sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

O coração de rodoviária


   Eu sou uma constante. Pelo menos é assim que eu me sinto. Mas calma, eu vou explicar. Tudo começou há alguns dias... Não, mentira. Tudo começou há alguns meses... Não, droga.

   Anos? Invernos? Eclipses? Ok, eu desisto. Eu não lembro como começou, mas seja lá quando tenha sido, definitivamente foi um catalisador temporário cujo fim iminente eventualmente encontrou o seu destino rarefeito. Porque as coisas que passam por mim invariavelmente acabam. Os lugares fecham ou se tornam inacessíveis, bem como as pessoas que eu encontro neles. Já escreveram sobre como o café esfria e o sol se põe, dentre outras tantas metáforas criativas para ilustrar todas as 150 maneiras de como o amor acaba. E sobre como ele acaba porque alguém decide ir embora. Bom, se algum dia houve um momento propício para escrever sobre coisas que acabam e pessoas que vão embora, este é o meu. Então, Igor, pare, pense e sinta bem o que você quer escrever, porque outras pessoas vão ler isso e talvez até se identifiquem. Talvez não ao ponto de gostarem das linhas que irão encontrar, e definitivamente não ao ponto de sentirem saudade o bastante para voltar, mas são sentimentos esparramados que serão juntados do chão e colocados em uma moldura virtual para futura admiração e arrependimento. Então pare, pense e sinta bem mesmo.

   E o que eu sinto? Bom... Ao contrário das metáforas cansadas sobre corações partidos, morangos mofados e vidas secas, eu me sinto carregando um enorme e frustrante coração de rodoviária. Completo com todos os embarques e desembarques que as pessoas da minha vida já fizeram ao chegarem até mim de algum lugar, algum lar longínquo, alguma outra desilusão amorosa, até decidirem seguir em frente e partirem rumo a sua próxima aventura. Particularmente, eu sempre detestei ter que me despedir de alguém através da janela de um ônibus. Para mim era sempre o fim. Mas essa é a ironia do fim, porque assim como eu sempre me sentia partido a cada partida, não era preciso que o ônibus percorresse cem quilômetros de lágrimas até que eu finalmente me acalmasse e caísse no sono. Porque esses fins, essas despedidas, nunca são realmente o fim definitivo. São como intervalos, entre uma aventura e outra. Uma vida e outra. Mas não é essa sensação de desbravamento e esperança que me faz sentar, sentir e escrever essas coisas. É a sensação de quem fica para fora do ônibus, acenando tristemente enquanto ele deixa a rodoviária e uma vida toda para trás. Eu costumava escrever muito sobre seguir em frente, despedidas e tudo mais, porque era fácil para mim. Certa vez fui eu quem me despedi. Agora a vida é outra; é a vida de quem fica, e de quem sinceramente não sabe bem o que fazer com isso. O lado ruim das constantes é que elas não possuem outra direção, muito menos um espelho retrovisor. E por mais que outras pessoas sempre pudessem contar comigo, isso nunca se mostrou muito recíproco. Tudo acaba.

   E talvez seja o denominador em comum sobre todas essas coisas que realmente me incomode: tudo acaba, mas não por escolha minha. E aceitar que a vida é composta por ciclos, interlúdios e aventuras passageiras parece mais vazio do que inspirador. Eu queria que algo além de mim fosse constante. Queria que as pessoas ficassem. Ou então, queria que partissem e me levassem com elas. O que me deixa com um enorme ponto de interrogação; se tudo acabou, tudo pode começar. Mas o que começar? Como começar? Onde começar? E com quem?

   Ter todas as possibilidades do mundo nas mãos parece desesperador. Eu posso ir embora também, claro. Para onde eu quiser. Posso voltar para casa. Posso estudar em outro lugar. Posso estudar fora do país. Posso abandonar tudo e fugir para uma cidade com praia. E, claro, eu posso continuar aqui. Coisa que constantes fazem como ninguém; elas se mantém. Mas até que ponto movimentos uniformes de vida continuam sendo sinônimo de resiliência? A estrada para a felicidade não é feita de curvas e desvios? Ou é preciso sempre seguir em frente, não importa o que aconteça, sem parar para dar carona pra ninguém? Por outro lado, é bom me sentir com tempo livre o bastante para questionar essas coisas de novo. Me faz lembrar de todo início de ano, sempre com os meus níveis de expectativa lá no espaço, e dos trancos e barrancos aos quais ele me joga até que eu entenda que a vida não vai ser do jeito que eu esperava que ela iria ser. Não, senhor. Ela vai ser do melhor jeito que eu puder levá-la conforme os obstáculos do caminho. Só que agora não se trata mais de obstáculos, mas do percurso. E enquanto todos vão embora, eu sou aquele cara que vislumbra permanentemente os guichês de empresas de ônibus, sem conseguir decidir para onde quer ir, ou se deve ficar onde está.

   Talvez eu devesse continuar por aqui por mais um tempo. Só até que algo aconteça. Porque alguma coisa sempre acontece. Algo sempre muda. É a benção e a fatalidade da vida. A vida que, por enquanto, pode ser o que eu quiser que ela seja, para onde quer que eu vá.

***

   Ironicamente, nunca me passou pela cabeça o fato de que talvez eu simplesmente não pudesse ir com você. Que você simplesmente não pudesse me levar. Que você precisava ir sozinha. Essa é a tragédia das despedidas. Só nunca saberei dizer ao certo o que dói mais: ser aquele que evita olhar pela janela para dar um último adeus, ou aquele que fica sozinho na plataforma com o coração partido.

   Seja como for: boa viagem.

*Postado originalmente em 23/11/2014.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O direito de ir e "devir"


   Eu acho que perdi o meu “devir”. Não, eu não escrevi errado – tanto é que o Word nem quis me corrigir automaticamente, diferente de quando escrevo meu sobrenome, Moresca, e ele insiste em querer corrigir para “Marisco”, mas tudo bem. A questão é que eu acho que perdi o meu “devir”. O que é “devir”, você me pergunta? Bom, mesmo que não tenha perguntado eu vou explicar. E mesmo que você já saiba o que é, vai continuar lendo mesmo assim. Porque nunca se sabe quando eu terminarei minha aparentemente breve explicação sobre este fenômeno da filosofia, sem que antes eu acidentalmente me perca um pouco na minha própria filosofia distorcida de vida, e suas respectivas ramificações dentro das entranhas da sociedade atual. Hum... Não, desta vez não. Ainda está cedo, só tomei uma xícara de café, e não me sinto tão aloprado e inspirado ainda. Sabe por que? Porque eu acho que perdi o meu “devir”.

   “Devir” é como o caminho para a felicidade; é uma instância filosófica que representa um processo de transformação do ser, de um estado simples e básico para uma matéria mais complexa e significativa. Igual, digamos assim, como um garoto de 17 anos que se muda para outra cidade sem conhecer nada nem ninguém, e apanha insensatamente do mundo real até que este passe a ter forma para viver nesta terra estranha de pessoas relativamente maduras, responsáveis e, até onde eu consigo perceber, melancólicas. Digam o que quiserem, contestem mentalmente tudo o que eu escrevo igual eu paranoicamente sempre imagino que vocês fazem, mas nada me tira da cabeça o paradigma de que, a medida em que nos tornamos mais adultos, também nos tornamos irremediavelmente mais trágicos. Seja pelas vontades que precisam ser postas em espera para que o que precisa ser feito tenha prioridade, ou pelos sonhos que precisam ser guardados no bolso para que a gente não tropece na realidade sem querer a caminho do trabalho, ou pelo amor que a cada vez mais se torna mais um detalhe e menos um foco de vida. Porque dá trabalho, é complicado e custa caro. E quanto a estes quesitos, já nos basta ter que correr para pegar o ônibus para o trabalho, bater um cartão-ponto no horário e economizar para conseguir pagar o aluguel e passar no mercado antes de voltar para casa. Todo dia, das 9 às 17h, exceto Domingos e feriados. Ou não, dependendo de quantos meses de aluguel estiverem atrasados.

   Quando digo que o “devir” representa um caminho para a felicidade, é porque quando se vivencia tal fenômeno, você já não enxerga mais suas tarefas diárias como trabalhosas, complicadas, difíceis ou melancólicas. Pelo contrário, você nem percebe o tempo passar enquanto está tentando equilibrá-las no ar, porque este malabarismo que a gente costuma fazer com a vida deixa de dar medo e passa a ser divertido de novo. Igual quando se era criança e um dia era pouco, era curto, para todas as brincadeiras que a gente sentia vontade. E quando digo que acho que perdi o meu “devir”, talvez queira mesmo dizer: acho que eu me perdi do caminho da felicidade. E antes que você pense alguma injúria ao meu respeito, desta vez eu já admiti de cara o quanto isto é melodramático.

   Eu me recuso a acreditar que só eu já me senti assim. Como se os dias estivessem curtos e esquizofrênicos. Para mim, que adoro uma rotina, esta falta de estabilidade tem sido deveras desafiadora. Só não desisto porque, mais do que divagar sobre melancolia, eu também adoro um desafio. Não necessariamente significa que eu seja bom em superá-los, mas em tempos como este de frio e vento que destrói todos os guarda-chuvas que eu tento comprar (seis, desde 2009, e a contagem continua), tentar superar desafios me parece um esporte muito bom para se praticar dentro de casa. E porque qualquer coisa é melhor do que fazer academia. Qualquer coisa.

   Mas o que eu quero dizer com tudo isto, é que eu sinto muita, mas muita falta daquela sensação tediosa de rotina. E agora eu sei que tem gente que lê a palavra “rotina” e tem calafrios; pude senti-los daqui. Mas a rotina a qual me refiro não é aquela declaração de morte cerebral que algumas pessoas assinam, e em seguida passam o resto da vida em um círculo vicioso de repertórios limitados e reações em cadeia de angústia mental que eventualmente causam com que a pessoa entre em um supermercado, se esqueça do que tinha que comprar, e acabe atirando em todo mundo.

   Eu me refiro àquela rotina mais sossegada, resultado de uma vida mais estável, igual a que eu costumava ter há alguns meses, antes de ter dito “desafio aceito!” muito alto e de ter comprado uma baita briga com a vida, que transformou o meu caminho para a felicidade em uma pista olímpica de obstáculos. E é isto que esses textos tem sido; sou eu, sinalizando mais uma vez, que “Ei, eu caí! De novo! Mas já vou levantar... Só mais cinco minutos...”. Só que isto me fez refletir sobre o verdadeiro significado do “devir”, e se ele deve ser mais uma conquista do que um direito. Só se sente a felicidade depois de cair, levantar e descobrir que é possível continuar seguindo em frente mesmo com o joelho ralado e um corte na testa – a princípio. Efeitos que só podem ser produzidos por aquela pista de obstáculos, patrocinados pela melancolia, que sempre tende a acompanhar os níveis de maturidade que a gente atinge ao longo da vida. Então, se eu estou me sentindo todo quebrado e machucado, mas ao mesmo tempo percebo o porque disto, e nem por isso desisto de continuar tentando ou de passar no mercado depois do trabalho para comprar mais leite antes de voltar para casa, isto significa que eu estive no caminho certo esse tempo todo?
  
   Há quem diga também que o “devir”, ao mesmo tempo em que representa um caminho, também contempla aquela sensação de cruzar a linha de chegada, olhar para trás e dizer distraidamente, “o percurso já acabou?!”. É a sensação de vitória, de conquista, depois de superar tantos desafios, e desviar de tantos obstáculos, e apesar de estar todo ralado e machucado, ainda ser capaz de passar no mercado depois do trabalho e voltar para casa com o leite e o sentimento de dever cumprido. Então, no fim, o “devir” acaba sendo mais uma consequência do modo como você percorre os caminhos que a vida te dá. Às vezes é divertido trilhá-los, às vezes nem tanto. Mas no fim do dia, toda vez que você estiver de volta em sua cama, enrolado na coberta e pelo silêncio do seu quarto, e imaginar “Que dia...”, esta é a prova de que você está mesmo no caminho certo, Igor. Todo mundo tem o direito de ir e “devir”, mas nem todo mundo se compromete a tomar uma direção. Bem ou mal, eu ando me mexendo. Sentir-se sem rumo às vezes faz parte, eu acho.

*Postado originalmente em 03/06/2014.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O modo aleatório


Eu queria ser uma pessoa melhor. Até aí talvez seja um sonho que todos nós temos em comum, mas veja bem: mesmo nos dias menos bem sucedidos em que eu sei que não dei o meu melhor, ofendi alguém aqui e ali, perdi a paciência mais vezes do que prometi que faria (pelo menos em Janeiro), ou até quando não me infantilizo por completo e exijo que o universo me faça o favor de se responsabilizar por não dar um jeito de apagar os erros que eu fiz, eu ainda consigo dormir tranquilamente à noite. Bom, exceto pelo calor, claro. Talvez Foz do Iguaçu seja mesmo abençoada por seu complexo turístico, mas seu ecossistema tropical impiedoso seja o preço que a gente paga por morar tão perto de uma das maravilhas do mundo. Enfim, o que eu estava dizendo? Ah, sim. Eu queria ser uma pessoa melhor, mas só nas questões mais introspectivas mesmo. Deve haver uma linha tênue entre a criatividade e o egocentrismo cuja qual eu provavelmente cruzo mais vezes do que deveria a cada vez que me ponho a decifrar os mistérios e incertezas da vida ao meu redor a medida em que pequenas ironias do dia a dia surgem no meu caminho. E eu sei que existe muita coisa errada por aí – a criminalidade, o buraco na camada de ozônio, a crise econômica mundial – e é por isso que eu sinceramente penso em ser uma pessoa melhor. Mas só no quesito de ter pensamentos introspectivos e linhas de raciocínio mais curtas. Porque o que eu quero dizer não começou com nenhuma grande crise mundial.

Começou com o meu iPod que estragou. Acredita nisso?!

***

Já vai para sete anos que comprei um iPod semi-novo que até hoje nunca soube aproveitar bem todas as funções que ele dispõe. Mas isso não me impediu de cometer os erros que todo mundo comete ao ser imprudente com aparelhos eletrônicos. Como acreditar fielmente que nada vai acontecer com ele apesar de todas vezes em que peguei chuva com ele no bolso, ou sempre que o derrubo no chão sem querer, ou desconto meus problemas pessoais no seu teclado touch e pouco a pouco vou desgastando a funcionalidade (e talvez até a paciência) seu microchip. Mas apear de mim, ele durou por anos mesmo com uma mancha preta na tela (resultado daquela vez em que o derrubei no chão da academia) e desgaste do botão para mudar de música - porque apesar de serem as minhas playlists pessoais, parece que no mundo lá fora nenhuma trilha se encaixa. E vou até deixar passar essa pequena metáfora sobre a condição humana referente a insegurança em padrões culturais ditatoriais , porque eu juro que pensei em algo maior do que isso. Bom, “maior” com base nos padrões que já estabeleci aqui. Talvez não irá mudar a sua vida mas se você leu até aqui, houve um momento em que eu já o fiz e ganhei parte da sua confiança no que compartilho aqui. Porque apesar de não parecer, eu me preocupo com o mundo ao meu redor e o meu impacto sobre ele...

Só que dessa vez fiquei mais preocupado com a tela do iPod que simplesmente ficou branca. Acredita nisso?!

***

É sempre decepcionante quando algo no seu dia dá errado. Claro que existem níveis extremamente diferentes nessa pirâmide, e até agora eu não escrevi sobre nada realmente grave que te convença de que isso é um problema sério – porque, bom, não é. Mas você há de concordar comigo que tem dias que você só vence a maratona de sair cedo de casa para ir trabalhar, sem esquecer dos compromissos paralelos que você precisa dar conta ainda em horário comercial – a consulta no dentista, a mensalidade da faculdade, as sete ligações não atendidas da sua mãe que está no centro e que te avisou que só ia te dar um toque para você retornar pra ela porque quem está interessado em ter aquele boleto pago é você e ela só fez o favor de ir ao banco pra pagar, já que você é um irresponsável que deixou ele vencer e agora a lotérica não aceita mais... Enfim, tem dias que você só passa por tudo isso sem ser preso por homicídio culposo com uma trilha sonora para te acordar pela manhã e para te acalmar quando volta para casa.

Quando a tela do iPod desistiu de mim, um único pensamento me veio em mente: “que saco agora ter que ir pra lá e pra cá sem ouvir música”. Até eu decidir tentar sair com meus fones de ouvido mesmo assim, porque mesmo sem a tela ele ainda estava funcionando; eu só não podia mais escolher o que queria ouvir. Ainda era possível usar o teclado até a opção “modo aleatório” e deixar que ele tocasse o que seu microchip bem entendesse. E foi aí que eu entendi...

A vida é aleatória. A gente tem a mania incessante de fazer planos e circular datas no calendário, e de achar que quando algo sai como planejado é porque “ainda bem que sou uma pessoa organizada.” Talvez você seja, mas é mais fácil estar incluso nas margens de erro do que nas metas projetadas quando o assunto é vida. Pessoas vem e vão, oportunidades falham, sonhos mudam e coisas quebram. E isso é só uma noção básica sobre o mundo ao meu redor, porque se entrar em todos os detalhes minuciosos, nenhum de nós jamais dormiria de novo. Pode parecer errado, mas sobrevivência às vezes depende de um pouco de egoísmo. Neste caso, de supervalorizar os próprios problemas em comparação com os dos outros. O que faz de nós “pessoas melhores” invariavelmente é nunca se esquecer de que existe um contexto muito maior do que nós e as músicas que ficamos esperando que toque no caminho de volta para casa, para fechar um dia difícil com um pouco de louvor.

Nem sempre a gente se lembra de que a vida mesmo toca a música que ela quiser. Ou você dança conforme o ritmo, ou ponto final. Quanto a isso não há alternativa ou assistência técnica que resolva. Mudanças são inevitáveis, mas parecem mais fáceis de serem aceitas quando a iniciativa parte da gente. Quando trocar de música nos é permitido, mas geralmente não é. E é aí que nascem as frustrações, o estresse e as crises existenciais. A vida nunca será do jeito que você quer que ela seja. Quanto mais cedo você parar de acreditar que poderá ser, ficará bem mais fácil se adaptar a outros ritmos.

Acredite nisso.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Personalidades no limite


Uma das primeiras coisas que me chamou a atenção desde a primeira vez que visitei Foz do Iguaçu foram as placas de trânsito pela cidade escritas em inglês. Por algum motivo eu achei incrível a idéia de morar em um lugar onde até mesmo o trânsito possui caráter internacional. E como algumas pessoas já me disseram, é possível encontrar gente de todos os lugares possíveis por aqui. Como os turistas americanos que sempre me param na rua para perguntar aonde fica o terminal central, ou a vez em que liderei uma família japonesa ridiculamente entusiasmada até uma churrascaria por não conseguir simplesmente lhes informar que era só seguir em frente mais algumas quadras da onde estavam. Enfim, são coisas que eu imagino que só devem acontecer por aqui.

Entre o Brasil e a Argentina existe uma que sinaliza o “trânsito fronteiriço” que se forma nas aduanas, pouco antes da ponte Tancredo Neves até o caos que se instala próximo a entrada para o Duty Free em Puerto Iguazú – e é uma expressão que nunca parei para conceber antes. Mas trocando em miúdos, é assim que Foz do Iguaçu talvez possa ser definida: um trânsito fronteiriço entre o Brasil e o resto da América do Sul. Claro que também é possível cruzar a fronteira pelo Rio Grande do Sul, mas não me parece ter o mesmo status que a travessia Iguaçuense. Para mim existe algo mais tradicional em Foz do Iguaçu, mas as memórias tem mesmo essa propensão de serem supervalorizadas pelo afeto que associamos a elas. Isso, e o fato de que as minhas referências gaúchas se resumem a chocolate, vinho e um frio absurdo – no tempo em que ainda existia frio no Brasil.

Enfim, entre travessias e vistorias pela alfândega, parte da minha mudança para Foz do Iguaçu – assim como a maioria das minhas decisões na vida – foi por afeto. Aquelas placas que diziam que a Argentina fica à esquerda, o Paraguai à direita e o centro da cidade seguindo reto passavam mesmo uma impressão de que existe um mundo maior do que eu podia imaginar até então. Maior do que Londrina, Cascavel ou qualquer outro projeto que eu pudesse ter que sempre parecia se limitar a um só município nacional. Não que a minha ambição esteja mirando em metas que vão além do rio Iguaçu, mas... Por que não?

A psicologia define personalidades do tipo “borderline” como aquelas que estão perto de romperem com a lucidez que nos permite viver saudavelmente em sociedade. E a ficção, aqui representada pelo Coringa, descreve que a loucura é como a gravidade; só é preciso um pequeno empurrão para que alguém passe do limite. “Borderline”, do inglês, traduz-se literalmente como “a linha da fronteira”, e é nisso que eu tenho pensado ultimamente. Porque apesar de já morar em Foz do Iguaçu há algum tempo e de já ter seguido as placas de trânsito em direção aos países vizinhos, existem certas fronteiras que eu ainda não consegui atravessar.

Acho que todos nós devemos ter nossos limites, e talvez sejam resquícios de grandes mudanças. Depois que a poeira abaixa, nós lentamente procuramos uma nova rotina e nos prendemos a ela a ponto de que algo pareça familiar de novo. Eu já conheço bem alguns caminhos da cidade e há algo de reconfortante em saber como dar direções corretamente para turistas perdidos que me param na rua para perguntar como chegar ao marco das três fronteiras ou ao museu de cera. Mas a essa altura o que eu preciso mesmo é de uma familiaridade que vá além da geografia. Algo que vá além das placas de trânsito e paradas de city tours. Aliás, não algo... Alguém.

No fim não importa realmente se você sabe ou não o seu próprio CEP. O limite mais assustador de todos a ser atravessado sempre será aquele entre você e outra pessoa que você deseja conhecer. É isto que faz de todos nós personalidades “borderline”. Loucura mesmo é nunca tentar atravessar.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

2016


É um fato da vida: a partir da segunda quinzena de Janeiro, já é oficialmente permitido voltar a reclamar de tudo e de todos. O cheiro de ano novo já se dissipou, algumas resoluções feitas a partir de brindes de frisante e otimismo já foram desfeitas, e já é possível comprar três panetones pelo preço de um agora que o espírito natalino teve sua desvalorização natural com o reajuste das expectativas das pessoas – que deixou de ser em prol de desejar tudo de bom e de melhor para todos, para desejar apenas que não chova durante os dias em que você estiver na praia. Seja bem vindo a 2016: aproveite sua estadia e tente não cometer os mesmos erros que fizeram de 2015 a tragédia que foi.

Acho que nós todos tratamos 2015 muito mal no fim, bem como costumamos tratar todo ano que termina como se isto fosse trazer mais sorte no próximo. 2015 não foi uma tragédia completa, apesar de ter tido sim sua grande parcela de sangue, suor e lágrimas. Foi um ano de desajuste em todos os níveis imagináveis: físico, econômico, emocional, espiritual... Barragens cederam, terroristas atacaram, liberdades de expressão foram questionadas, crenças foram levadas ao extremo, corrupções políticas atingiram um novo grau de descaso, e no fim só o que nos sobrou mesmo após a ceia de ano novo foi tentar digerir tudo isso para que pudéssemos tentar começar um ano novo com um pouco mais de esperança. Nem que fosse pelo simples fato de que 2016 simplesmente não poderia ser tão caótico quanto 2015.

Mas assim como as superstições de pular sete ondinhas, comer uma dúzia de uvas, estourar champanhe à meia noite e desabafar sobre como o ano que já passou foi péssimo, parece que esperar que tudo seja diferente de agora em diante invoque uma crença mais infalível do que os mistérios da metafísica: a própria física. Neste caso, um adágio que Edward A. Murphy descreve carinhosamente como: “se algo pode dar errado, dará.”

Não querendo acabar com o otimismo de quem ainda nem desmontou sua árvore de natal por querer esticar um pouco mais os votos de paz e boas festas por mais um tempo – ou, convenhamos, por preguiça ou para evitar se estressar com o emaranhado de fios do pisca-pisca que demorou tanto para arrumar – mas as coisas são como são. E em duas semanas 2016 não tem sido nem tão bom nem tão mal, mas...




***

Claro que eu ainda espero muito de 2016, mas só desejar que o contexto se alinhe aos meu caprichos já não faz mais jus a minha idade e, principalmente, às minhas possibilidades. Esperança é importante mas atentar-se às circunstâncias talvez seja um pouco mais, e eis a raiz da minha frustração já característica dos meus verões. Algumas pessoas viajam, outras aproveitam para renovar a própria casa. Eu só sento e espero que as coisas melhorem por conta própria, e fico ridiculamente indignado quando nada realmente muda. Ainda não acho que esperança seja uma droga cujo controle de distribuição seja necessário, visto que a criação de expectativas ainda é liberada pelo governo liberal. Mas não sem seus altíssimos impostos a serem pagos.

Tudo isso é só para dizer que eu quero que este ano seja melhor, e que sempre haverá manchetes devastadoras e circunstâncias que vão além dos nossos gostos. Toda crise tem seus efeitos côncavos e convexos, e esperar que um momento ruim faça-se rarefeito por conta própria é tão infame quanto esperar a piedade do vento em pleno verão de Foz do Iguaçu – ou, como eu gosto de chamá-la, “a terra que o El Niño nunca esquece”.

Eu quero construir um 2016 melhor para mim, mas qualquer um que entenda um pouco sobre obras sabe que o segredo de qualquer construção está na fundação. É o que faz a diferença entre manter um prédio de trinta andares em pé ou a declaração de um estado de emergência pós-desabamento. E eu admito que a minha fundação anda terrivelmente desequilibrada, com muito impacto a ser estudado antes de qualquer trabalho começar a ser feito. E talvez seja isso o que sirva para balancear as minhas esperanças e expectativas que invariavelmente tendem a crescer em mim a cada resquício de possibilidade que encontro por aí: refletir um pouco mais antes de anunciar que grandes mudanças estão por vir. Mesmo que a obra atrase um pouco mais do que o previsto, é melhor investir em algo sustentável do que lamentar por um novo desastre.

Fica a dica, Samarco.