesmo um mestre dos romances, dominando com maestria aquela primordial troca de olhares até a decadência de dois corações, sem nunca realmente descobrir o que o Vinicius vem tentando me dizer há anos. Não é o começo do amor que importa, muito menos o seu fim. É o que você faz para mantê-lo, todos os dias, a cada vão momento da nossa existência, que faz toda a diferença.

Nota #3: ou talvez seja melhor ir para a cama à noite com mais beijos e menos literatura, só pra variar um pouco.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

A lei do desapego


*Postado originalmente em 20/01/2014, mas a lei ainda é vigente.

Nós vivemos em uma era de coisas. De querer cada vez mais coisas. De gostar de pessoas por causa de coisas. De tentar usar coisas para ocupar o vazio deixado por outras coisas. Por outras coisas de outras pessoas, que acabaram indo embora por causa de, bom, outras “outras coisas”. E quando isso acontece, o valor que associamos a essas coisas aumenta porque passamos para elas tudo aquilo que aquelas pessoas significavam, mas que agora não estão mais aqui para matarem a nossa saudade. Só o que sobraram foram as coisas, que de certo modo se transformam numa espécie de tesouro deixado para trás por elas. Tesouros que não conseguimos jogar fora, nos auto-censurando ao sequer pensar nisso pois, afinal, o que fulana iria pensar de mim se me visse jogando isto fora? É como se eu estivesse jogando fora o resto de esperança que ainda tenho em nós. Engraçado como nos livramos tão facilmente das pessoas, enquanto as coisas que ficam – as coisas que realmente podem ser jogadas fora – permanecem por muito mais tempo. Jogadas em cantos obscuros da casa e do nosso coração, mas que fingimos não ver porque – por algum motivo – ainda não estamos prontos para lidar com isso.  Como se coisas precisassem ser tão complicadas assim.

Baseado nesse espírito assombrador de ex-pessoas e as coisas que deixaram para trás, foi criada a lei do desapego. Desenvolvida em meados do século XXI por jovens que recém venceram o desânimo de voltar a viver – e reaprenderam a envolverem-se com, bom, coisas novas – e decidiram levar a famosa faxina de primavera a um novo patamar: o pessoal. Vão-se as velharias, ficam as novidades. Vão-se as amarguras, ficam os sorrisos. Toda vez que a minha mãe vinha para Cascavel e se hospedava na minha casa – e tomava posse do meu quarto porque a cama era melhor e, bom, porque aparentemente ela ainda tem essa autoridade, independente do endereço – ela fazia “A faxina”. A limpa de peças antigas do meu guarda-roupa que não servem para mais nada a não ser ocupar espaço, acumular ácaros e atrapalhar as peças de roupa dela que precisavam de cabides mais do que o meu museu de vestuários precisava de exposição. E como sempre tive que suportar a partilha de camisetas que tenho desde os tempos apocalípticos da pré-adolescência, calças que continham em si mais esperança de que eu ainda pudesse caber nelas do que uma real perspectiva dos meus novos e avantajados quadris de homem, e sapatos que... Ok, não havia nenhuma justificativa para continuar guardando aquele boot antigo com os cadarços estraçalhados a não ser pela preguiça de mexer naquele sapateiro. Bom, por preguiça e porque vi uma aranha se esconder ali alguns meses antes.

O que foi diferente naquela vez – e o que talvez aconteça bastante ao redor do mundo durante o fatídico primeiro dia de cada ano – foi que a partilha continuou, mesmo sem a minha mãe por perto gritando para reforçar meu desapego como um general ordena suas tropas a invadir o território inimigo sem piedade, e a se desfazer dos destroços dos outros combatentes sem dó. Ou então, foi apenas assim que eu me senti quando concordei em me desfazer de cinquenta tons de camisetas cinzas – que foram brancas um dia - que eu havia prometido a mim mesmo que continuaria usando nem que fosse só para dormir. Enfim, independente das ordens do sargento mãe, que já havia retornado à sua base em Londrina, havia sido dada a largada para o que viria ser o pequeno passo do aliviamento do meu guarda-roupa, porém um grande passo para a minha humanidade sufocada.

Quando menos percebi, junto aos tênis velhos e as camisetas rasgadas, também foram embora a dó desnecessária, a esperança infame e a piedade inútil que eu ainda segurava por pessoas. Pessoas que estavam de certo modo grudadas naquelas roupas, e sorrindo falsamente nos porta-retratos da minha estante, e sujando a já frágil santidade da linha do tempo do meu Facebook. O segundo passo da minha manifestação pessoal de revolta contra ser-contra o desapego veio de forma virtual, ao remover a opção “Desejo receber notificações dessa pessoa” em alguns perfis.

O que antes parecia algo tão mesquinho, tão idiota e tão teoricamente fraco de se fazer acabou me fortalecendo de maneiras que eu nem pensava que fossem possíveis. Eu não queria não ver aquilo porque era incômodo ou doloroso, mas porque eu finalmente havia atingido o estado espiritual de pura indiferença. A apoteose de um “foda-se” bem mandado junto ao zeitgeist de um bom desapego. Eu não quero saber da sua vida, porque suas atualizações mesquinhas, idiotas e fracas estão me atrapalhando a ver outras coisas de gente que realmente me importa. E coisas novas de gente que eu não conheço ainda, mas vai que...

Mas o ápice da minha marcha a favor do desapego veio mesmo com aquele guarda-chuva. Meses atrás quando eu era menos preocupado em ser inteligente e sensato, e mais preocupado em permanecer jovem e apaixonado, eu conheci alguém. Convenhamos que era alguém boa. Muito boa. Tão boa que até quis me dar amor em troca quando eu confessei que era isso que eu sentia por ela. E nós fomos felizes... Ah, como nós fomos felizes! Até não sermos mais. Até eu perceber que aquilo iria acabar mal, e até ela me fazer perceber que havia feito a escolha certa quando o seu “não” em resposta ao término se transformou rapidamente em mensagens menos amigáveis do tipo “você não significou nada pra mim mesmo” e “boa sorte para encontrar outra pessoa que te agüente!”. Ah, o amor...

Mas entre o nascimento e a missa de sétimo dia do nosso amor, houve um guarda-chuva. Um guarda-chuva que ela me fez comprar quando fomos surpreendidos por uma fria tempestade que nos empurrou para dentro de um supermercado enquanto esperávamos ela passar. E entre tentarmos aproveitar aquele tempo para passearmos e sermos bobos juntos, passamos por uma gôndola de guarda-chuvas. A maioria deles pretos básicos, e um preto com bolinhas brancas.
“Amor, compra esse!”
“Mas por que logo esse?”
“Porque é bonito!”
As coisas bobas que fazemos por um amor que está começando são diretamente proporcionais às atitudes drásticas que tomamos quando ele acaba. Acontece que mesmo depois do amor ter acabado e da ex ter desgastado toda a minha esperança de querer voltar a usar aquele guarda-chuva, aquilo continuou aqui, jogado em um canto da casa. E só era lembrado quando já era tarde demais e estava chovendo lá fora, e eu ficava entre engolir o orgulho e usá-lo, ou tentar usar meu orgulho pra não me molhar lá fora. Apesar de todas as coisas ridículas que eu já fiz nessa vida, eu não deixaria de usar um guarda-chuva só porque ele simboliza o irônico auge do nosso amor, e o souvenir assombrado que sobrou dele. E sim, eu sei o quanto dizer isso foi ridículo, e o quanto eu continuava a ser ridículo por não querer jogar aquele guarda-chuva fora. Até aquele dia.

Jogar o guarda-chuva fora não foi só jogar um guarda-chuva fora, igual se desfazer de roupas velhas não foi só se desfazer de roupas velhas e etc... Foi um grito de independência. Um ato de coragem e uma prova de desapego que serviu para ensinar a me desprender de tudo aquilo que estava empoeirado com saudade e jogado pelos cantos da minha casa, e que me fazia tropeçar em vês de seguir em frente e me concentrar em coisas mais importantes como, digamos, pessoas novas e ser feliz. É com isso que eu me importo agora, e você pode fazer parte disso ou não, mas coisas não importam mais pra mim. Apenas ações importam. Companhia importa. Sinceridade importa. Amor importa. Minha casa não é um mausoléu e um coração não é lugar para acomodar teias de aranha. A faxina só está começando, mas já me sinto respirando bem melhor. A garganta não tranca mais com falsas promessas e sorrisos tortos. De agora em diante só felicidade cabe aqui.

Coisas velhas não acrescentam nada se eu quiser ter mesmo uma vida nova esse ano, começando por uma ida à Renner. Preciso de roupas novas.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

O medo


Uma mulher irá te perdoar por tentar, mas ela nunca te perdoará por não tentar”.

Eu não sei de onde o meu amigo tirou isso, e olha que eu fui atrás de pesquisar se tal sabedoria partiu do Winston Churchill ou do Mahatma Gandhi para pelo menos atribuir uma fonte à pérola. Mas foi o que me marcou durante a nossa última conversa, enquanto eu pontuava os prós e contras de chamar uma garota para sair. Não se fala muito sobre a insegurança masculina por aí e independente da corrente filosófica que reprime tal sentimento, é preciso falar mais sobre isso. E mesmo que não seja, eu preciso falar sobre isso. Porque eu tenho medo.

É. Medo. Sabe o medo? É o que acontece bem antes de uma relação ser definida por um “eu te amo” ou um “visualizado às 14:15”. O medo de perguntar: “Quer sair comigo?

Depois dos vinte, relacionamentos ainda mantém uma natureza livre e desimpedida, mas já com algumas atribuições e pré-requisitos antes de qualquer partida a dois começar a ser jogada. Você já conhece um pouco mais sobre si mesmo para dizer com propriedade do que gosta ou o que não gosta, e as possibilidades passam por critérios mais bem estabelecidos. Salvo, é claro, as vezes em que o medo é inibido por matérias mais potentes – como o álcool nos finais de semana, as datas comemorativas e o “foda-se, hoje eu faço o que eu quiser” que é, comprovadamente, atemporal e inato a qualquer jovem de 24 anos que esteja se sentindo com pouco juízo e menos ainda a perder.

Mesmo subtraindo as expectativas, as experiências passadas e a aversão natural a qualquer coisa nova, chamar uma garota para sair sempre será um dos atos mais desafiadores na vida de um homem. Há estatísticas – abstratas, porém verdadeiras – que comprovam que isso só fica atrás da ressaca moral sofrida por mensagens enviadas na noite anterior sob o efeito de dezesseis chopes para sua lista inteira de contatos ou esquecer de responder seis chamadas perdidas da sua mãe. Coisas que, aos vinte, deixam de serem simples e passam a ser verdadeiros campos minados que devem ser trilhados com cuidado e meditação. Na verdade qualquer bebida alcoólica deveria conter uma bula similar a remédios que prescrevem evitar o uso de equipamentos pesados, especialmente alertando sobre os usos do celular ou dizer “eu te amo” após seu uso.

Querendo ou não, chamar uma garota para sair sempre será o prólogo de alguma coisa. Um amor para recordar, um contato a ser evitado futuramente na agenda do celular, ou um eco do movimento modernista sobre “a vida inteira que poderia ter sido e que não foi”. Como escritor em treinamento, minha propensão é de sempre traduzir qualquer aspecto da minha vida para a literatura, nem que seja para dar um ar um pouco mais romancista a uma relação que teve tudo menos isso. Mas seja lá qual for o seu contexto, não me diga que a insegurança não te alcança a cada vez em que alguém novo inicia uma nova conversa com você, em que ainda não há um histórico para se amparar.

Porque hoje em dia tudo é criptografado, digitalizado e armazenado, para você nunca se esquecer de que o passado não é só uma sentença, mas um cabeçalho no qual você se apóia para tentar decidir se arrisca um novo “oi” ou se espera porque “é a vez dela” de tentar se arriscar em você.